2010-01-24

What if, What was, What will be

Mesmo que "Desperate Housewives" seja uma série televisiva cara, o custo de um só episódio anda várias vezes abaixo de um filme de pequeno orçamento, como é, por exemplo, "Nas Nuvens" (25 milhões de dólares), que referimos aqui. E menciono este pormenor para dizer que não é a primeira vez que sinto que um episódio vale bem mais, artisticamente falando, do que vários filmes de cinema juntos. "Nas Nuvens" não é um mau  filme, pelo contrário, mas passa uma mensagem plana, suave, valendo-se de excelentes actuações para sair da mediania. E repito as referências a este filme porque o visionamento do 11º episódio de "Desperate Housewives" mostra à saciedade o poder de uma argumento superior (também pejado de grandes intérpretes), tão poderoso que convoca comparações com a melhor literatura e com o melhor cinema.

Já não é a primeira vez que falo de cinema literário, e também não é a primeira vez que menciono o poder literário do argumento de "Desperate Housewives", série que quase sempre me inspira a escrever, e cujo estilo e recursos técnicos são absolutamente brilhantes.

Este episódio fica, desde já, não apenas nos anais da série, mas de todas as histórias escritas para qualquer tela. Centrado em várias reflexões "What if" (também por lá andei no livro anterior, e sei o quanto um exercício desses, praticado de forma honesta, pode ser útil - social e tecnicamente), o episódio conclui que a vida deve ser construída e rematada com "What was"s e "What will be"s, mesmo que, de passagem, nos deixemos divagar pelos "What if"s.

O momento "what if" de Lynette Scavo é das mais pungentes abordagens da vida intra-uterina que alguma vez vi, e quem dera aos detractores do aborto terem-no tido disponível no momento adequado da sua luta (e não estou aqui a tomar partidos). Não sei se é de mim, mas parece-me notável que uma série centrada essencialmente no humor cáustico, mesmo negro, com um tempo médio por episódio de 40 minutos, consiga aprofundar assim, num só pedaço - breves minutos - de um dos seus episódios, uma mensagem que normalmente leva meses a passar (ou nunca passa) e num meio, a televisão, que quase sempre se quer suave e comestível.

Não, não sou um fã incondicional de coisa  nenhuma em televisão (pronto, está bem, exceptuando o "Lost"), e até abandonei esta série na 3ª temporada, mas tenho de reconhecer que, "Lost" incluído, ninguém escreve tão bem como os argumentistas de "Desperate Housewives" e que ignorar a série é dar pontos ao lado frívolo da vida.

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