2010-01-04

Soraia "Dietrich", "Gardner", "Monroe" Chaves

Está na hora de dizê-lo num texto autónomo e sem sorrisinhos gráficos a acompanhar, ou seja, falando sério, sem as merdices afectadas da pseudo superioridade intelectual que muitos, como eu, muitas vezes ostentam, como se estivessem a dizer verdades insofismáveis e/ ou absolutas, tentando inclusive escapar àquele irritantezinho tom alternativo do politicamente incorrecto e assumindo o risco do que se diz:

Soraia Chaves (já) é uma excelente actriz.

Claro que esta afirmação vem sempre acompanhada da piada do costume, a que alitera "actriz" de forma brejeira. Mas não.
Não hoje, e não aqui.
Queria ver se íamos para lá da defesa do beicinho (tenho sempre de dizer que é legítimo) contra as invectivas das senhoras inseguras (que não nos deixam gostar dela só porque sim).
Não é preciso dizer, também, que o seu percurso profissional mostra, apenas e só, coragem (primeiro), e ponderação e inteligência (depois).
E até calma.
Nada de internacionalizações súbitas, erro que até, por exemplo, um grande actriz como Penélope Cruz cometeu, tentando actuar em inglês quando os seus lábios explosivos ainda não articulavam uma só frase decente nessa língua. Acontece que Penélope já era grande lá atrás (há quase 20 anos): quem se lembra de a ver (e chorar por mais) na magnífico comédia "Belle Epoque" , de Fernando Trueba (1992)?

Comecei por observar Soraia Chaves como todos os homens de bom gosto, entre o espanto guloso e a incredulidade, porque nenhuma nudez conseguia obnubilar a qualidade da sua prestação, que ia bem para além da pele, no fraquinho "Crime do Padre Amaro" (boas frases - breves boas frases - não fazem um bom livro, breves boas cenas - e há-as, impressivas, estilizadas - não fazem um bom filme, sequer um bom tele-filme, mas tem de se admitir: foi um -certo- marco).

Quando estreou "Call Girl", eu estava seguro da (boa) prestação dela, mas foi difícil não ter ido ver o filme (assumo a minha limitação: não o fui ver, porque não era suposto ir vê-lo - um erro crasso, como se vê;), e ainda assim ter de filtrar todas as críticas de todos os críticos, metade delas com agendas claras, como aliás metade de todas as críticas sobre tudo, o que, sendo lamentável, é o que temos, e assim vai o nosso mundo (e o nosso pequeno país).

Na noite em que passa "Call Girl" em Portugal, pela primeira vez, na TVI ("as i'm writing this":), não me surpreende a classe pura de Soraia, que é muito dela, mas muito mais da actriz de fôlego em que se está a tornar. Salto para o sítio mais fiável de crítica cinematográfica, o bom e velho povo do IMDB.com , e também não me surpreendo com os elogios, que aliás foram generalizados em Portugal, mesmo nos críticos mais empedernidos. Aqui há um albanês que lhe dá 10 em 10, e diz que ela devia entrar imediatamente na constelação Hollywood (not so fast!), e outros que tentam perceber a quem se cola ela, sendo que quase todos dizem que não é a Monroe, mas será mais a Ava Gardner ou a Marlene Dietrich, etc, etc.

Quanta honra.

Soraia poderia perguntar, por esta altura: porquê colar-me a um modelo?
Verdade, mas quem gosta efectivamente de cinema tem memória, e gosta de a exercitar.
Deixo à Soraia crédito e competência para se destacar de quaisquer modelos, mas a mim apetece-me dizer que, não tendo ela os recursos universais da Norma Jean Baker, não tendo nascido onde era suposto, na América das estrelas refulgentes que vieram a brilhar a partir dos fifties, tem certamente a capacidade de chegar com maior brevidade onde a Marilyn demorou ainda um bom bocado, e todo o seu corpo, a chegar:


E quem viu "Os Inaptados" como eu vi, e trouxe esse filme vida fora como uma referência de "acting", como eu trouxe (Clark Gable, Montgomery Clift e, claro, Marilyn), e sabe como ele costurou o destino dos três protagonistas, que afinal pagaram um preço demasiado alto pela excelência, e morreram todos pouco depois, sabe ao menos que pedir meças para Soraia, neste ponto e neste momento, sem dramas e costuras do destino, sendo arriscado, é justo.

Ela foi para Madrid aprimorar-se, temos para breve "A Bela e o Paparazzo", mas o que importa aqui assentar, hoje que o seu excelente papel no nada mau "Call Girl" passou em canal aberto, é que já não faz sentido oferecer sorrisinhos gráficos ou matreiros a uma mulher que é já uma senhora no cinema português, simplesmente porque o cinema português não tem mais nenhuma como ela, nenhuma que ocupe o espaço notável que conquistou para si própria, e eu diria que o mundo, mesmo o mundo, não tem assim tantas "dashing women" para dispensar.

Estejam, pois, atentos, e nuzinhos de preconceitos, como ela, afinal.

Um caso sério, é o que é.

Soraia Chaves, pois, ei-la.

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