2010-01-09

Olá Abbie, olá John, Olá Jane (Cornish, Keats, Campion)


Não sei o nome dessas flores.
Chamei-lhes alfazemas, mas não são.
Sei o nome dessas mulheres.

Jane Campion constrói o que dela se espera sempre: uma obra-prima.
Que é pintura, literatura, música, portanto cinema, grande cinema.
Desta vez bem menos compreendida do que que qualquer uma das anteriores, postas ao serviço de um outro espectáculo, o da transfiguração das celebridades hollywoodescas (que neste filme não existem).
O seu "Bright Star" ("Estrela Cintilante") exalta o poeta romântico inglês John Keats, e para através dele asseverar a autenticidade do amor de Fanny, exalta as palavras e o cinema! Chega a parecer um amor por SMS, eles que são separados dentro da própria casa, que têm de se escrever à vista um do outro. Quem disse que as mensagens curtas são de agora?
"Good Night", escreve ela num pedaço de papel para ele colocar debaixo do travesseiro.


Já Abbie Cornish é surpreendente.
Esta actriz australiana tem quase trinta anos, dá uns breves ares de Nicole Kidman, e finalmente vai deixando de aparentar dezasseis.
É filmada transversalmente por Campion, como aliás todas as suas heroínas ou anti-heroínas, e não há como evitar adorá-la e exigir uma nomeação imediata para Óscar, algo muito improvável, dadas as tendências dos Globos de Ouro (valha-nos Emily Blunt ou Marion Cotillard:).
Abbie tem composições magníficas para se misturar com o ambiente de há duzentos anos e com o amor de Keats.
Já não há, nunca houve, outra "Fanny" Brawne!
Quando a virem no final, seguida bosque fora pelo irmão Samuel, nos trilhos do seu profundo amor por Keats, declamando para dentro de nós o poema de que ela foi objecto e dá nome ao filme, se a virem sibilando
"Bright star, would I were steadfast as thou art -
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death."

, digam-lhe que não se espera menos do que isto no firmamento.

Fontes fotográficas: Campo ; Abby e Ben

PS: Deixem-se ficar para os créditos finais, e ouçam o actor Ben Wishaw a dizer Keats sem legendas (apesar da excelente tradução). Vale a pena, creiam-me. Nunca tinha ouvido dizer Keats, muito menos sem a muleta de legendas, e não sou grande apreciador, mas confesso: aquela música bem dita levou-me para outro plano. Gostei muito.

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