2010-01-12

O meu Atlântico a Norte

No início de cada corrida, escolho o Norte ou o Sul. No Verão, vou quase sempre para Norte, no Inverno quase sempre para Sul.

Gosto do vento Sul, gosto especialmente de correr com chuva de Sul, embora seja o vento Norte que prenuncia o bom tempo, ou garante a sua manutenção, na minha bitola de leigo.
Não gosto nada do vento da serra, gelado e lateral (como o que estava ontem, em que foi particularmente duro correr), e gosto pouco do vento do mar, também lateral e especialmente agressivo e húmido.

Hoje tinha ouvido pela meteorologia que estava vento sul, e realmente a chuva era tanta que presumi não haver engano. Diziam que rodava para oeste ao final da manhã, mas estavam duplamente enganados.

Esta chuva de noroeste varre tudo e projecta-se em nós como uma lança, mil lanças.
Assusta o estado do mar, dos rios e ribeiros, furiosos, saltando das margens e destruindo a vizinhança.

Mas há um pormenor que me confere sempre uma especial humildade, e por isso um especial prazer, porque a emoção de aprender com o esmagador entorno que não se domina é incomparável.
Percorro pela areia as praias onde me deito ao sol no Verão, ou melhor, o lugar onde elas estavam, porque as praias que conhecemos, como as conhecemos, deixam de existir, e percebo que nada permanece, e porque nada permanece, nada existe, tudo se projecta em nós em devir.

E é esse o banho de humildade que recomendo:
Logo que estie, e pela peso das nuvens ainda vai demorar umas boas horas, talvez dias, a estiar, um passeio sobre a areia, não a montante das dunas mas à beira-mar, pode ser uma inesperada lição de humildade.

Nada permanece, e o nosso canto é, cada vez mais, interior.

Crónica desde o meu Atlântico a Norte.

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