2010-01-07

Avô Mau (Bad Grandpa)

Não é fácil morrer na Ponte de Brooklyn.
Não foi fácil para ela.

De algum modo, as águas geladas e revoltas do Hudson pareceram-lhe o manto seráfico das estrelas que ele só relefectia nas raras noites de Verão em que se detinha. Rosemary garantia-me que parava mesmo, fazendo barcos e pessoas e todos os tipos de ventos esperar por ele.

Câmaras de segurança filmaram-na a cair, e o mundo ridicularizou-a por causa da máscara.

Eu sou o irmão rico de lower Manhattan, e o que vi foi isto:

Rosemary sabia-o desde o início, mas nunca o quis aceitar.

Sabia-o pelo menos desde que o seu pai se recusara a ir ver o neto recém-nascido a um subúrbio triste bem para lá de New Jersey, para onde o insucesso e o orgulho a atirara, cada vez mais remota, desligada, cada vez mais longe da sua amada New York, sabia-o desde esse dia, em que ele exigiu que não o chamassem "avô" por ser novo demais para isso, culpando a filha de parir a torto e a direito (Johnny era o seu primeiro filho).

Sabia-o desde pequenina, quando tudo o que o pai via nela era um suposto lado negro (que nos anjos não existe, como se sabe), e afinal foi assim toda a vida, o pai a supor o lado negro dos outros, e a enrolar gargalhadas sobre a barriga como se tivesse descoberto a verdade absoluta, sem poupar nem o mais luminoso dos seres. Rosemary, afinal, era preta mas era branca, porque era essa a cor das coisas que ela tinha, que eram poucas mas eram, por exemplo, a serenidade e a lucidez, mesmo pequenina, quando para se guardar do ódio (que ela dizia involuntário) do pai fingia estar a lutar contra um tal de Darth Vader, fazia sentido, o lado negro da força, e era tão bondosa que dizia que, embora negra, uma força era uma força, havia de ter uma coerência e um sentido, um final feliz. Eu sempre lhe disse que ela estava a ser injusta com o Darth Vader. Nunca acreditei muito que o meu pai algum dia mudasse.

Pensámos que ele tinha melhorado quando traiu a nossa mãe e a deixou pela amante. Isso acabou por fazer a minha mãe definhar e morrer, e aquele buraco fundo de virtudes, de repente, fragilizava-se aos olhos dos filhos. Amansou, e começou a chamar-nos para junto dele todos os dias de Reis, começou a chamar-nos para se vingar do Natal que já não podia ter, e os primeiros reencontros em família foram estranhamente redentores.

Mas o Darth Vader que magoava acabou por reaparecer, paulatinamente, como a nova trilogia da saga, uma curiosa analepse que nos foi explicar o passado.

Johnny, o neto renegado, ia crescendo, e Rosemary espantava-se com a resiliência da criança, que tinha sempre olhares e palavras doces para o avô que nunca via, nas vezes que o via.
Durante o ano que passou, Johnny sentiu os dedos começar a deslizar sobre o piano, e essa evolução encheu-o de vaidade, ao ponto de planear com a mãe o acompanhamento de uma conhecida cantiga de Natal, para todos cantarem no final da ceia. Acho que vou ser capaz, mãe. Vais ver. O avô ainda tem aquele piano electrónico? Parece que tem, lá para os fundos. Pede-lhe para o tirar para fora. Rosemary pediu três vezes. O menino tem uma surpresa para si.

Ontem, no dia de Reis, o piano não estava armado.
Rumámos todos ao apartamento envidraçado sobre a New York de Rosemary, a casa onde todos crescêramos, mas a que ela dava um valor particular por ter sido a única a sair da lower Manhattan, razão pela qual, quando conseguia superar o reencontro com o pai e a ajuda à ceia, se retirava para a vidraça e tomava o seu longo momento a fumar um cigarro sobre a cidade.

Ontem, na noite do dia de Reis, eu, os meus irmãos e o meu pai comportámo-nos todos como os trogloditas, não vos sei explicar porquê, mas é assim, a verdade é que a vida nos remete os horizontes para longe, vemos desporto na televisão, jogamos poker online, mas não conversamos, ninguém conversa nestas ceias a não ser Rosemary e a minha mulher, que se juntam e protegem uma à outra desde o início porque já sabem no que aquilo vai dar.

Ontem, contudo, Rosemary e Johnny tinham um plano, um projecto, e eu acabei por reparar nos sinais surdos do pequenito, que com os seus olhos doces ia interrogando a mãe, sempre em silêncio. Quando é o momento? Quando é o momento?
Rosemary ganhou coragem, e perguntou:
- Sabe dizer-me onde está o piano, pai?
O pai não falou.
Como eu tinha acordado momentaneamente do turpor primário, enquanto todos os outros, incluindo o velho, continuavam a jogar poker no facebook, levantei-me e abri algumas portas até encontrar o piano electrónico.
Quando estava a montar o tripé, a voz cava do meu pai projectou-se pela casa, perguntando:

- Vais tentar impingir-nos o talento do teu filho?

Por momentos, a sala gelou. Rosemary estava lá dentro, a retirar o piano, e não ouviu, mas os olhos doces de Johnny ficaram suspensos num breve pânico, como se um edifício ruísse diante dele, e como isso não se faz a uma criança de dez anos, não se tolda assim uma esperança e um futuro, eu enfrentei o meu pai pela primeira vez na vida e disse-lhe:

- Shut de fuck up, Pap!

Levantei-me e fui dizer à Rosemary que ela não ia querer levar o piano para a sala, quando lá de dentro o velho gritou:

- I'm talking to her, not to you.

Como se só Rosemary estivesse excluída da misericórida, como se só Rosemary, por ser inteligente, serena e, principalmente, independente, fosse o seu alvo, a sua mártir, o seu saco de pancada.

- Can't a man tell a joke, anymore?

Já não podia vingar esta sua forma cobarde de pedir desculpa, Can't a mal tell a joke?, Eu disse à minha irmã para sair comigo e com o Johnny, eu levava-os a casa, mas ela agarrou-me as mãos e murmurou, com os olhos marejados:

- Não posso...preciso do que está dentro nos envelopes. A sério que preciso. É o único dinheiro que ele dá por iniciativa própria. Preciso eu e precisa o Johnny.

Foi para mim insuportável a humildade e a dignidade da minha irmã. Explicou-me em surdina que o pai não podia ser tão mau como parecia, que era impossível, que era a solidão, o afastamento da amante, que o pai mantinha aquele apartamento em Nova Iorque por causa dela, Rosemary, que quando estava longe da amante ficava desorientado, afinal a bondade da minha irmã projectava-se num pai virtual que até podia existir nas profundezas, mas que nunca em quarenta e cinco anos de vida de Rosemary tinha sobrevindo. Nem sobreviria.

- Isso até pode ser tudo como dizes, Rose, mas hoje sou eu que mando.

Atravessei a sala, procurei os envelopes com o nome dela e de Johnny aos pés da árvore de Natal que a empregada filipina tinha montado dois dias antes, e disse friamente ao meu pai:

- Presumo que não seja este o dia que marcaste para deserdar a tua filha.

e entreguei-os a Rosemary e puxei-a a ela e a Johnny para fora e os trogloditas permaneceram em silêncio, num misto de espanto e irritação por terem os jogos de poker em suspenso.

No carro, Jonny chorou de raiva e repetiu todo o caminho:

- Bad Grandpa! Bad Grandpa!

À chegada, disse ao meu sobrinho que preparasse o primeiro recital de piano para o dedicar ao avô. Ele percebeu. Vinte anos depois, e antes que a imprensa apanhasse esta história, eu sabia que tinha de a ler neste preciso momento, pensava até que ia chorar, mas não chorei.

(mas a plateia chorava, porque a plateia somos todos nós, e todos nós temos uma história destas para contar)

E depois deste primeiro recital, Johnny, trinta maduros anos, vai rumar ao cemitério do Jardim e depor uma camélia branca na campa do avô, não na campa da mãe, mas na do avô, não na campa da mãe mas por causa da mãe, porque a camélia branca simboliza a beleza perfeita, e Rosemary era assim, negra mas branca camélia com serenidade e pureza

(omiti a frase que não tinha sido escrita mas me veio à boca perante a plateia, "a pureza que morreu estupidamente cedo contra a malquerença que morreu estupidamente tarde", mas eu não acreditava realmente nisso, apenas me perguntava como é que alguém podia passar uma vida inteira a magoar os outros por causa da sua solidão, que é sempre a sua frustração, como é que se pode pedir a alguém como Rosemary que se habitue ao desprezo e não se atire da ponte de Brooklyn, como se atirou, mesmo com o filho criado e bem sucedido, e como é que o Darth Vader pode escolher uma campa tão bela como a que o meu pai reservou para ele no cemitério do Jardim).

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