2009-09-30

O Segundo Olhar, os Afectos e os "Requests"

Já é raro dizer hei-de emprestar-te um livro, e que raio de saudades tenho de ir a casa de um amigo que me "roubou" um livro que ainda não tinha lido, ou já tinha lido mas com o qual tinha uma relação especial de posse, ou só porque ia a meio, e esconder o meu próprio livro entre as minhas coisas para o levar de volta - aconteceu não há muito com a Valsa Lenta do Cardoso Pires.
Agora pouco fica escondido, tudo se mostra, manda-se por mail ou exibe-se logo no messenger, vê isto, vê aquilo, aquilo está demais, e mesmo eu, que fujo dos forwards como o diabo da cruz, sinto que vejo coisas a mais.
E o caso daqueles que ainda não percebem o que escrevi no último parágrafo?
Não é nada de que se devam gabar. Eu ergui uma cortina às notícias televisivas, já não as vejo de fio a pavio, e prefiro o que vai transpirando nas redes sociais, uma abordagem à actualidade de muito maior qualidade, e em que nem todos são redundantes ou estafados, mas não saber de nada disto, não perceber o que é o messenger,o facebook ou o twitter, claro que é analfabetismo.

E os afectos?
Neste momento, todos falam com todos, figuras privadas com figuras públicas, os primeiros mostram sempre especial ansiedade, os segundos tentam proteger-se, mas a verdade é que, ainda que as relações careçam de solidez, transmitem-se hoje mais afectos, de forma mais directa, mais próxima, do que nunca. Irónico.
Mas cada vez se desconfia mais de uma mão estendida ou de alguém que nos pede um abraço.

Eu tenho resolvido alguns problemas com um segundo olhar.
A tendência, hoje, e dado o exposto, é ir resolvendo tudo à primeira para seguir em frente.
Mas como todas as perversões do tempo, nada nos impede de resgatar velhas virtudes, e devotar um segundo olhar a algumas coisas e pessoas.
Não raro ouvimos os primeiros acordes de uma música e decidimos não gostar.
Depois, um chato qualquer obriga-nos a ouvir aquilo várias vezes durante uma viagem, fala-nos da história da música, e, sem querer, dá-nos um segundo olhar.
Vamos correr, estamos no escritório, em casa, e sentimos necessidade de voltar a essa música, de saber mais sobre o cantor, e começamos a puxar um fio de onde caem, as mais das vezes, coisas surpreendentes e maravilhosas.
Isso é navegar.
Quem navega, quem diz que gostar de navegar, tem precisamente este comportamento.

A navegação, quando é segura e sustentada, leva-nos a segundos olhares, e então, fazendo nós próprios a triagem (quem envia tudo para todos, muitas vezes de forma automática, perde a credibilidade, parece coleccionar coisas para mostrar e ele próprio deixa de as ver, deixa de aprender, torna-se frívolo, oco, vazio).

A outra face é a perversão dos novos hábitos. Os "Requests", por exemplo.
Os "Requests" são pedidos de "amizade" nas redes sociais, em particular no facebook, e, como se pode ver num recente anúncio da TMN, "I moche you", a miúda diz que tem seiscentos e tal amigos e sete requests.
Ora, eu também tenho alguns requests a que não posso responder positivamente, alguns pelas melhores razões, mas isso não me deixa feliz, nem é de anunciar.
No entanto, o tom com que se "anunciam" os requests é, neste caso, uma perversa medida do sucesso. És tanto mais popular quantas as pessoas que tens a pedir-te "amizade", ou seja, alegras-te por aqueles que ignoras.

Em vez de rejeitar liminarmente os novos tempos, temos de continuar a ser críticos, construtivos.

Sobre os afectos e os segundos olhares, há um momento que sempre magoou qualquer passante, que é aquele em que cruza olhares com alguém que o marca, e sabe que nunca mais vai ver essa pessoa, ou mesmo quem se cruza todos os dias com alguém que acaba por fazer parte da sua vida, e que de repente desaparece:
nas redes sociais, um dia, podemos aproximar-nos desses desconhecidos fascinantes e dizer-lhes isso mesmo, que são desconhecidos fascinantes, e às vezes surgem laços, coisas boas que acrescentam, e não retiram, vida. E estão lá. Raramente desaparecem.

Crédito fotográficos: fonte (autor não identificado)

2009-09-27

Cinderella Redshoes

Quando se diz que ela tem tudo estudado, as meias vermelhas, os sapatos vermelhos, os vestidos fluidos que deixam que lhe adivinhemos o corpo sem que as suas formas nos sejam entregues de forma óbvia, a altura (baixa) do microfone, a forma como ela a ele se agarra, a obliquidade do corpo enquanto canta, uma perna formando linha recta com as costas, a outra dobrada, em apoio, mais exposta, o joelhinho apontado para nós, os pés a pisar pedais invisíveis na espuma de ondas eléctricas, musicais, carnais, o modo quase sofrido como toca nas teclas, o cabelo agora liso, a formar com a repa um ângulo quase iconográfico, quando se diz que ela tem uma estética própria e calculada, esquecemo-nos do essencial.

Esquecemo-nos de que ela é música, compositora, executante, e que já cá anda há uns aninhos a forrar paciente e competentemente a glória de outros.

Esquecemo-nos de que ela é uma pessoa, e que uma pessoa, é, por definição, frágil.

Ao mesmo tempo, quem a vê em palco - e eu escrevo depois do concerto de Arouca, e embora tenha valido pagar o de Vila do Conde para a ver chegar até nós sem dores de pescoço ou encontrões, fica definitivamente confirmado que não cansa vê-la ao vivo, seja onde for e em que condições - tem a sensação de que ela se imaterializa, alçando-nos ao seu conto de fadas de forma imperceptível, e fica-se para ali encostado a sorrir-lhe como se ela fosse só nossa, como se ela nos cantasse ao ouvido.

Oh, Blue Bird take me away...

É por isso que perturba, que afaga, os mais empedernidos.
E acabamos por não perceber que plenitude é esta que ela nos dá, algo que nos descompõe, que nos leva a sentimentos primordiais.

E às vezes é não vista que se percebe que vai muito para lá do óbvio.
O momento do concerto de Vila do Conde em que a luz azul invade o público e a Rita fica na sombra, sem ser vista mas vendo-nos, não me ficou na retina, mas na alma, e foi algo de tão belo que magoa lembrar.

Oh, Blue Bird take me away...

Arouca não tinha resguardo atrás do palco.
Aliás, chegava-se ao parque milénio pela parte de trás do palco, e como esse é o resguardo de qualquer saltimbanco, não sei se tive a sorte, ou o azar, de ver a boneca de trapos à luz dos candeeiros da rua, numa semi-penumbra, um oportunidade para confirmar que a Rita é gente normal.

Mas não é. É muito melhor.
Não é um palhaço que se maquilha e desmaquilha, olhando triste e esgotado o espelho do camarim enquanto se constrói ou desconstrói.

A Rita é mesmo assim, a sua postura em palco é de comunhão absoluta com o público (como é delicioso o estilo Amália dos seus incontáveis "Muito Obrigado", e a forma como todos os seres vivos são para ela "senhores" e "senhoras"), a sua postura fora de palco não tem o condão de andar sem brilho. Porque brilha intensamente.

Parece-me que por estes dias começa a não ser "in" dizer que se gosta de Rita Redshoes, e por isso é a hora certa de lhe declarar fidelidade e ser coerente. Este primeiro álbum, Golden Era, tem pelo menos um pecadilho: tem demasiadas músicas boas, e, aí vai bomba, vai ficar na história da música pela sua excelência - e só em palco ela tem a oportunidade de interpretar, e dar a respiração a ouvir, cada nota que lhe saiu da forma das mãos e dos traços do canto.
Tem excelentes músicos em palco, mas a verdade é que eles próprios sabem que ninguém se mexe como ela, uma coreografia subliminar notável, que vem de dentro e a transforma em todas as pessoas de brincar que cruzaram os nossos dias e os nossos sonhos.

No entanto, e por causa de elementos de magia não explicáveis pelas ciências humanas, todos têm vontade de que um dia um dos seus sapatos vermelhos fique caído nalgum lugar, para que possamos ser nós, os que fingem não ser seus fãs e ter uma existência artística distinta de fenómenos estéticos conhecidos pelas pequenas e médias massas, os que rejeitam obstinadamente render-se a ela, a encontrá-lo caído na soleira da casa caiada de uma aldeia qualquer, e só descansar depois de lhe encontrar um pé e casar com a dona dele.

Mudei-lhe, pois, o nome artístico para Cinderella Redshoes.

Que, de tão maravilhosa, sempre se imaterializará antes que o sapato perca a matiz e vire cristal puro.

Dream on Girl.




Já agora, o novíssimo vídeo que simboliza o perfume da Rita ao vivo.




Créditos Fotográficos: fui eu que tirei esta foto em que parte do que fica dito ressalta com clareza;

Post mais antigo sobre a RR aqui.

2009-09-26

Vou escrever àquela menina que vai morrer...


... mas não hoje, porque há perspectivas impossíveis, questões que transcendem a filosofia, o próprio pensamento, posições corporais e palavras que nunca são competentes perante uma criança em estado terminal.

Vi isso, hoje mesmo, no cinema, quando os familiares da menina, à boca do seu estertor, dizem banalidades que fazem os espectadores encolher os ombros, mas que ela, precisada de camuflar a sua partida com um comprimento aparente, uma medida maior para a vida, que supera a própria esperança, se quedou sentada entre os lençóis, com um sorriso feliz, repetindo "Thank You", "Thank You", "Thank You".

Morreria nessa mesma noite, dando colo à própria mãe, esgotada de não a deixar partir.

"My Sister's Keeper", em português "Para a minha irmã", é um filme brutal em que não pode importar a intenção do realizador Cassavetes (de nos fazer chorar copiosamente), muito menos as palavras de um crítico de cinema que o toma como mero objecto artístico (dizendo, por exemplo, que se trata de mais um melodrama sem originalidade - coisa pouco necessária neste caso).
Abigail Breslin está uma mulherzinha de 13 anos, a chegar ao fim do paradigma "child actor", nunca deixou de ser uma pequena actriz dotada, contida, rara, Cameron Diaz confirma a sua maturidade, mas quem enche o ecran, mesmo que o filme não a atire para a frente com despudor, é a própria doente, no filme com quinze anos, na vida real com pouco mais, Sofia Vassilieva, no tal papel que Dakota Fanning não quis fazer.

De facto, há um ritmo literário a embalar as violentas imagens do sofrimento, uma cadência que nos faz olhar para dentro das questões que nos são levantadas, aliás a intenção não é fazer pensar, porque tudo é dito desde o primeiro minuto.
É fazer sentir. So what?

Não há exageros, procura-se realismo, e o "cliché" quer dizer apenas vida, vidas, vidas normais que são abaladas por fazerem de uma menina com leucemia o seu ponto fixo.
Chora-se muito, mas não se chora porque o realizador quer que se chore. Chora-se porque se tem a perfeita noção da bênção que é não estar ali - um choro copioso, soluçado, um choro fundamental, porque é fundamental perceber o fundo das coisas, para não lamentar certas frivolidades.

É preciso trazer para a arte, de forma limpa, clara, quase asséptica, a perspectiva das crianças que sofrem. Escudarmo-nos sempre no pudor do seu destino e da sua intimidade, é, essencialmente, virar a cara, fingir que o problema não existe. Mas existe.
Asséptica por respeito a elas, claro. Nós, os que somos sujos. Somo nós que temos capacidade de as transportar, de falar por elas, mas para isso temos de olhar para elas. Não podemos virar a cara.
Neste filme, estamos mais de duas horas a enfrentar a morte.
E eu, ainda e sempre, digo que se torna essencial, para viver, saber ir morrendo.
Ir morrendo com a obra-prima "O Túmulo dos Pirilampos", por não suportar a fome de dois irmãos órfãos, ir morrendo porque este "My Sister's Keeper" nos mostra a morte na primeira pessoa.
Em cinco primeiras pessoas.

PG-M 2009

2009-09-20

Yes, We CARE


É importante escrever isto na tensão crescente do Magnólia, a passar às 2:49h do dia 20 de Setembro de 2009 na Dois, ainda só está a chover torrencialmente. Água, ainda só está a chover água, o miúdo do concurso acaba de fugir, a edição está intensa, revisitamos todos os que desfilaram até aqui, depressa, cada vez mais depressa, ainda só água

o Miguel Sousa Tavares atacou as redes sociais que medram na internet e de que muitos de nós fazem parte, disse que era o grande mal da humanidade, e eu já reflectindo sobre o mundo mudando pela rede global há quase quinze anos, estive lá, sim, fui praticamente pioneiro, e sei que o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou mais inteligentes do que ele que se sentem tapadas pela vacuidade da televisão, agora até dos jornais e da rádio, e afinal podem colher o mundo através dos seus pares nestes "lugares", o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou menos inteligentes do que ele que se servem disto para combater a solidão, para não ficarem expostas às suas cabeças, aqui tenho testemunhas, pensam, aqui faço testes que me dizem o que sou e para onde vou, aqui sou ridícula, sim, mas não mais do que lá fora, onde o silêncio me persegue como uma sombra.

Procuramos quem se importe connosco.
O Miguel tem razão.
Os nosso "amigos" estão lá, e a maioria não se importa verdadeiramente.
Ego, Eu, importo-me, sim, e sou resto apenas com quem também se importa.
Leio livros, cada vez mais livros, onde pelo menos o autor se importa consigo próprio.
Faço mal?
Serão os livros, esses objectos indecentes que isolam as pessoas em momentos, longos momentos, infinitos momentos que excluem absolutamente todos os outros, serão os livros o grande mal da humanidade há centenas de anos? Com livros alguém te toca? Alguém te olha, se não interromper a leitura? O narcisismo de se aculturar?
Os livros que o Miguel vendeu na casa milhão a gente que passou o tempo sem tocar ou olhar o próximo?
E o Miguel, quererá realmente tocar e olhar alguém para lá do pequeno quarto do seu ego e do anexo dos que ama e do outro anexo dos que o amam?

Ainda chove só água.
A música de fundo parou, mas nós sentimos o desenlace próximo na coreografia dos corpos e no tom da luz.

(um momento...a música...a música é poderosa...os personagens do filme cantam sucessivamente o "Wise Up", da Aimee Mann, tremendo momento, tremenda esta nossa vida, ainda só chove água...diz a Aimee, em tradução livre, "a dor não vai parar até despertares...por isso, desiste!". Give up. Supostamente não vamos despertar. Depende de quem? Depende de quem, despertar?)
A chuva parou.
Claro que não.
Guardemos a liberdade.
Há oportunidade e oportunismo, ninguém te dá colo, ninguém te pega, ninguém te paga,

ninguém se importa.

Dentro ou fora do Facebook, se sorris em demasia, se te importas em demasia, és louco, falta-te o equilíbrio essencial.
Fazes do teu mural uma festa, mostras-te aos outros cheio de falsas luzes, com o corpo à sombra.

Ninguém se importa.
Ninguém se esforça por compreender.

E no meio das palavras bonitas, dos vídeos embutidos, das músicas partilhadas, dos poemas, dos textos, dos links, tu sabes que procuras quem se importe, e vais evoluir pensando que podes abanar a árvore dos fundamentos e colher um, dois amigos, nenhum.

E eu estou cá, Miguel, para ler palavras com coisas dentro, não calculadas em função das audiências, vi quem soltasse a parede, é um sorriso, um justo sorriso, mas está vazio, o nosso Porto perdeu, e claro que sou mais por dentro, muito mais por dentro quando perco, a natureza humana não depende de nada disto, Miguel, começaram a chover os sapos no Magnólia, está na hora de encerrar aqui,

a (boa) natureza humana depende de enfrentares tudo e todos por dois ou três princípios simples, porque se não abdicas da liberdade sabes temperar as fraquezas da bondade.

Hoje um grande amigo vive o luto mais destruidor que a alma pode conceber, a morte de um filho, eu importo-me e não estou junto dele, ele usou o facebook para gritar a sua dor, pediu que ninguém lhe ligasse, os "amigos" desfiaram palavras de conforto que ele lerá mais tarde e que lhe exponenciarão e aquecerão as lágrimas, sim, e eu a este verdadeiro amigo disse-lhe muito pouco, toquei-o, abracei-o, mais nada, não sei já se o toquei no casaco, na pele ou em lado nenhum, nem sei se as palavras foram ditas entre o caixão pequenino do bebé e o fato preto, ou se, como ele certamente preferiria, as escrevi num papel que lhe pus num bolso, num email ou num mural.

No fim de tudo, tens apenas de te importar, tens de perceber que se importam contigo.

São agora 3:50h.
Acabou a obra prima do Paul Thomas Anderson.
Com a música "Save me", da Aimee Mann, claro.
Conheces?

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos fotográficos: Reuters

2009-09-14

"Os meus sentimentos" por Dulce Maria Cardoso

Foi hoje.
Podia ter sido mais tarde, muito mais tarde, podia ter sido nunca.
Mas foi hoje, Domingo, num sofá bege no primeiro andar da melhor livraria do Porto.
Era o único livro que levava comigo, talvez porque o presentisse.
Ante de me sentar, ainda percorri a estante de livros de História e fotobiografias, folheei um livro magnífico de mulheres viajantes, estava lá a dinamarquesa Karen Blixen no nada tudo africano.

Então abri "Os meus sentimentos", da Dulce Maria Cardoso (Edição Asa) e fiquei por lá horas.
Assustei-me.
Assustei-me muito.
Quando olhei para a mulher invertida, pendurada pelo cinto de segurança e fixa numa gota de água, quando recuei e a acompanhei na língua fina e negra da auto-estrada onde se havia de inverter, quando dancei ao ritmo das palavras ou me embalei nos detalhes simples em que cada parágrafo subsiste límpido e claro como uma tampa de garrafa atarrachada pelo meio,
seguramos o parágrafo na mão, entretidos, quase hipnotizados, apetece ficar ali contemplando a mão da escritora deslizando pela folha ou pelo teclado, embalados no berço que os livros são.

Eu escrevi isto, pensei.
E tinha realmente escrito.
Com outras palavras, como outros parágrafos, certamente, mas com as mesma linhas brancas para respirar.
Sim, tinha escrito pior, muito pior do que a Dulce, mas tinha escrito assim, e pela primeira vez na minha ausente carreira literária, tão ausente quanto longa de dezenas de anos, tão presente quanto genuína e independente de todas as forças que relativizam a arte,

pela primeira vez desde que escrevo me vi reflectido num lago de palavras.

Na minha cabeça, escrevo como a Dulce, devia escrever como a Dulce, é o que a Dulce escreve que tenho dentro, depois há o ar, certos ventos, os ossos dos meus dedos, a luz em ângulo agudo e saem palavras diferentes, frases diferentes, livros diferentes.

A Dulce é a pureza apriorística da minha literatura.
Daí o susto,
como uma viagem breve de auto-observação por fora do corpo,
com remate de paz, que é a identidade quase absoluta.

Comprei o livro porque era meu.
Era-me eu muito antes.

Eu que não sou ninguém entre as ondas visíveis

(Obrigado, Dulce Doce)

2009-09-08

O Troféu

* "Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Os homens não choram, os advogados muito menos.

Por isso, mal acabei de dizer aquela frase, desrespeitando a ordem da juíza para me calar, o meu corpo inteiro foi tomado por uma inesperada comoção, ainda disse entre dentes, com a voz sumida, "agora pode prender-me", e ouvi a juíza e a procuradora, sob espanto, devolver o "obrigado" que não foi coloquial, foi pessoal.

A juíza tinha ordenado que me calasse pelo seu alto sentido de ética, e foi também por causa da ética, e pela fome que ela me dá, foi também por toda a descrença de quinze anos de advocacia em que eu me apercebo de que todos os intervenientes estão sempre mais preocupados com o seu umbigo, e que vão e vêm como moscas, deixando a merda no mesmo lugar, que me comovi.

Mas não chorei.
Desci dois pisos, tive de entrar na Sala dos Advogados para me recompor, baixei a cabeça, servi-me de um café de saco, os meus olhos marejavam e as mãos tremiam, o que é isto Pedro?, o que te deu?, sentei-me, suspirei profundamente e deixei o café aquecer-me por dentro, porque o calor de fora gelava-me, olhei para a janela do terceiro piso onde prosseguiam em diligências a mesma juíza e a mesma procuradora, pensei que tinha tido o direito de ter permanecido junto a elas para lhes explicar porque disse aquilo, e porque é que nunca o houvera feito antes, mas o corpo não deixou, eu saí a correr porque me senti embargado, não porque estivesse com pressa.

Foi preciso coragem para me levantar da cadeira, acabar o café e sair da sala.

No regresso, uma ideia assaltou todas as outras, eu estou comovido porque amo o que faço, porque apesar de amar o que faço a descrença era absoluta, hoje de manhã levantei-me a custo achando que ia fazer, uma vez mais, figura de Quixote a lutar contra pás ou mós, que eu próprio já não me aturava, muito menos o sistema, apanhei a funcionária do costume, uma para quem tudo são nãos, mas que eu compreendo sempre, porque compreendo o que lhe dói e porque é minha colega, como todos os que trabalham no tribunal em particular e no Direito em geral.

Hoje, inesperadamente, aquela juíza e aquela procuradora resgataram o sentido a uma luta violenta e solitária, e então, em plena auto-estrada, eu achei que tinha direito a chorar, e finalmente chorei de raiva, chorei pelo dinheiro que não ganho e pela ética que faz fome, e porque quem sente esta pressão e não quer dever nada a ninguém perde o sentido da beleza da sua função social e profissional, tantas são as estaladas e as navalhadas dos seus iguais e dos seus diferentes.

No intervalo da diligência, pensei logo dizer-lhes o que disse, discretamente, no final.
Pensei que lhes deveria entregar o troféu que não brilha nem se funde em metal mas se funda na essência do que que é mais importante na vida.
Pensei, depois de tudo passado, que deveria escrever este texto em sua honra, inicialmente sem nome, por uma questão de reserva, depois com nome, porque não se honra ninguém no anonimato.

A juíza Amélia, também dos olhos doces, e a Procuradora (que num assomo de superior dignidade, disse que não era adjunta, mas da República, e eu vi-lhe nos olhos e na postura que não o fazia por formalismo ou pedantismo, mas pela mesma razão pela qual eu viria a chorar de raiva momentos depois, porque a vida lhe deu o direito a isso) Maria de Lurdes, ambas intensamente bonitas porque serenas e sensatas - sendo irrelevante o padrão estético -, dirão que não fizeram nada de extraordinário, mas eu comecei a procurar com a memória os meus pedaços de tribunal, e não vi nenhum com esta perfeição, e soube ali mesmo que o que defendo há anos é verdade:
o lugar natural dos advogados é o mais longe possível do tribunal, porque quando o tribunal, no exercício das suas funções, atinge a excelência, o advogado torna-se, e ainda bem, inútil.

Como é que eu dizia naquela tese de Direito Preventivo (que ainda não há por cá)? O juíz é endógeno ao processo mas exógeno ao real, o advogado é endógeno ao real mas exógeno ao processo. Assim sendo, o advogado deve fazer o seu papel na rua para que o juiz faça o seu papel no processo. A ida do advogado ao tribunal é, em si, contranatural, e prenuncia sempre conflitualidade. A função do advogado, sendo essencial e nobilíssima, deve exercer-se afastada o mais possível do tribunal, onde uma série de factores burocráticos e processuais e forenses dificulta que se atinja o coração das coisas, algo de que nos conseguimos aproximar a montante, ou então, muito depois, perante o cansaço e o esgotamento desnecessário de todos os intervenientes, a jusante, na foz, no fim, no espectro insolúvel.

Não vou dizer porque é que foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício de advocacia. Isso pertence ao processo, e no processo não vou nem quero mexer. Quero ser actor secundário, como dizia, e muito bem, a Procuradora da República. Sempre quis.

Mas vou dizer que parte da minha emoção se funda, a contrario sensu, na forma como os magistrados hoje filtram as palavras dos advogados, como já não nos querem ouvir, como anseiam seguir em frente com o seu trabalho, porque afinal o advogado não está lá para ajudar, mas sim para ser enfático e pleonástico, para fazer barulho e vincar e sublinhar à exaustão a posição já defendida. A culpa é nossa, só nossa.

Hoje eu fui lá prometendo não julgar, porque eu não julgo, nem acusar, porque eu não acuso.
E consegui.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, porque já todos tinham saído, e nessa posição o advogado é mudo, os magistrados são mudos, só fala o processo.

Como eu gostava que não fosse sempre assim.
Como eu gostava que, à imagem de países mais civilizados, os juízes, para ganhar tempo e enquadramento informal, chamassem os advogados para um café ou um almoço e deixassem entrar no foro o resto da vida, um filme que foram ver, um livro que andam a ler, o colo que dão aos filhos, a forma como lhes falam em surdina, vai alta a madrugada, e lhes dizem que está frio e que têm de os cobrir, como eu gostava que o foro ganhasse cor e os protagonistas respeito, profundo respeito, uns pelos outros, o respeito que hoje é mais declarado do que praticado.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, e nem por um momento admitiu que eu ia dizer alguma coisa fora do padrão a que já se habituou. A culpa é nossa. A desculpa também.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, nem ao sol do brilho intenso da sabedoria da Procuradora da República, e por isso eu disse que ia desobecer, que me prendesse, mas

"Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Queria antes ter martelado a cinzel as palavras, queria ter criado o troféu num pergaminho que ficaria tombado num corredor obscuro do tribunal e que um dia seria descoberto pelos arqueólogos da justiça, dizendo mais ou menos

Se soubesses o que eu chorei, se soubesses o que a inclinação do meu corpo disse, se soubesses o que a surdez dos meus olhos gritou, se visses as lágrimas em sulcos calados na tez da minha pele, se visses que a vida entrou pela quarto onde tu fazes montes de cartolina atados a um cordel,
Se visses a calma do teu lago, a luz da República, a minha luta
E os olhos doces,
Tinhas pedido, não deixado, que eu escrevesse isto na pedra.
Lentamente
Tiro o Ó na cadência da frase, e o bê pequeno a seguir, o erre o i e o guê, o outro á e o dê,
o outro Ó e tu, se tu soubesses!

(se tu soubesses...seria impróprio.
É bom que não saibas. Obrigado!:)

E os minutos mais banais do mundo à vista desarmada viraram, sob lucidez, um troféu.

O Troféu.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: tive novamente presente a música que diz que devemos olhar a essência antes de nos transformarmos em pedra, que podem ouvir aqui, porque é fantástica! E porque, sim, é hora de não deixar por dizer as coisas mais importantes.

* Créditos fotográficos: Nélson Garrido, Arquivo Público

2009-09-04

O vazio sempre foi assim

Um novo mundo. A aparência da democracia total. Os imaterais, as figuras públicas, misturam-se connosco e com os nossos amigos. Escrevemos-lhes como se fôssemos íntimos, achamo-nos no direito de ter essa oportunidade. Milhares de amigos não existem. Passam a fãs. E fãs são animais perigosos que se deve manter à distância excepto quando pagam bilhete. Mas de repente os imaterais precisam de humanidade, da voz da rua e descem a nós.
E nós?
Pululamos pelas redes sociais e identificamo-nos intensamente com esta ou aquela personagem que escreve tudo o que pensamos, que decalca o nosso pensamento, queremos aproximar-nos, temos os amigos, os verdadeiros amigos, por ali, somos considerados, somos ignorados, somos considerados, somos ignorados.
E depois dizemos coisas nossas, partilhamos. Esperamos.
É o deserto.
Lá fora não estão os amigos, e, embora o ecran abarrote, sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
Alguns ascendem, são banhados pelos focos, tornam-se imateriais também, cruzam os fantasmas com os outros imateriais. Outros pedem amizade a tudo o que mexe, e vão lá pela quantidade, que mede o sucesso.
Subitamente ficam inundados de amigos e de comentários e aprovações e de abraços e de fives e depois de mails e sms.

Sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
E que os amigos não enchem uma mão.
E há noites em que sentimos essa solidão.

Lá pelo ecran, eventualmente, há emoções reais. Válidas.
Melhor do que hábitos mediáticos passivos.
Pessoas que gostam de nós, e é fácil gostar de frases limpas e de pessoas que se apagam ou se acendem com um clque de rato. É prático.
Pode ser autêntico, contudo. Pode.

Mas, ontem ou hoje, o vazio sempre foi assim.

2009-09-02

Setembro

Fui um miúdo de praia durante vinte anos, hoje vivo a dois quilómetros do mar, mas volto todos os dias à areia, sobre a qual corro porque um fisioterapeuta me disse Meu Velho, se queres continuar a jogar voleibol sem muletas, tens de fortalecer os ligamentos, e isso só correndo na areia, tu que corres na estrada todos os dias, passas a correr meio-meio, e em Maio lá me danei, lá mandei vir as muletas e disse que ia seguir o conselho, e quando recomecei a caminhar, devagarinho, descalçava-me e ia uma hora para a areia, depois fiquei melhor e passei a correr meia-hora (na areia), depois os meus pés ganharam golpes dos pequenos objectos deixados gentilmente pelas pessoas entre os grãos, e eu concluí que correr só de sapatilhas, assim era um esforço tremendo, só que o peso cedeu, os ligamentos fortaleceram, e a mítica malandragem da areia para ossos e coluna não se confirmou. Tudo para dizer que todos os dias corro três quilómetros dentro das praias, sobre a areia seca, e dois na estrada. Mas Setembro?

Em Agosto, como qualquer miúdo de praia, verberei as turbas que me invadiram a costa, me tiraram o lugarzinho para o carro e me atravancaram os areais. Habituei-me. Comecei até a achar graça aos companheiros de todos os dias, o careca morenaço, as chavalas da praia X, a madura entre rochas, a menina do quiosque a quem eu estive para cumprimentar, mas, sabem como é, é sempre a correr, esta vida é assim mesmo, sempre a correr, os meias-horas do Alex, os cool do Atlântico, o povo de Francelos, e eu sempre a correr, o mp3 a tocar nos ouvidos, eu a gastar fôlego acompanhando as músicas, uma ou outra vez corri na linha de água, mas assim não dá gosto, não dá pica, a areia molhada é quase chão, subo para a seca...

...e chega Setembro.

Faço-me à areia e não está ninguém.
Pensava que ia gostar, suspeito até que desejei o momento, mas aquele deserto fez-me recordar a tristeza dos miúdos de praia, os que vivem à beira-mar e odeiam os Agostos até se habituarem, ano após ano, ao bulício da praia, à vibração dos dias, e que ao chegarem ao deserto de Setembro descompensam.
Está bem, agora os cafés são nossos, as longas extensões de areal também, e já podemos preparar o nosso Inverno em paz.
Sei da adrenalina de correr sobre a areia molhada num dia de chuva torrencial, na quadra do Natal, no Carnaval, praias vazias que até os residentes afastam, estou só no mundo, enfrento a besta, tenho a coragem de cortar o granizo com os próprios punhos, e o mar ali em baixo a rugir.

Mas nada me prepara para o primeiro dia de Setembro.
Nem os anos a suceder-se e a repetir a tristeza.
Vista daqui, a ausência, tanta ausência, também magoa.

Para o ano, quero lembrar-me de vos rever, de sorrir perante Agosto, de acenar Até para o ano em Setembro.