2009-08-28

A banda sonora da vida

Ainda antes dos telemóveis, já eu usava aquelas agendas electrónicas da Casio para contactos, calendário e agenda. Acontece que o avisador irrita-me ao fim de alguns meses. Nas velhas agendas Casio e nos primeiros telemóveis, não havia hipótese de o mudar, tal como nos velhos telefones. Hoje podemos ter um toque por cada situação ou pessoa, e há quem não goste. A mim, sempre me divertiu. Perco pouco tempo com os meus toques, mas também gosto que sejam a minha cara, sem me embaraçar. Como tripeiro (das entranhas até à ponta dos dedos dos pés), tive durante muito tempo o trecho de guitarra do "Porto Sentido", do Rui Veloso, que eu próprio montei (como faço com todos, usando o Audacity) como toque geral. Passei pelo genérico do "Boston Legal", mas a 5ª temporada tirou-o de lá (o que é isso de despedir quase todas as mulheres da série?). No presente, orgulho-me, porque me dão paz em vez de me irritar. "Cinema Paradiso" para toque geral e mensagem, mas o mais fantástico, que só na rotina dos dias se destacou, é o avisador de agenda: "Ave Maria" de Maria Callas (som real, em mp3).
"A Voz" sai surpreendentemente límpida, e infiltra-se em todos os recantos, mesmo quando o telemóvel está guardado nos fundos. Aquela contenção suprema é contagiante, e eu deixo-me estar, ouvindo.
Passei a atrasar-me para todos os compromissos, o que, sendo português, é inadmissível e merecedor de castigo severo.
Deixei de cumprir a agenda, mas digo sempre que a culpa é da Callas.
Safar-me-ei?

2009-08-27

Fuck You

Respeito e prezo a coragem de Lilly Allen. Invadir o marasmo com uma canção com este título é de aplaudir. Fica a letra em português, que nos faz lembrar tantos energúmenos com quem nos cruzamos todos os dias. Dizem que foi dirigida a George W Bush, e outros identificam-na como um manifesto em defesa dos direitos de gays e lésbicas. Embora o video junto retrate isso mesmo, para mim a música serve para todas as situações em que queremos dedicar um momento bonito a algum "amigo" destes (não se lembram de ninguém, assim de repente?).

2009-08-24

No reino dos homens peludos (crucificando a futilidade)

Isto também mete, literalmente, nojo.
Não os pêlos nas costas, muito menos quem os tem ou quem os tira, mas quem decide perder o seu tempo a falar deles, principalmente para dizer que os detesta.
Sou peludo, sim, e tenho-os, sim, mas nunca tive o Tony Ramos como modelo, não, e não os vou tirar, não, apesar de saber que ao longo da História, sim, exceptuando talvez o período das cavernas, não, ter pêlos nas costas nunca foi moda.

Sim, sei disso tudo.

Mas conheço os meus mecanismos biológicos de expulsão, e reparei que começo a sentir fortes náuseas quando vejo uma mulher, na televisão ou fora dela, dizer que odeia homens peludos. Pode ser um mimo estético, mas a consideração por tal especimen cai-me logo pelos ralos. Não tenho culpa, e tenho razão, porque é tão grave dizer isso como eu gastar o meu precioso tempo a dizer que odeio mulheres de cabelo curto (que não odeio), ou que repas em cima da testa são um caso de saúde pública (que não é), e que, sim, uma mulher com mais penugem é a coisa mais asquerosa à face da terra (que também não é).

Pois estas opiniões, para quem as tem, como tantas outras, dão-se com pudor e na intimidade, e todos concordam que deve ser assim, mas ninguém tem pejo em dizer, publicamente, que odeia homens peludos, e que vomita à vista de pêlos nas costas.
Na televisão ou numa roda de amigos.
Não se diz que se detesta gajas com mamas descaídas, ou com rabos arrebitados, ou lábios finos, ou orelhas grandes, em público ou em privado.
A isso chama-se delicadeza e civismo.

Então porque é que se diz com tanta propriedade que se odeia homens peludos?

Quem o faz publicamente, é publicamente parvo, e estúpido, intensamente estúpido, em privado.

A única coisa que peço é que a Soraia Chaves não venha dizer que destesta homens peludos, porque eu tenho investido muito do meu suor a defender que a rapariga vai ser uma actriz de primeira, que pode virar fenómeno fora de portas, além de suspeitar que seja terrivelmente inteligente.
É a única que resta com miolos entre as musas nacionais, depois de um destes dias eu ter ouvido a Diana Chaves, no exercício da sua liberdade de expressão, dizer que gosta de um peito lisinho.
Ora merda!
Não vê ela que exclui todos os outros????

Razão tem o Joel Neto (que não sei se é peludo ou não).
Só falta que um dia destes, num inquérito de Verão, alguém diga:

"Tenho sempre dez livros de cabeceira, trinta na mala do carro, mas odeio homens peludos!"

Ide mas é....

PS: E podem bem vomitar à vista das minhas costas, sim, porque, sim, são minhas!

2009-08-22

Os brutos e a menina campeã (Semenya)

Já estou tão farto disto, que me parece honesto escrever o que penso antes que os despudorados senhores da IFAA publiquem os resultados do teste ao género sexual de Caster Semenya.

Com as palavras todas, a forma como o mundo em geral, e certas instituições em particular têm "fabricado" o caso da grande atleta e campeã do mundo dos 800 m em Berlim, Caster Semenya, é, mais do que revoltante, nojenta.
Então lembraram-se de duvidar agora? Ela é tão feia que tem de ser um homem?
Isto é maneira de se tratar uma senhora (corrijo...uma menina) ?
É mesmo preciso envergonhar e humilhar um ser humano desta forma?
Ninguém tem noção de decência?

Meus caros, sem qualquer fundamento sério, que não o fútil da aparência "masculina" e a superioridade esmagadora (perante suspeitas imperialistas, como vão ver), a dita Federação Internacional e os órgãos de comunicação de todo o mundo têm oferecido um megafone indelicado e fútil sobre a aparência da atleta, no momento da sua merecida glória.

O que diz isto de nós todos?

Imaginem agora, como é altamente provável que aconteça, que Caster Semenya é "declarada" mulher. A menina de dezoito anos proveniente de uma família negra pobre de África do Sul, que teve o desplante de ser campeã do mundo de forma brilhante, fica marcada para toda a vida por este episódio (o seu pai já declarou, e muito bem, sentir-se pessoalmente ofendido).

Que certas bestas do jornalismo não tenham noção, princípios ou limites para inibir a divulgação destas notícias, ainda vá (por acaso, vi uma excelente e cáustica reportagem do Luís Costa Ribas para a Sic - muito bem! - , coisa rara na televisão portuguesa - e um breve mas saboroso comentário irónico ontem mesmo na RTPN, que mostra que nem todos os jornalistas vêm comer à mão o que lhes dão sob holofotes;), e quando falo de princípios ou limites estou a lembrar-me de uma capa do "The Sun", salvo o erro, "gritando" a Caster: "Prova que não és um rapaz!"

E então, como explicar toda esta precupação dos britânicos?
Fácil: É que, também de forma brilhante, a britânica Meadows conseguiu uma medalhe de bronze "in extremis". Se afastasse à força a medalha de ouro, ficava com a prata, vejam lá (onde está o senhor de La Palice?), e a Grã Bretanha ainda não ganhou nenhuma medalha de prata!!!

Bastou este mau perder para rapidamente a lamacenta imprensa britânica conspurcar o nome da menina sul africana de 18 anos, e o resto do mundo ir atrás.

"Porque é notícia."

Ora merda!

Sejamos lúcidos, sensatos, e ignoremos o desprezível rebanho que nos leva todos os dias ao precipício, balindo alegremente.

O Quinto poder é muito estúpido!

2009-08-12

Onde arrumar os sentimentos (before we turn to stone)

Onde arrumamos os sentimentos, quando de repente nos apercebemos de que gostamos muito mais do que odiamos, ou que por acaso não odiamos nada, só desprezamos algumas coisas e algumas pessoas, desprezamos humildemente, sem desfazer, mas essencialmente levantamo-nos de manhã e, estejam as coisas fáceis ou difíceis, passamos o dia em busca de vida, e quando se procura encontra-se muita, porque ela está aí, está aí todos os dias no vapor da respiração, e mesmo quando nos dão morte, a morte de alguém que nem sequer é nosso, nós encostamos as nossas costas às do desaparecido, estendemos uma passadeira vermelha e durante alguns dias, às vezes muitos dias, percorremos o seu caminho de volta, detalhando momentos, e quando todos detalham momentos mostram aos outros o tanto que lhes escapou, por isso mesmo na morte há vida, mas o problema é se, de repente, nós começamos efectivamente a olhar para todos os que nos rodeiam com olhos de ver, como faríamos nos seus funerais, com vontade de gostar deles, de apreciar o que eles fazem, de validar e testemunhar as suas vidas, o que acontece é que de repente o nosso coração rebenta, porque se estivermos atentos, mesmo muito atentos, até aquela pessoa que nós sempre tivemos como mesquinha e má, mesmo essa pessoa traz vida no rosto, algumas rugas de sofrimento, e como repara que nós a olhamos de frente comete o pecado de sorrir, e depois todos os dias nos sorri, e nós começamos por detestá-la menos e acabamos a gostar, gostar pelo menos um bocadinho, afinal ela é má porque nunca se deteve sendo boa, e se nós abrandarmos em alguém sua maldade, pode dar-se o caso da bondade, não, não é bem a máxima do Luis Cencillo (o filósofo que eu deixei morrer sem prestar respeitos), que dizia que um dos erros da vida era tomarmos à conta de mau o que é sempre bom, mas de vez em quando mau, e à conta de bom o que é sempre mau, mas de vez em quando bom, não é isso, o problema é mesmo onde arrumar este sentimentos, se mesmo o detalhe dos maus e mesquinhos pode mostrá-los bons, o que fazer dos que são mesmo bons, o que fazer da beleza das pessoas na rua, o que fazer do sorriso da empregada na loja, o que fazer da tristeza que conseguimos quebrar atrás de um balcão, há olhos tão tristes que são quase choro, e nós estamos ali perante eles e não os combatemos?, claro que sim, claro que combatemos, e eles sentem-se combatidos e quando chegam a casa para serem injectados de tristeza de novo, sim, porque aquela tristeza não era do trabalho, o trabalho só não ajudava, mas há tristezas tão fundas que vêm já de casa, e ela leva de fora um sorriso e chega a casa e discute ou é desrespeitada ou espancada e fica triste de novo, é preciso voltar no dia seguinte, onde é que arrumamos os sentimentos da rapariga que é tão bonita que temos de lhe agradecer, porque muitas raparigas são bonitas e não se põem assim, ela parou perante si em casa e disse que ia supor que era a mais bela do planeta, supôs isso e saiu tão confiante e produzida que nos iluminou, lá está, o que fazer do prazer e da beleza que nos trazem as mulheres luminosas como a canção, quando passas à minha rua, como um anjo que flutua, os meus pés nunca pisam o chão, por acaso escrevo estas palavras de desespero pelos sentimentos fantásticos que tenho jorrando sem prateleiras onde os pôr, por acaso escrevo ouvindo outra canção, antes de nos transformarmos em pedra, que diz assim, e assim termino, porque afinal não consigo arrumar, ou melhor, eu cá sinto que a forma de os arrumar é sendo feliz e contagiando todos em volta, mas nem sempre eles deixam, há pessoas que adorámos no passado que não nos deixam chegar perto, têm medo de ser vistas no presente, têm medo de gostar de ver, outras que adoramos hoje e se eclipsam, mas temos é de ir caminhando em passos firmes e faremos a estrada, a nossa e a de todos, que as estradas são para todos os que passam, e ficam feitas, diz assim a canção:
vamos lançar um segundo olhar/ para lá do livro de histórias/ e aprender que as nossas almas são tudo o que temos/ antes de nos transformarmos em pedra;
vamos dormir com cabeças mais leves/ e corações demasiado grandes para caber nas nossas camas/ e talvez nos sintamos menos sozinhos/ antes de nos transformarmos em pedra;
E se esperares pela mão de alguém/ certamente cairás;
Sei que não sou nada de novo/ mas há muito mais que podemos fazer/ mas como é que podemos expiar/ antes de nos transformarmos em pedra?;
Sei que se for pelas ruas ser bom ninguém me aceita, chamam-me louco, afectado, poeta, artista, estranho, talvez louco outra vez,
mas eu vou pelas ruas ser bom,
a bondade é lamechas e eu vou levar-lhes a insuportável lamechice da bondade,
foi isso que decidi,
vou pelas ruas ser bom até fenecer.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Músicas referidas no texto: "Quem és tu, miúda?", Azeitonas, e "Turn to stone", Ingrid Michaelson; video refere-se ao momento que esta última musica, episódio 22, temporada 5, Anatomia de Grey;

2009-08-09

Redshoes e Kafka com a Guerra fechada e o hospital aberto


Nota Prévia: detalho alguns momentos privados porque se me impõe, e acaba por ser serviço público explicar que há coisas que não podem funcionar assim;

Não tive noite e dormi três horas de madrugada, porque ontem sucedeu cá em casa um daqueles momentos em que a saúde faltou, e quando assim é o mundo revira-se e o que deixa de suceder é a imortalidade.

Porque ontem não havia mais nada a fazer no hospital privado (a urgência despega às 24h), viemos dormir pouco e marcámos hora para pegar ao serviço do sofrimento no hospital público. Na véspera, tinha criticado de forma inclemente os hospitais públicos perante a médica do sistema privado. Hoje o dia deu-me razão.

Chegámos pelas 9h, e depois eu não pude entrar, e depois o menino foi atendido, e depois fez análises, pelas quais esperou mais de duas horas.

Às 10:50h, enquanto eu tomava café numa confeitaria das redondezas e lia um artigo no DN sobre as casas dos escritores, alguém ligou para a guerra e disseram-lhe que estava fechada. Raul Solnado morria aos 79 anos. Não me caiu nada bem, porque aquele sorriso malandro não é dos que fecham. Não fechará.

Fugi para a Fnac e deixei-me levar pelos livros, persegui a Rainha Vitória (é impressionante que, sendo um símbolo da história da Europa, não haja nas nossas livrarias livros sobre a época vitoriana ou a Rainha Vitória), a arte e arquitectura em Paris - grande livro que desencantei na Bertrand - (onde descobri que Kafka era da idade do meu bisavô e que também tinha escrito nos seus diários sobre o Metro parisiense). Decidi perseguir Kafka também.

Tive a sorte de ir almoçar com os meus dentro do hsopital, saber notícias e abraços.
Quando chegaram à minha beira eram 13 horas: Levavam cinco horas no corpo numa sala de espera bafienta entre gritos, e só no último minuto tiveram dos médicos uma notícia mais animadora.

A maioria dos médicos, mesmo que pendure um sorriso nos dentes, não nos olha como gente animal, mas como animal gente. Há uma desapego que se sente num olhar que é a média de todos os olhares, o olhar de enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, vi-os na esplanada do bar interno e era assim, hei-de-escrever sobre isto, há uma defesa nas palavras com que se dirigem a nós, chamando mãe à mãe e pai ao pai, como quem chama boi ao boi e vaca à vaca, sem ter uma verdadeira noção de que nos estão a tratar como coisas, meros elementos mais ou menos previsíveis do sistema.

Foi bom poder comer com os meus num bar decente, mas foi mau que o filme do Tom & Jerry estivesse parado na mesma cena, durante horas, na sala de espera de pediatria, e ai de quem se atrevesse a dizer que o filme rolar era importante para amenizar o sofrimento das crianças.
Na televisão do bar confirma-se e o coração ainda aperta mais: Raúl Solnado fora mais longe.

Era preciso esperar pelas 14h, porque ecografias não urgentes só de tarde (lembremos que se estava numa "Urgência" - pelos vistos não urgente - ). Eram 14:30h quando foram chamados para junto da parede da Eco, e apenas 15:30h quando a fizeram.

Eu libertara-me na Leitura, em Ceuta, a ler os diários de Kafka, de como ele deslumbrava as próprias irmãs e conseguia ser virtuoso dentro da casa de banho lendo-lhes alto, mas não perante os homens do seu tempo, como tratava o Sr. K como um alter-ego, e como misturava no dia-a-dia a ficção com a realidade. Mas a edição da Difel é acrítica e reduzidal. Sobre Paris quase nada.

Já passava das 16:30h quando os meus foram chamados à médica, e era oficial:

saíram perto das 17h, o que perfazia oito horas , oito, oito horas ininterruptas dentro de um hospital para ter uma consulta em que nos chamam pelo papel social, uma análise ao sangue e uma ecografia.

Fugimos.
Fugimos pelo Sol e pelos jesuítas de Santo Tirso, pelas compras breves num Outlet, pelo jantar junto ao mar, e à noite...

... Rita Redshoes ao vivo em Vila do Conde.

A Rita é uma riqueza.
Bonita e pequenina, com os tiques robóticos de David Fonseca (que nela ficam a matar), mas bem mais arguta do que ele, que nunca teve a ideia de escolher como nome artístico, por exemplo, David Bluetie.

É uma riqueza a Rita, e conseguiu dar uma boa hora e quarenta e cinco minutos de comunhão, de desempenhos intensos e profissionais (uns fiéis ao disco, e ainda bem, outros exponeciando-o, e ainda bem), humor fino, a Rita chega ao palco em meio desconchavo mas sobre ele parece bailarina, muitas vezes boneca assumida, contém a expressão no canto e mal risca rugas na cara, escalou os minutos quase como uma artista internacional e terminou intimista, já em encore, com um pássaro a quem ela pede que a leve dali, porque não quer morrer num dia de sol.

Nunca pensei que um fio de luz branca, outro de azul clara, virado para o público, e o artista no negrume a cantar uma canção quase sem instrumentos, fosse mais privada para quem vê do que a luz de outros concertos, ou seja, nesse momento final, em vez de a Rita estar sozinha no palco com um foco suave sobre ela e tudo em volta na mais profunda escuridão, chegou-se à frente e o foco incidiu no público e ela é que ficou na mais pura escuridão, só lhe víamos um recorte preto, mas a verdade é que estava ali, ao fundo de um braço que nunca se estendeu, de vestido preto reversível e sapatos vermelhos, tentando destruir-nos o coração a cada segundo.

Deu cabo de nós no dia em que a guerra fechou e o hospital abriu sem tino, Raúl Solnado poderia levar-nos pela mão a conhecer a Rita, porque Kafka alternava constantemente o virtuosismo e a excelência com a banalidade. Não tens de te acreditar nisto. Não acredito.

A Rita está inclinada em tripé sobre os teclados, provocante e bem ensaiada, genuína e virtuosa, a acompanhar-se no Choose Love, uma menina portuguesa com tudo para vencer e se massificar, e eu queria dizer isto mas já não posso.

Queria ligar para a frente de batalha e dizer-lhes coisas bonitas, mas são quase três da manhã e a guerra está mesmo fechada.

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos Fotográficos: Miguel Rosenstock

2009-08-08

A Jovem Vitória (e o grande cinema)

Primeiro, Emily Blunt, actriz toda.
Tem uma beleza real, próxima, até algo demodé, o que em cinema é sempre útil.
Cria uma relação de cumplicidade connosco desde o primeiro minuto, para não mais nos sair da pele. E permanece nossa algum tempo depois de sairmos da sala. Para quem andava distraído, desde 2004 que ela dá cartas como actriz, e não era preciso a sua excelente actuação no menos bom "O Diabo veste de Prada" para o confirmar.
Como jovem rainha Vitória - numa composição de um equilíbrio notável, mesmo tocante, entre força e doçura, determinação e fragilidade - torna-se uma actriz maior.
Está na minha lista "Tio Óscar".

Depois, todo o filme.
Preeche-nos os poros, envolve-nos, está estudado para emocionar (e emociona!) e é, além do mais, uma janela para o passado. Há certas mis-en-scénes que impressionam pela sua perfeição, como que fotografias contemporâneas do tempo retratado. O canadiano Jean Marc-Valée - que também já prometia em C.R.A.Z.Y. (2005) - está de parabéns.

Não sei no que estavam a pensar os críticos que reduziram este filme a um produto menor.
Por favor, não se fiem. Eles já se esqueceram do que é o prazer em cinema.
"The Young Victoria" é um grande filme para pessoas de carne e osso.

Créditos Fotográficos: Martin Usborne

2009-08-07

Nobel e Camões para Mia Couto

Pronto. Já está. Com este título, que vou repetir de seguida, "Nobel e Camões para Mia Couto", este artigo vai passar a propagar-se na rede universal, e em alguns dias passa a facto. E daqui a algum tempo vai haver uma mesa redonda para debater a possibilidade, e já não se vai saber onde nasceu a ideia. Um mau jornalista vai pesquisar qualquer coisita antes de uma entrevista que vai ter a sorte de fazer ao Mia, e lançar-lhe a pergunta "Sabe que já se pensa no seu nome para o Nobel?", e o Mia vai ter de desconversar, como fazem todos os escritores, porque ninguém aguenta um que diga "sim, penso nele todos os dias!", ou "sim, claro que quero, claro que mereço!", e preferem uma alienação momentânea tipo Doris Lessing, com um saco de compras no regaço e ar de campónia, que é a nova moda mediática, dizendo algo do género "Quem, eu??? Já nem me lembrava que escrevia!"

Só que isto é muito sério e decente, modéstia à parte.
Claro que vou aproveitar para o Mia o lado bom desta coisa má: a propagação irracional e estúpida de uma ideia, boa ou má. As boas fazem-nos os dias, se quisermos e soubermos procurá-las, as más fazem os noticiários.

Até há alguns anos, as brancas do Mia eram em número insuficiente, assim como o tempo decorrido sobre o seu nascimento. Agora são bastantes, e em anos já vai na casa dos cinquenta, o que pode querer dizer que tem quase sessenta, pelo menos ao tempo em que esta mensagem acabar de dar a sua terceira volta ao mundo e surgir num computador qualquer como se fosse uma grande novidade.

Não se deve desperdiçar um Nobel num escritor que vende massivamente, como um Ian McEwan ou um Philip Roth, não se deve, em suma, desperdiçar demasiados prémios Nobel em americanos ou europeus, que vivem muito centrados no seu umbigo (mais aqueles do que estes, mas estes cada vez mais do que aqueles;).

Precisamos do Nobel, pelo menos, para nos lembrarmos de que não estamos sozinhos no mundo, e que algures num canto esconso do planeta há grandes pessoas a escrever (porque, já agora, se me é permitido o remoque, eu não acredito em génios literários).

O Mia é de Moçambique, um dos mais pobres países do mundo (ou seja, seria bem empregue e um estímulo para a economia, mataria a fome a muita gente;), e a questão não é ele escrever maravilhosamente bem. A questão é que este homem, depois de ser mundialmente conhecido e reconhecido como um inventor de palavras, e assim poder passar à eternidade, reinventou-se a si próprio, depurou a linguagem, sustou os deliciosos neologismos, e ainda assim conseguiu crescer, fazer livros cada vez maiores, sempre com o poema a construir-lhe as frases.

Ou seja, a Academia sueca, e já agora o júri português do Camões, têm onde se agarrar para lhe dar isto e justificar longamente as suas decisões.

Agora aguenta-te, Mia.
É que quando este artigo se propagar em forma de verdade e chegar à Suécia, lá vais tu para as intermináveis listas anuais esperar vez.

Claro que, como homem humilde e bom que és, vais sentir que já ganhaste só por aparecer aqui, nos fundos de um remoto blogue de um português subterrâneo.

Fica o grito de guerra:

NOBEL E CAMÕES PARTA MIA COUTO JÁ!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: A composição da foto está deliberadamente grosseira, para não virar verdade antes de o ser:);

2009-08-06

A que sabe ser livre

A atitude desta senhora em seis minutos e tal de excelência absoluta é tudo o que eu pretendo da vida, e não é pouco. Garra, virtuosismo, autenticidade, bondade. Quando descobri este momento, em busca do livro que deu um filme, "The World Unseen", descobri que é esta música que o abre, e quis rever a Nina, mas não conhecia este pedaço de céu negro (que é como que diz azul). Fenomenal Nina Simone. "I wish i knew how it would feel to be free." Ao vivo em Montreux, 1976. Stay with me:)