2009-06-26

O teu morreu (o de Charlie também)

A Farrah Fawcett (Jill) era o anjo do meu primo Gonçalo, a minha era a Jaclyn Smith (Kelly) e a do meu mano a Kate Jackson (Sabrina). Tínhamos entre nove e onze anos. Com elas fomos tudo: piratas, gangsters, detectives, playboys, mas nunca cobiçámos a mulher do próximo:). A loira platinada que deixou as rugas crescer em si sem esmorecer a beleza, morreu ontem, e só hoje eu, o meu primo e o meu mano vamos parar de brincar aos Anjos de Charlie. Mas amanhã, às primeira horas do dia, quando o seu corpo for escondido do mundo, voltaremos a encontrar o ouro dos seus cabelos, que é certamente o mesmo que brilha nos nossos sonhos.

(N.A.: na realidade, o funeral de Farrah tem lugar na Catedral Católica de Los Angeles na Terça-feira, 30 de Junho de 2009; depois de ter visto - hoje mesmo, 28-6 - o documentário sobre a sua luta contra o cancro, um pedaço de coragem que incorpora a exacta atitude que acredito todos devamos ter perante a morte, as modestas palavras que acima escrevi assumem uma importância particular, e Farrah agiganta-se mais e mais como símbolo das coisas boas da vida...)

PS: No mesmo dia, morreu Michael Jackson, e a lenda continua...

2009-06-25

O Anjo a Norte


Vi-a pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.
Mas o que nunca naquela rua alguém alguma vez esqueceu foi o sorriso líquido da menina de Francelos, o sorriso onde sempre o nosso olhar suavemente se estendia, tal a clareza das suas águas, seriam os dentes pequeninos bem alinhados, seria o coração grande, seria toda ela, leve, seria a boquita franca ou os largos sinais da sua felicidade, assim era a pequena vizinha ao Norte de mim e da minha casa, portões acima.

Fui-me embora na deriva normal da vida, e um dia tomou-me a tristeza porque deixara de ver os cabelos belos brancos curtos do pai da pequena vizinha a Norte, e disseram-me outras vozes que se tinha imaterializado na sua bondade.
Deixei-me estar na deriva. Afinal o que podemos nós nas nossas vulgares tristezas perante os muros que erguemos em volta?

Um dia, muitos anos depois, outra menina, que mais de perto era mulher, e mais de perto ainda puro rasgo, pura luz, um dia essa menina passou-me vogando pelo passeio da casa de Francelos, onde eu estava por acaso, passou vogando e sorriu, sorriu claro, e prosseguiu para Norte, e quando eu a vi entrar na mesma casa da minha pequena vizinha, indaguei sem me deter. Quem seria? Não respondi, e a vida prosseguiu.

Meses depois desse dia, a mesma menina, mais de perto mulher, rasgo, luz, passou-me de novo vogando, sorriu, eu desprevenido nada fiz, nem um gesto, nem um aceno, sorriu de novo transparente, prosseguiu para Norte, entrou na mesma casa, e foi aí que me desceu a memória, e dentro dela a imagem da pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.

Era ela.
É ela.

Daí até cá, passa sempre e eu nunca a conheço a tempo, nunca lhe trago um aceno ou um gesto que lhe mostre admiração, mesmo ternura, mas ela sim, ela capta-as no ar, tempera o sorriso claro na boquita franca, na face fresca, e prossegue segura para Norte, portões acima.

Estive anos para escrever estas palavras, porque sabia que tinha de ser assim, que nunca poderia tocar à campainha do anjo ao Norte da minha antiga casa de Francelos e dizer:

- Obrigado por iluminares.

E ela dizia o quê?

"- De nada."?

Há coisas na vida que nos transcendem, há conhecimentos desconhecidos que nos formam e enformam e não podemos fazer mais do que calar ou escrever palavras na distância.

- Obrigado por iluminares a nossa rua toda desde sempre.

Créditos fotográficos: Ashley J Tyler ; modelo: pequena Hailey

2009-06-23

Os nosso seis anos e dicas secretas para ver o fogo de São João


Prometemos à nossa única seguidora declarada (porque page views diários são uns milhares, e mesmo que não fossem, cá estávamos, como ao princípio, há exactamente seis anos - hoje somos pequeninos -), a Helena, que este ano publicaríamos as dicas secretas para ver o fogo sem ser atropelado, e é isso que vamos fazer, de forma breve e não exaustiva.

A primeira é não ver o fogo da Ribeira do Porto. Além da configuração irregular do espaço, que se torna sufocante quando entalados no meio da multodão, é mais bonito ver o Porto em fundo (de Gaia), do que o contrário. Escolher a Ribeira de Gaia só exige inteligência na escolha do lugar para estacionar, e o convencimento de que o São João é para andar a pé. O mais correcto é deixar o carro junto à Câmara de Gaia, num dos parques ou até na rua, e caminhar os cerca de dois quilómetros até à Ribeira, sempre antes das 23h. Prefiram sempre o espaço amplo do calçadão a qualquer encosta pelo caminho, e posicionem-se junto a uma rua larga, para poderem regressar calmamente. A Rua Cândido dos Reis e a General Torres são de evitar para o regresso e nunca, por nunca, tentem atravessar a ponte D. Luís para o Porto na primeira hora depois de o fogo acabar, porque podem ter uma experiência de apertos assustadora. Fala quem já o experimentou.

A segunda é ver o fogo nos dos Aliados, menos espectacular mas perfeitamente relaxado, sem apertos, e também no centro da festa, que há coisa de dez anos deixou, infelizmente, os "movimentos migratórios" Aliados-Boavista até às 2 da manhã, de depois a debandada até à Foz. Era muito mais giro. Agora a circulação em que se pode desfrutar da experiência das marteladas é só praticamente, em torno da baixa, e principalmente o circuito Aliados-Ribeira-Aliados. É muito agradável pulular em frente a São Bento entre as 23h e as 24h. Agradável e divertido.

É sempre importante uma boa escolha para estacionamento, ou ir de comboio. Estacionar perto da saída para a Ponte do Infante, por São Lázaro, não costuma ser má ideia. A partir da uma da manhã, quase todos os circuitos que levam para a Ponte da Arrábida a partir da baixa ficam tomados. Melhor as ponte do Infante ou Freixo. Em São Lázaro é possível decidir qual das pontes se escolhe, espreitando para o movimento da Ponte do Infante. Janta-se bem aí perto, entre Santo Ildefonso e a Batalha.

Finalmente, e por aqui ficamos, um pequeno segredo de um sítio que, não sendo propriamente a Ribeira de Gaia, que permite um visionamento em toda a amplitude, é bom para quem quiser ficar do lado do Porto, mas não lhe apetecer descer à Ribeira. Até tem de subir. Desce a Rua de São Bento da Vitória, a partir da Torre dos Clérigos, até não poder ir mais e aparecerem as escadinhas de. Por aí há um pequeno promontório, num terreno aparentemente baldio, que permite uma vista belíssima sobre o Porto e Gaia, e consequentemente o fogo, num cenário de postal ilustrado. Quem já esteve nas instalações do TIC (preso ou a trabalhar:), sabe de que vista falo. (cliquem na imagem junto a este "post" para verem a planta detlahada; o local fica sensivelmente junto à letra C;)

Para todos, em particular para a Helena, um maravilhoso São João.

Como já devem saber, esta noite é perfeitamente inefável para mim, porque é quando vivo e partilho de forma mais intensa a minha alma tripeira. Emociono-me sempre.

2009-06-19

Este foi o dia (Onde está a Nena e os meus livros e o Mendes e os Joões)?

Foi uma autêntica vergonha. Fui de fato.
Não consegui vir a casa trocar de roupa.


Foi uma autêntica vergonha. Não vi a Nena.


O Mendes disse que o "Anda Comigo Ver os Aviões" está na linha literária do "Readers' Digest", o que é um perfeito disparate, porque este último (sendo brilhante) é impossível de dedicar à minha mulher, e o "Anda Comigo Ver os Aviões" é, porque não é apenas sobre as romarias a Pedras Rubras, mas sobre todo um sentir e um amar dos rapazes do Porto.
Eu, quando ouço o "Anda comigo ver os aviões" (título que pensei por ao meu livro sobre o 11 de Setembro, a sério!), penso apenas no amor de tronco completo que nunca enjoa. Se amas a tua mulher, ama-la a comer tremoços e a ver aviões nas redes de Pedras Rubras, não a jantar no Rivoli à meia-luz. Aí todas se amam! Mendes, a minha mulher sempre disse que o Porto de Leixões e as vias férreas do lado de lá da auto-estrada eram o ideal para fazer um teledisco. Tu escreveste esta canção de mim para ela. Está dito.

À tarde, cheguei em espuma à primeira foz da minha literatura.
O segredo é a alma do negócio, e não posso nem quero revelar mais pormenores, mas uma pessoa não é bem um rio, e se for repete o circuito da água e está sempre a desaguar. Esta foi a primeira de algumas. Foram 34 anos a ouvir elogios do amigo do lado. 20 anos a esperar humildemente pelo momento certo. Uma tarde com uma pessoa magnífica que nos olha e nos ouve. Foi isto que pedi. Nada mais.
Tive.

Este foi o dia.
Mas onde estava a Nena? A Nena foi? Se foi, passarinhou pelas paredes forradas a alcatifa azul escuro do Passos Manuel? Alguém a viu? E o Wally? Eu tinha trocado de caneta, troquei para aquelas de escrever em Cds, que não saem, para dar um autógrafo a um fã, e levar um autógrafo dela. Nada.
O Mendes calou-nos.
Fica-se a ouvir e a ver este rapaz, que começa por nos despistar a fome a falar dos cachorros (pagos) do Gazela da Batalha, continua sempre simples e familiar como se fosse fácil subir a Rua Firmeza entre Santa Catarina e a Alegria, deixa-nos um sorriso luzente e permanente, culmina sempre virtuoso mas olha-nos e toca-nos como se estivesse connosco discutindo as chuteiras do Gomes à soleira da porta do Café dos Lóios, dizendo apenas que não é por causa delas que ele corre com passos pequeninos, quando afinal tinha acabado de dedilhar a guitarra da lágrima negra como se o seu apelido fosse Lucia e o flamenco pudesse esperar. O Salsa - que é meu fã - sabe muito e tocou harmónica de acordeão como um caubói, o João Vaz tornou a "Costureirinha da Sé" da avó ainda mais inesquecível, e ouviu-me e eu ouvi-o e é magnífico.


Mas a Nena não vi.
Será que lhe vou ter de falar desta coisa de sangue que tenho da Babi para ela me perder o medo, e deixar que a musa necessária vingue (já não se fazem musas, não me deixam ter uma)?
Este foi o dia.

Queria agradecer a todos os portugueses,
em particular a uma Magalhães (que também fazem no feminino, sabiam?, e sublime, e tem a ver com a tal tarde literária, não com Azeitonas), um Miguel, dois Joões e uma Barbosa que se deseja mais opaca.


Agora andem comigo ver os aviões.

2009-06-13

Os Azeitonas (e o belo absoluto)

Tenho de escrever isto, porque não quero morrer estúpido:).

É oficial. Acabou de acontecer. Aquele momento em que, tendo passado algumas semanas, ou meses, depois da descoberta de um grupo musical, ficamos parvos de todo e já não conseguimos ver nada de errado neles. Ou com eles. Ou por eles.
Acabei de ficar parvinho de todo, pois.
Há coisas do caraças.
A caixa de Cds da minha carrinha anda instável vai para um mês. Maldição. Eu, que no Rover 620 Si a cair de velho já tinha transitado para música ouvida em Cartão SD (que nunca falhava), tive de voltar à caixa de Cds que já vinha com a minha Tânia Filipa (são as letras da matrícula, não se assustem). A gaja é temperamental. A carrinha, não a caixa de Cds - esta é mesmo pérfida. Ora, mal deixo o centro cá da vila e desço à praia e começam os paralelos, os Cds saltam e no visor ultra-moderno da carrinha aparece a merda da expressão anglo-saxónica "Surface", que eu nunca soube verdadeiramente o que queria dizer no contexto da avaria. Ainda arranjei rituais, saco a caixa fora, limpo os Cds, sopro para dentro, mas ela só funciona quando quer.

Acontece que eu andava mais ou menos dependente de ouvir todos os dias o "Quem és tu, miúda?", e não há melhor momento para fazê-lo do que com o cabelo ao vento a ver passar e a passar por gajas e raparigas e até mulheres parecidas com as que imaginamos saídas da canção, no fundo todas as mulheres passadas e presentes que nos fizeram e fazem estremecer por um momento que fosse (seja) vida fora.

Em resumo, agora tenho de os ouvir na porcaria do portátil, que sem fones tem um som verdadeiramente reles, mas com fones nos envolve no outro extremo.
E aqui sentado deu-me para descobri-los mais e mais.
E uma pessoa fica a respeitar esta (boa) gente.
Não que os tipos interessem, mas interessa a Nena, que um ouvinte distraído leva à conta de menina de coro, mas que umas buscas no "You Tube" nos devolvem na forma de anjo, como o que passa à nossa rua, e flutua. Então aqueles grandes planos da "Praça da Alegria", a cantar os Desenhos Animados, desestabilizam qualquer rapaz bem casado (como eu).

Serem do Porto (como eu) não é pormenor despiciendo, embora "Os Azeitonas" sirvam ao mundo, mais do que ao país. Mas sendo do Porto, talvez possa dizer do Norte, há uma emoção particular, uma essência que nos faz agradecer a estes putos o virtuosismo de um bom gosto que vem das tripas.
E depois ouvimos neles o Neil Diamond, os Beach Boys, o Rui Veloso, os ZZ Top, os anos cinquenta, sessenta, oitenta, noventa.
Já lhes chamei "Os Trabalhadores do Comércio" dos anos 2000, mas isso é muito redutor.

Para quem escreve, como eu, ouvir letras que são livros totais é impagável.

Os Azeitonas fazem-me sentir que não temos de ser "cool" para ter emoções.
Derreto-me todo a ouvi-los, vibro, derreto-me, vibro, derreto-me.

"Quem és tu, miúda", "Um tanto ou quanto atarantado", "Carta ao Pai Natal", "Desenhos Animados" (não me apetece ir ver o nome completo, estragava a onda), "Mulheres Nuas", e agora todas as do Salão América (escrevo esta elegia ao som de uma nova, "Anda comigo ver os Aviões" - que com o foobar passou ininterruptamente nos meus ouvidos já mais de dez vezes, como eu gosto de os ouvir cantar o Porto de Leixões, ou fazer rimar totobola com pistola!).

Juro que apetece chorar de felicidade por ver que há pessoas que conseguem trazer-nos a simplicidade da dita, a imperfeição da dita (felicidade), como apetece não relativizar o belo absoluto com que passei a olhá-los quando fiquei parvinho e me tornei fã, há meia-hora atrás.

Gosto de os ver reclamar para si a simplicidade do romantismo. O direito a ele.

E afinal dão tudo, está tudo disponível gratuitamente para download, e até deram à TVI a música que passa nas novelas (por isso dizem que são dados, e não vendidos, como os acusaram de ser porque para certos afectados tudo o que entra nos Morangos passa a estado terminal da segregação).

Não temem ser confundidos com zés ninguéns, como eu às vezes tenho quando gaguejo a falar dos meus livros, e têm a perfeita consciência de que valem (de valor intrínseco) o mesmo agora do que valiam em 2002, quando resolveram fundar-se numa bebedeira em Ibiza, e que valerão amanhã, quando metade do país se render a estes ímpares poetas dos paralelos da minha carrinha. Valem muito.

Ficam as justas ligações, e a certeza de que vida fora lhes darei mais do que o que custariam os Cds que ele não vendem, dão. E dar-lhes-ei como eles me dão a mim.

http://www.osazeitonas.com
http://blog.osazeitonas.com

Gosto de vocês!!!!!!

(reivindico o direito a ser lamechas, apesar de escritor, apesar de advogado, apesar de investigador, apesar de grande, apesar de chato, apesar de melga, e depois de ter sido trucidado duas vezes por superlativos Cirque du Soleil, não vejo menos brilhantismo na dedicação destes moços;)

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Créditos fotográficos - Marlon



2009-06-07

Eddie Britt morreu. Viva Eddie Britt!

Escrevo deslumbrado.
Acabei de ver o 19º episódio da 5ª temporada das "Donas de Casa Desesperadas", um magnífico espisódio dedicado a Eddie Britt e intitulado "Look into their eyes and you see what they know", uma série que em certo ponto abandonei, mas que está agora melhor do que nunca. É a única que me inspira literariamente. Cada episódio tem introduções e epílogos tão bem escritos, que me dão a urgência de escrever. Não raro, sento-me ao computador para sarar essa dor, como agora.
Como este espisódio já passou há algum tempo nos Estados Unidos (2009-04-19), parece-me legítimo falar no pretérito dessa grande personagem que era Eddie Britt, por já ser pública a "notícia":
Mataram-na. Não sei se por questões contratuais ou de enredo (esta última hipótese não faz muito sentido), nem é importante. Mataram-na e eu vou sentir a falta dela.

Ao contrário das mulheres doces da variante J, que homenageio abaixo, Eddie Britt era ácida e artifical, implacável e frívola. Não era agradável na espuma dos dias, nas horas que passam devagar, não era amiga de todos os minutos.

Mas era uma mulher magnífica.
Voluptuosa, de cultivo da aparênca, do cheiro, do toque, da fantasia, tinha a leveza das mulheres que não precisam de peso, porque o têm de forma específica. Era quase tudo o que queremos ser ou ver. E, se essas mulheres de mera índole estética, do virtuosismo da imagem, também são essenciais para um mundo melhor, porque um mundo sem beleza se torna esquizofrénico, Eddie Britt, afinal, estava presente nos momentos fundamentais daquelas que, aparentando ser suas concorrentes, mesmo rivais, eram verdadeiramente suas amigas, estava sempre por lá nos dias de chuva, com um copo na mão, e não deixava que o colectivo se afundasse em lamúrias. Descolava do marasmo.
Senhora de uma ética muito própria, era profundamente solitária, vivendo atormentada pela verdadeira solidão, de que tentava fugir, sem sucesso.
E por não se dissociar dessa sede incontrolável da aparência e de bem-estar material, alcançou a suprema coragem de entregar o filho, que obviamente amava, à custódia do pai, quando se divorciou.
Morreu num acidente estúpido de automóvel, electrocutada.

O mundo também precisa destas pessoas.
Pessoas bonitas que, tendo consciência do seu desvalor para lá da aparência, são suficientemente humildes para deixar alguns palcos a quem os merece. Todas as guerras, aliás, são feitas do oposto do que era esta mulher. Quantos medíocres conhecemos que, a pretexto de quererem abocanhar tudo, infernizam tudo e todos em volta?

Vamos sentir a falta de Eddie Britt. Era mulher magnífica.
Loira, alta, corpo perfeito, voluptuosa, de cultivo da aparência, do cheiro, do toque, da fantasia.
Era quase tudo o que queremos ser ou ver.

Eddie Britt morreu. Viva Eddie Britt.

PS: já agora, uma salva de palmas para a excelente actriz que é Nicolette Sheridan:), à qual só conseguiram dar nos idos de 1979 dois Soap Opera awards por "Knots Landing", e nenhum Globo de Ouro ou Emmy Individual (ganhou apenas dois globos de ouro colectivos, em 2005 e 2006, pelas "Donas de Casa Desesperadas");

Créditos Fotográficos: Randee St.Nicholas, ABC

2009-06-03

Superlativos eficientes

Estava eu a almoçar na esplanada errada da Rua Augusta (não serão todas?), porque o Martinho estava fechado e não devia, estava eu levando um banho de cosmopolitismo que só Lisboa saber dar neste país (o meu Porto é - e eu dou graças - muito mais recolhidinho), quando vejo a pungente cena (é sempre pungente ver o ser humano superar-se) de vários paraplégicos  - um ou outro tetraplégico - rodeando um executante de rua, fotografando, recolhendo som, filmando. Muitos deles só mexiam a boca, outros não coordenavam os movimentos (como nós), mas formavam todos um grupo coeso, distibuindo-se entre a rua e a esplanada onde se empenhavam em grandes diálogos num tempo e espaço próprios. O meu filho absorveu tudo com admiração. Sei que estes momentos vão fundar um gesto corajoso nalgum ponto da sua vida. A mim apetecia-me chorar baixinho, de admiração, de alegria, de respeito. Nunca de pena.  Superlativos eificentes!

2009-06-01

O Cirque e o Corpo

Hoje vi um rapaz deficiente fazer da sua fraqueza força. Era artista de um circo superlativo. Girava sobre muletas e o público, em silêncio, agradecia ao circo do sol a inclusão óbvia. Óbvia porque o Cirque é virtuoso.

Hoje vi dois irmãos de troncos e pernas atados voando em fios negros.

No dia 25 de Abril de 2008, em Algés, tinham sido dois corpos num jogo de luzes, a luz foi a carne, a dar-nos os mais belos quinze minutos das nossas vidas.
Hoje vi outra vez o público rendido, deslumbrado, as crianças a rir da simplicidade da beleza e da comédia. Aos adultos impressiona o rigor, a coordenação perfeita, a orquestra ao vivo, e a forma como o encanto vira deslumbramento.
(Já vi pessoas chorar por não conseguir sintetizar a emoção do tanto que lhes é dado.)
Entramos, vemos risos e marketing e tudo a municiar o financiamento desta loucura que um dia (no ano da graça de 1984) tiveram Guy Laliberté e Daniel Gauthier na Baie-Saint-Paul (algures no Canadá).
Saímos e queremos contribuir (nem que seja com palavras), porque é devido.
Eles não se enterram no buraco negro do sofá, nem sofrem de exaltação do ego e afundamento do alter.
São.Ponto.
E deviam SER obrigatórios.
Cada espectáculo do Cirque du Soleil é uma "life time experience".
Eu já vi dois, sou por isso privilegiado e viverei mais tempo, nem que seja sonhando aos círculos com o universo destes iluminados.