2009-05-25

Caro António, este Circo do Direito é...

Afinal, a despeito da ironia inserta no artigo abaixo ("Eu, o Direito, a Soraia Chaves..."), sempre falei hoje cerca de dez minutos aos microfones da RTP e da Antena 1, em directo e sem rede.
Surpresa agradável - A serenidade do António Jorge, o pivot, a vontade de ouvir, a capacidade de deixar falar e a atenção ao que é dito pelo interlocutor; espero que ele tenha percebido que os meus ataques não foram dirigidos à imprensa, à sua imprensa, mas a toda a mediocridade;
por isso é ao António Jorge que dirijo, numa espécide de carta aberta, as seguintes palavras:


"António,

Como viu, e confio na sua lucidez, hoje, no seu programa, não se falou efectivamente de nada.
Mesmo a Dra Elisabete Granjeia, pessoa que muito admiro e respeito (sem reservas), ao ser vice-presidente de um órgão ameaçado de extinção (Cconselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogados), nunca poderia falar descomprometidamente. E falou do meu "dedo", quando eu apontei as estrelas. Importava realmente se a questão afecta ou não o meu dia-a-dia? Nada. Claro que afecta o dos Conselhos ameaçados de extinção (e o que importa isso à essência das coisas?).

Mas eu fiz uma intervenção de fundo! Dela ficou apenas:
- a guerra na Ordem não afecta o meu dia-a-dia;
- há advogados que passam fome;

O resto foi, com uma ou outra excepção, verdadeira ignorância passeando pelas massas, que ainda assim é melhor do que incompetência. Mas não sai da mediocridade.

Continua o Circo. Quer ver?

Não liguei a ninguém previamente. Mas a TV e a Rádio são megafones.

Aqui na terra, e também na Terra :), houve gente que me ouviu, entre conhecidos e amigos.

O pessoal da rua e do café gostou, porque sou da terra, mas não me percebeu realmente, e continua a dizer o mesmo que me levou a atestar, no início do Bastonato, que tínhamos o povo ganho só com o estilo deste Bastonário. Mas não percebeu nada do que eu disse. Advogados a passar fome? Ganha menos do que a sua empregada doméstica? Circo?

Os amigos que me ligaram , mais informados e serenos, perguntaram-me se tinha corrido bem.

Eu disse, claro, que não, porque não serviu nem servirá de nada.

Sinto-me perfeitamente realizado se você, António, duvidou por um momento se está ou não a cumprir agendas previamente definidas. Nem que seja por guerras de faca e alguidar perfeitamente irrelevantes (os Bastonários serão sempre passageiros, mas a Justiça inerte fica). Repare que tenho certeza absoluta de que muitos bons jornalistas, cegos pela luminosidade do próprio poder mediático que exercem sem maldade, não têm capacidade de discernir os contornos claros da coisas. Não por culpa própria.

Já pensou porque é que noticia o caso Esmeralda e não um qualquer caso Ana Maria, ou Mafalda, ou Teresa, ou Hugo, ou Pedro, ou Marco? Se eu lhe disser que os ingredientes da maioria dos casos de que lhe falo são bem mais escabrosos do que o caso Esmeralda, poderá concluir que...noticia o caso Esmeralda porque sim? E "porque sim" é a vocação de certas pessoas de se porem a jeito para serem estrelas mediáticas. O caso Esmeralda não é mais do que isso.

(provavelmente a questão da CPAS - ouviu falar? - é a única importante no meio disto tudo, desta aparente "guerra", mas quem fala disso?).

Queria fazer uma declaração final formal: respeito todas as profissões, todas as artes, mas em nenhuma delas respeito o conformismo, a incompetência ou a mediocridade. Isto para que, no ruído do que digo, não fique o que não quero dizer.

Se o António identificar a mediocridade, por favor venha cá fora observar por outra lente.

Confio que o António, e alguns mais, advogados ou jornalistas, serão capazes.

Serão sempre poucos, mas serão capazes.

Abraço do Pedro Guilherme-Moreira"


"Little boxes, all the same.
There's a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they're all made out of ticky-tacky
And they all look just the same"
Malvina Reynolds (genérico de Weeds)

2009-05-24

(Did you say it?) You changed my life (Did you say it?)

"This is it.
It might all be gone tomorrow."

Esta é a voz (estas são as exactas palavras) de Meredith Grey nos últimos e emocionantes momentos da quinta temporada da Anatomia de Grey, mas não é sobre uma série de televisão que vos quero falar, embora muitas vezes a ilusão seja maior do que a vida.

A cena dá-se com os acordes de "Off I Go", de Greg Laswell, em fundo.
Muitas vezes fica o piano sozinho com a nossa emoção. Gerimos situações limite de personagens que nos são familiares, que nos fazem chorar e rir.

Estremecer.

Municiam-nos os passos mais doridos da vida, resgatam um sorriso de um lugar em nós que pensávamos impossível, facultam-nos a lágrima que devíamos ter chorado muito antes.
As mais das vezes (e sabemo-lo), só somos nós próprios na intimidade e perante a ilusão.
Na rua, na vida, encapotamo-nos, como se a tempestade se eternizasse.

Independentemente da chuva emocional, não faz sentido que tratemos melhor as nossas ilusões do que as pessoas que passaram e passam na nossa vida e nos fizeram e fazem, quais rios de curso vago, correr num leito diferente.

Venham do passado longínquo ou do presente, é preciso que algo de extraordinário nos suceda para que as abracemos e lhes digamos o quanto gostamos (ou gostámos) delas?
António Lobo Antunes começou a dizer às pessoas o quanto gostava delas depois de ter sido salvo de um cancro. Ou começou a dizê-lo com frequência. Terá confessado o seu amor e admiração por mais pessoas no último ano do que em toda a sua vida anterior.
É possível não cometer o mesmo erro e ter uma vida menos literária, não é?

Quando Meredith pergunta "(Did you say it?) You changed may life (Did you say it?)" e o piano de Laswell fica a sós comigo (o pano descia), o meu peito enche-se de orgulho, e eu respondo sibilando entre dentes:

"Yes I did"

A praticamente todas as pessoas que conheço.

I often do.

Mas como não sou neon nem tenho brilho próprio, não tenho "star quality" nem banda sonora a acompanhar, fico certamente perdido em prateleiras simpáticas da posteridade, como uma foto que se tira de um álbum poeirento.

É esse o destino dos meus abraços?

Duvidarei sempre, até porque os desenho fechados, apertados, como as palavras que escrevo, e estas lanço-as ar fora sempre com a esperança de que andem a migrar entre os corpos.

Luminosas.


PS: fica um homem frágil por isso? Claro que não.

PS2:  A foto - plenamente dentro do contexto, para quem me conhece, documenta essa mesma dicotomia: a fragilidade do corpo é irrelevante perante a força do espírito

2009-05-21

Eu, o Direito, a Soraia Chaves e o Mário Crespo nas Grandes Entrevistas - Vidas de Brian

Depois de muito tempo, volto a escrever sobre Advocacia e Direito para camionistas (acima de tudo, mas presumo que alguns licenciados em Direito conseguirão entender;).
 
Peço desculpa, mas a falta de tempo impede-me de vos dar informações mais detalhadas sobre o epigrafado, nomeadamente as minhas entrevistas na RTP, SIC, TVI, SICN, RTPN, TVI24, Dois, Gaia na Frente, Armação de Pêra pelo lado, Alentejo Total, Idanha é nossa, Viva o Porto.
 
Tenho-me desmultiplicado em entrevistas, mas só vai ser possível observá-las no director's cut da sociedade, daqui a alguns anos.
 
Basicamente o que defendi perante todos os entrevistadores foi que o Direito precisava de uma "Vida de Brian".
 
Neste momento, o apregoado senso todos tolda, todos os que se pensam extremamente lúcidos, e até consideram que é nos megafones da imprensa que resolvem todas as questões..
 
Infelizmente, estamos entregues aos bichos, que comem inclusive o colesterol bom dos mais saudáveis.
 
Só os medíocres têm paciência para permanecer no poder e sob holofotes.
 
Há um critério que, para mim, é fundamental:
quando se fala mais à imprensa que aos próprios pares, está tudo dito.
 
É válido para todos, não apenas para o Bastonário.
 
Mas quando eu for Bastonário, e nessa "Vida de Brian" sê-lo-ei, saberei calcorrear caminhos junto dos meus colegas, e longe dos holofotes.
 
Responderei a cada jornalista que ele (o jornalista) está nas mãos de interesses, mesmo quando pensa dizer a verdade, e que se não estuda a fundo junto de um tolo como eu o que são os verdadeiros problemas da Justiça e da Imprensa, nunca irá longe. Será sempre postiço.
 
E farei questão de anunciar que Portugal já precisava de uma Marilyn Monroe, e que ela é a Soraia Chaves.
 
Gostaria de lembrar, uma vez mais, que a Marilyn Monroe morreu como grande actriz (quem viu "Misfits" não pode ter dúvidas), e é mais importante para a História, e portanto para o próprio Direito, do que qualquer Bastonário de qualquer ordem pelo mundo e pelos séculos fora.
 
Ou seja, estou hoje perfeitamente consciente de que o bem se faz sem anúncios prévios, na rua, cara a cara, grão a grão.
 
Estou certo de ter "tocado" para o bem maior do Direito, ao longo de 14 anos de profissão, pelo menos 200 pessoas.
 
E quando digo tocar, digo tocar a sério, mudar a perspectiva e a atitude perante a sociedade e os conflitos potenciais.
 
Coisa pouca, mas é a minha obra maior, até porque não ganhei dinheiro com isso.

Somos 27.000 x 200 tocados = Cinco milhões e quatrocentas mil pessoas, e se cada uma delas falou e fez perceber 3 outras = Dezasseis milhões e duzentas mil pessoas.
 
Se deixar isto apenas para um terço dos advogados, tirando as maçãs podres, mas tendo em conta que alguns deles têm outros meios de persuasão, teríamos um número realista de sete milhões de portugueses devidamente esclarecidos.
 
Por mais que o nonsense dos Monty Python faça aqui a sua incursão, é muito real a minha convicção de que o bem só assim se pode fazer.
 
Tenho lido algumas coisas sobre História. Estou perfeitamente convencido. E desprezo o que tenho visto de uma forma tão profunda que só me permito deixar de considerar quase todos os envolvidos.
 
Esta mensagem foi só para que saibam que, apesar da desilusão e da tristeza de uma realidade comprovada (uma triste realidade), tenho a paz e a serenidade de, sem utopias, e com sentido realmente prático, estar a fazer o bem.
 
Claro que, o que temos de tirar aos sete milhões de portugueses esclarecidos, são cerca de nove milhões.
 
Não de benfiquistas, mas de pessoas confundidas, desiludidas, revoltadas, com o triste espectáculo do qual pouco entendem, para lá dos resumos normalmente mentecaptos da imprensa (e eu até acredito na imprensa de qualidade, embora ela hoje tenha pouco tempo para existir - às vezes, nem o Mário Crespo, que entrevista sargentos sem estatura porque são "factos noticiosos"...!)
 
Assim sendo, o papel desta voragem mediática proporciona-nos um saldo negativo de três milhões, ou mesmo os nove milhões, se os sete milhões ao nosso cargo esmorecerem.
 
Eis o triste papel dos medíocres, que são os únicos que têm paciência para se agarrar ao poder (ou à vontade de o procurar).
 
Cumprimentos, Pedro Guilherme-Moreira

PS: que fique bem claro que esta não é uma crítica ao Bastonário Marinho Pinto (aliás, nem sequer é nele que penso em primeiro lugar), mas absolutamente a todos os advogados que não pensam, nunca pensaram, nem nunca pensarão, acima de tudo, no bem comum, nos seus colegas; Pensam, antes de mais, em si próprios, na sua promoção, muitas vezes iludidos de que são Dom Quixotes com nobres sendas. Toca aos mais eminentes, e essa é a razão da minha profunda tristeza com o que se passa. Todos ralham e ninguém tem razão. E o mais grave é que nunca o perceberão. Melhor tratar tolos como eu de tolos para cima.
 

2009-05-18

Variante J (haikai só)


Há manhãs em suspensão,
(Formas complexas de orvalho),

E vésperas de cristal.

Pedro Guilherme-Moreira




PS. A todas as mulheres doces, às que se acham ignoradas e se fazem ignorandas atrás das paredes e dos tachos, dos aventais e dos filhos, que não devem precisar de rupturas ou crises para que o espelho lhes devolva o brilho da sua autenticidade; doravante, não sendo possível nomear todas, terão ao seu serviço a letra J (não o x, nem o y, nem o z) e estes dois poemas:).

2009-05-17

J (com haikai dentro)

Elas passam no passeio das Cardosas,
Poderosas,
Passam todas em vestidos sufocantes
Estão pedantes,
Estão na praia por esplanadas refulgentes
Diluentes

Menos J,
Que é mulher.

(Que abaixo do brilho dos corpos celestes
 Que acima da carne dos homens agrestes
 Há doces sorrisos e mãos de veludo e colos de lã e ombros de amparo e olhos de seda
 e trapos rasantes de todas as formas por dentro dos homens, por fora não és,
 Só és substante se ela, mulher,
 estiver por descer
 de anjo, na sombra
 dos passos, gaivota
 no plano de voo,

 trovão na vã quietude.

E então essa J, a tal  que é mulher, pediu de rompante a sua palavra, pediu para dizer,)

Decantando um malmequer:

(haikai:)

Luz do dia, Cotovia
Fundamento dos teus versos,
Doce rima dos teus berços.

 


2009-05-16

Obrigado! O Porto é fotogénico:)

Primeiro a Super Bock, que tem sempre a boa ideia filmar anúncios no Norte, sendo que os últimos decantam com mestria a essência do Porto, e quem é tripeiro reconhece cada recanto, interno ou externo, Porto que, caso não saibam, está com uma noite como nunca teve (zona da baixa/Cedofeita). Agora a PT, com a fibra óptica, que inunda o país de Porto. Como tripeiro nado (e criado) no Porto e em Gaia, agradeço o reconhecimento da fotogenia do Porto, contra o "cliché" da cidade cinzenta e sombria, que não é por sistema. Se o é, é porque o sotaque largo e o olhar doce do tripeiro precisa de recantos reservados, escadinha, ruas escuras, tortuosas, para se estender:). Bibó Porto.

2009-05-15

nem surrealismo nem sexo (com bolinha)



Bolinha (nota prévia): é expressamente proibido ler este texto na tela de um Magalhães, tenha o leitor a idade que tiver; convém, igualmente, ter mais de 16 anos, porque a linguagem pode não ser compatível com o seu ideal de educação; os facilmente impressionáveis com honestidade erótica e palavrões, também devem abster-se.



Nem o Púcaro Búlgaro, nem o próprio Campos de Carvalho, nem Pacheco, nem Cesariny, nem Pessoa, nem mesmo o próprio Breton (que nunca poderia ser surrealista em português) podiam hoje salvar-te do teu problema. Queres fazer sexo com uma mulher brasileira. Não queres fazer sexo real. Muito menos surreal. Ainda menos virtual. Queres só fantasiar com uma mulher brasileira e atingir o orgasmo sem subterfúgios. Não te queres masturbar, e já cansaste dos amigos mesquinhos da Polícia do Pensamento que te segredam que não podes fantasiar sem ser infiel. Foi o Edson do economato que anteontem na sombra do teu intervalo para café a meio da manhã te disse Estás com fantasia no olho, devo avisar tua mulher?, e tu cuspiste o líquido negro e deixaste de fumar um cigarro porque apenas rugiste
Foda-se! Quando é que vocês renegam o cerco mental?
Não, meu caro, a tua erecção perante a ideia dos quadris de uma brasileira em tuas mãos não é rótulo de natureza canalha. É só hormonas e liberdade. O Edson é que anda procurando subscrição para a folha em branco do seu caráter ausente, tem de encontrar em todos os cantos um igual que desmaterialize a sua culpa e valide a sua traição. Ele nunca inteligiu limites, e a primeira vez que o pénis explodiu contra o ecrã quis convencer Deus e a sua própria cobardia que passara a fronteira, coisa que nunca fizera contra os azulejos do banheiro (que é igual), e foi correndo uma, duas, cem vezes para todos os nicks, e fodeu-os dentro da pele sem fantasia alguma. Edson é macho cobarde e sem caráter, tu não.
Acredita que não precisas do surrealismo para nada, também eles, a maioria deles, eram uma espécie de maricas afivelados de maneirismos, calões e incapazes de trabalhar os mais dos anos de suas vidas como gente séria, em busca do suicídio glorioso, fosse o tiro nos cornos ou a margem social.
Vamos então perceber: não queres sexo real, surreal, virtual, oral ou masturbação, mas queres uma brasileira em ti agora porque é o teu fetiche e uma das vias para a liberdade. Ok. Estás com uma erecção desde manhã e nem sequer a pediste. Não falaste em negar sexo escrito. Puxa então uma folha em branco e escreve honestamente
Ela tem uma camiseta branca e uma calcinha de fio dental preta que desaparece no centro das nádegas que o torno do divino carpinteiro fez em curva nos mais precisos cálculos da imprecisa engenharia humana. Está inclinada sobre a cama para que possas apreciar da cortina do teu pudor onde reside o rio e os afluentes da tua fórmula. Prenuncias os teus lábios sobre a pele eriçada, o sabor na tua língua, primeiro os teus indicadores sobre os mamilos endurecidos, depois as tuas mãos em concha sobre os seios em globo, mas não executas. Arrancas o tecido de musselina transparente que está no guarda-vestidos ou nos teus olhos e voltas a cobri-la quando ela já vai nua. Levantas o véu para o teu corpo passar por baixo do dela, de frente para ela, nunca a tocas, deslizas suavemente até a tua boca estar em frente à dela, carnuda, vermelha, os dentes brancos de pureza, mas não a beijas. Sentes a respiração, o cheiro a sal e a praia, a areia que caiu na colcha da cama por abrir do hotel, o bronzeador que te veda a formação de frases. Sabes que és parvo e inocente, até um pouco obtuso e palerma, mas sempre doce e honesto. Sempre foste.
Colocas a tua mão direita sob a orelha esquerda dela, a ponta dos dedos no pescoço empurrando tufos de cabelos brilhante, cruzas as respirações divisando sua língua esperando a tua, não trocas saliva, nada, só dizes
Eu vou entrar em ti logo à noite sobre os meus azulejos, vou só com o que tenho todo livre e sem romper trato de sangue, mas levo daqui o teu cheiro e o teu quase suor, a tua quase saliva, a tua quase vagina afogada, o meu quase esperma, os nossos quase movimentos arquejantes em viagens de acesso e regresso, levo daqui a nossa quase plenitude erótica sem nunca te ter visto na pele sem o véu de musselina.
E um dia, quando puderes mostrar os teus breves parágrafos de sexo escrito ao teu filho, para lhe explicares a diferença entre pornografia e decante do corpo, saberás que o teu único pecado foi ser livre pensando a quase totalidade, sem o subterfúgio de uma arte desonesta ou a desonestidade de uma pedra em bruto. Esculpe-te como pessoa de dezasseis milhões de cores e fala com a clareza do preto e branco.
Essa brasileira, na noite dos azulejos, no fundo do seu banheiro, foi a amante permanente do teu corpo, a fantasia consentida, a tua mulher (e os votos renovados).
2009-04-07, P. Guilherme-Moreira

2009-05-11

The River

A Profª Drª Ana Maria Chaves emérita tradutora e professora Universitária na Universidade do Minho, que não conheço, concedeu-me a honra das palavras seguintes, enviadas por correio electrónico,  e que são inestimáveis como pai, e certamente prenda eterna para o meu Guilherme, e autorizou que as reproduzisse, o que passo a fazer, sem mais considerações.

"Estive nos seus blogues, onde voltarei muitas vezes, e estou fascinada com o poema do Gui. Impressionante para 9 anos! E como sou uma tradutora apaixonada e compulsiva de boa poesia, perdoem-me a ousadia, mas não resisti a traduzi-lo:  
 

THE RIVER

I see in your eyes a river of

tears flowing to a solution

of water.

On the shore the sea is not the sea

but your blue iris.

Your sadness envelops small

particles of joy.

The river envelops everything:

Joy, sadness, solutions,

And even a little of the sea.
 
 
Cumprimentos
 
Ana"

Recordo que o original, em português, está aqui: O RIO

X

Antes de ires, regressa ao campo
onde tens guardadas flores,
onde estás guardada flor.
Lembras-te da planície imensa

onde tudo era claro e todos inábeis,
onde tudo era ausente e todos presentes,
onde o tempo não disse nem tu percebeste
que há deusas na terra por breves segundos?

E vens cá chegando com toda a brancura,
com toda a pureza, com toda a leveza
vinho pão semente vão casa pele

coração. Agora vai,
Sai planando pelo espaço, sai do tempo
leva os X à eternidade, apertados

à cintura, vai sem véu
vai planura.

Pedro Guilherme-Moreira,
2009-05-11


2009-05-10

Atlântico da Madalena Campeão


No dia em que o FC Porto celebra, em futebol, mais um tetracampeonato, este blogue destaca uma vitória do lado mágico, especial, onde se ergue o edifício do desporto.

Hoje, em Fiães, uma equipa de voleibol do Atlântico da Madalena constituída por dois Andrés, um Guilherme e um Pedro, jogadores de primeiro ano de Minis-A com pouco mais de seis meses de treino (em nove e dez de vida), venceram o torneio local contando por vitórias todos os jogos disputados (contra várias equipas do próprio Fiães, Vale de Cambra e Académica de Espinho).

Na final, encontraram uma equipa da Académica de Espinho com uma qualidade técnica superior, e que venceria nove em cada dez jogos, mas que hoje foi batida pela humildade, concentração e esperança de jogadores que atingiram assim, de forma certamente gloriosa (porque se inscreverá para sempre na memória pessoal de cada um, e se erigirá como base de cada momento maior), a primeira vitória desportiva da sua carreira e da sua vida.

O facto de ter entre os vencedores um filho, e entre os derrotados um sobrinho (há um mês foi vice-versa, já que esta final foi uma re-edição dessa), faz com que sinta fundamental trazer este testemunho, que acaba por ser pessoal.

No final, uma criança da Académica, que chorava convulsivamente, percebendo ter perdido, e enquanto os adversários festejavam a sua improvável vitória, alterou o marcador do jogo que tinha sido seguido por dezenas de pessoas até ao ponto final, vencido in-extremis pelo Atlântico. O seu treinador, ao invés de tornar esse facto irrelevante, apoiando o seu jogador, afastando-se para lhe dar uma lição de desportivismo e deixando o palco breve aos vencedores, resolveu rentabilizar esse facto para fingir uma vitória que não teve. Todos os adeptos (pais) e técnicos do Atlântico se portaram com dignidade e elevação, estimulando que os jogadores das duas equipas se abraçassem e se integrassem na despedida colectiva final, sem valorizar este acto, como deve ser.

E à luz vitória, saborosa, os jogadores vestidos de verde e branco aprenderam, pela primeira vez, a desconfiar  e a vigiar o adversário, e os jogadores vestidos de preto perceberam que podiam enganar de novo, com o beneplácito dos seus professores e formadores.

Não houve insultos, reclamações, dos campeões.
Por isso mesmo: são campeões.

No dia de mais um tetra do FCP, uma equipa de voleibol dos Minis-A do Atlântico da Madalena percebeu, pela primeira vez, o que é ser maior.

As dores do tempo

Ando cheio de dores do tempo.
A ver se as percebo nas próximas linhas.
Se as explico e o nó do peito se me desfaz.

Como já aqui aventei no "post" "As marés dos amigos de ontem", e depois de 25 anos sem nada fazer para rever velhos (e grandes) amigos e amigas, decidi deixar as promessas e as declarações de intenções para concretizar. Contactei, nos últimos cinco meses, mais de quarenta, entre conversas profundas, presenciais ou telefónicas, visões breves, olás doces ou enxutos como vais.

Estive, por isso, gravemente exposto à radiação da luz do passado de estrelas presentes.
Pior, estive sujeito a sofrer com o sentimento de culpa de ter estado ausente do sofrimento.

Como é isto? É precisamente quando ganhamos alguma autonomia dos pais e vamos para as Universidades ou para os empregos que viramos as costas a pessoas que nos acompanharam nos momentos mais íntimos durante 5, 6, às vezes 10 e 12 anos? Provavelmente os mais importantes anos das nossas vidas, aqueles em que ganhámos forma de gente? Amigos que nos sustentaram o choro, nos ampararam a raiva, nos partilharam os gritos e os abraços, nos acompanharam as gargalhadas,  nos quebraram ou alimentaram os corações?

Muitos dirão: é o curso natural da vida.
Ora, raios para o curso natural da vida! No curso natural da vida há pessoas que de nós dependiam que estão hoje numa solidão tremenda. E nós com isso!

É verdade: absorvemo-nos de tal forma no nosso projecto pessoal (académico e profissional), na parceria matrimonial, na paternidade, rodeia-nos tanta gente e tanto barulho nesses anos, é tudo tão novo e tão importante, a conquista do nosso lar, da nossa própria família nuclear, a morte dos avós e dos familiares mais próximos, tudo é tão absorvente que, quando decidimos que é hora de parar e olhar para trás, para os que ficaram (não necessariamente para os que passaram!) lá no fundo dos tempos, aqueles a quem nós confiávamos a vida e que nunca mais vimos, perguntamos a nós próprios:

Devo fazer isto? Posso fazer isto?

Perante estas saudades, que nalguns casos, quando desenterradas da camada subcutânea onde se suspenderam por mais de duas décadas, são poderosas, muitos respondem escondendo-se e fugindo. Poucos partilham. Poucos respondem. Poucos abraçam, muito menos abraçam forte.

Este é o primeiro sintoma da dor do tempo. Abraços que precisam de ser dados e não são.

O segundo sintoma, terrível, é o daquelas (poucas) pessoas que estão na nossa constituição química. Concluímos que, afinal, algumas delas fazem efectivamente parte de nós, sempre fizeram, sempre farão. E quando digo "parte de nós" não me refugio numa metáfora despida de sentido.
Quero dizer efectivamente "parte de nós". Da forma como ainda hoje sorrimos ou contamos piadas, olhamos ou escrevemos, beijamos ou fazemos amor.

Andei a tentar entender-me sem fugir para a frente. 
As pessoas que me doem, estas que me doem porque me lembrei delas e não posso revê-las, não podem morrer. Não podem morrer como não pode morrer o mais íntimo dos nossos. 

Às vezes, é alguém que não tem espaço para ocupar (no presente).
Uma paixão antiga, por exemplo, uma daquelas que nos alimentou em exclusivo durante muito tempo, anos, às vezes décadas. Pessoa passada que está dentro da presente, e que permanece parte de nós.
Espécie Matrioska emocional.
Quando somos felizes e amados no presente, a paixão antiga não pode ocupar esse espaço nem travestir-se de amizade comum.
Quando surpreendemos nela uma história de infelicidade (sentimos culpa por não a termos impedido) ou uma necessidade urgente de ajuda, a frustração é exponencial.

Chora-se de forma surda. Em hemorragia interna. Infinitamente.

Não há solução, nem é preciso que haja.


(Escrevi este post ao som de "O Vinho do teu corpo", dos portugueses Neruda, porque me apeteceu e porque ao ouvido é uma grande canção com uma grande letra, "Bebo o vinho do teu corpo,/ devagar como se a boca/ fosse uma flor onde o tempo/ desenha o mapa da vida." Estranhamente coerente.)