2009-03-14

Os olhos do bisavô


No dia 6 de Março de 2009 telefonei para a Livrairie Portugaise, em Paris, e fui atendido pelo fantástico Michel Chandeigne. Queria saber se o livro que a sua editora iria lançar no Salão do Livro de Paris na Segunda-feira seguinte, 9 de Março,incluía material sobre o escultor Alves de Sousa, meu bisavô (1884-1922). Ele verificou, e disse que não. Pedi para falar com a Agnés Pellerin ,a  autora, ou com a Anne Lima, que pelos visto concluiu o projecto após o abandono da primeira. Fui aconselhado a enviar um mail, o que fiz.

Pouco depois, contudo, acontecia a "revolução": Decidi que terminara a hora do meu amadorismo nesta questão, e que iniciaria uma investigação sobre o meu bisavô que eu queria a mais aprofundada de sempre (ia dizer definitiva, mas nada é definitivo, nem mesmo a morte).

Só ontem soube, em consulta à entrada que lhe é dedicada neste livro, que nesse mesmo dia fazia anos que o bisavô tinha falecido (6 de Março de 1922). Há coincidências espantosas na vida. Esta não será propriamente espantosa, como aliás a anterior. Essa nem sequer teve sentido neste contexto, mas a verdade é que a última vez que eu decidira dedicar-me mais a sério ao tema tinham acabado de cair as torres gémeas, o dia estava magnífico e eu descobria os topos da cidade, passeando calmamente pela baixa do Porto, passeio esse que inspiraria mais tarde uma passagem sobre o assunto (o da cidade não vista) no meu romance "A Longa Sepultura". Deslocava-me para a Biblioteca de Gaia em busca de uma cópia da monografia do padre Romero Vila (sobre o bisavô e os dois concursos mais conhecidos em que ele participou) com uma sensação de desconforto causada pelo que tinha acabado de ver: o ataque à segunda torre.

Gostava de fazer transpirar neste blogue pessoal o meu definitivo arrebatamento por este meu antepassado. Será possível gostar tanto assim de alguém que nos pre-existiu em quase meio século, e nem sequer estivemos perto de conhecer? É, certamente, e eu sou a prova.

E depois há uma história de amor pela qual nenhum historiador se interessará, e que eu quero contar: António Alves de Sousa e Victoire Germaine Lechartier:

"Victoire e a Imortalidade". O duplo sentido de "Victoire" e toda a extensão do conceito de Imortalidade e a sua ligação a Alves de Sousa. A paixão, a ansiedade, o pundonor.

A vida foi-lhe algo madrasta mas imortalizou-o. A imortalidade, contudo, dá trabalho, e nós, os descendentes, somos responsáveis por não esmorecer.

Estes olhos tristes, doces, fervilham-me no sangue e não me deixarão parar!

Não há forma de parar.

PS: finalmente há um site sobre ele na internet, que "alimento" há uns dias, mas já tem muito que entreter. Está ligado ao twitter, que segue a investigação passo a passo. C omecem aqui, pf:

http://escultoralvesdesousa.blogspot.com

2009-03-10

Os cafés em carne viva


Uso muito esta expressão. Em carne viva. É talvez a forma como gosto que o tempo e o espaço se desdobrem em mim. Voltei aos cafés no ano da graça de 2008. Tinha-me esquecido de como posso ser terrivelmente produtivo a salvo do mundo à mesa de um café. Fiz o curso entre as mesas do Mandarim (hoje McDonalds), na Praça da República, em Coimbra, e a Pastelaria dos Olivais, mais ou menos em frente ao edifício velho da Faculdade de Economia, na Dias da Silva, sem esquecer as minhas fugas para o Porto de Quinta a Segunda, para namorar e estudar no Aviz. Agora é a escrita. Este ano, como não me posso dar ao luxo de escrever à noite e é impossível no escritório, procuro a algumas horas improváveis o Paredão-Bar, em Canide, e o Palhota, em Francelos, recentemente renovados. Quando estes, por alguma razão, não estão disponíveis ao tempo que para eles reservei, perco-me. É aí que sinto como não é a simpatia (bem pelo contrário) ou a empatia que procuro nos cafés, mas o espaço adequado que se funde com a minha respiração. Se é demasiado invasivo, demasiado exposto, demasiado familiar, demasiado silencioso, não fico. Se é abandonado, minimalista, sombrio, e suficientemente barulhento, deixo-me pelos anos fora. Assim se vá fundindo um pedaço da pele com a geometria do espaço e os gestos tácitos dos empregados de mesa. Os meus cafés em carne viva.

As marés dos amigos de ontem


Tenho feito um assinalável esforço para reunir amigos que não vejo há 25 anos ou mais. Terei encontrado mais de vinte, e todas as conversas têm sido deliciosas. Nota-se uma grande alegria no reencontro. Há, no entanto, dois fenómenos a registar: a consciência da pouca importância que temos na vida de alguns que pensávamos do peito, o que não deixa de ser mais um desafio para que sejamos mais humildes nos passos em frente; e as marés. Apesar da festa do reencontro, o movimento natural das coisas leva-os de volta. Para mar alto.Confesso que, quando o pressinto, uma suave frustração toma conta de mim. Quem é feliz no presente encara estes momentos de nostalgia como puro prazer. Mas não é assim para todos. Há quem não queira ser tirado do lugar onde está por um minuto que seja, para um café que seja. Há quem não queira ser visto diferente, mesmo que esteja melhor do que há 25 anos. Há quem não queira descolar do ninho que conquistou para voltar a assumir o mesmo papel de antes. E então temos de concluir, pela primeira vez, que os perdemos para sempre. Sem drama (para lá do poder do sentimento que toma conta de nós). Não voltes ao lugar onde já foste feliz.

2009-03-04

O Souflé de Peixe

Ontem antingi o plano abstracto, filosoficamente falando, do marido perfeito. Não, não cozinho. Sei fazer coisas básicas (arroz, bifes, ovos, massa, saladas), mas mesmo assim não as fazia. A princesa (mulher) não gosta de interferências (isto é mesmo verdade) e afastava-me da cozinha. Eu próprio tinha dito às ruas sociais que funcionava de forma diferente, e que um dia desceria sobre mim a luz do Chef. Caramba, já sou eu que pago as contas, arrumo parte da casa (sou doméstico a tempo parcial, é verdade), sou pai a tempo e inteiro e quase omnipresente (não uso os benditos ATL's) advogo, escrevo, promovo toda a dinâmica familiar, e não há nada que não tenha feito ou dado à minha princesa (mulher), salvo seja. Por isso, o momento é trascendental. Sabia que, se tivesse dito um ou dois dias antes, a qualquer amigo ou familiar, que ia cozinhar e, pior, que ia fazer um prato pouco simples ("Souflé de Peixe") todos se tinham rido, apesar de conhecerem aqui o PG-M como o gajo que quer-faz. Não, nunca tinha feito molho bechamel, separado gemas de claras, batido claras em castelo, cozido peixe. Já tinha feito estrugido, mas ontem tinha de ser tudo perfeito, e o primeiro saiu-me mal. Quem acabou por fazer foi o meu filho de nove anos (que também migou o peixe e fez a sopa). Sempre vos digo que foi orgásmico. Quase nada falhou, deixei a cozinha a brilhar e a comida estava óptima - é verdade, devia ter usado um pirex mais alto e caprichado nas claras, para que o "crescimento" no forno fosse maior, mas esse é um pormenor que não afecta a minha ascenção cultural. Já está! Marido pefeito. Daqui para baixo, é sempre a descer:). PG-M

O Vento é do Mar


O Vento é do Mar

Os mortos da terra em gente à lareira queimando verdades de mantas equívocas

Os vivos da margem da espuma da praia sob a tempestade montam guarda à lenha

Que aquece e rebenta debaixo do lume

PG-M, 2009-03-04

2009-03-02

O RIO (do meu pequenito Gui, 9 anos)


Quando o meu filho de nove anos me mostrou este poema que escreveu assim, do nada, só dele, fiquei siderado. Eu sei, é meu filho, é suposto eu sentir-me assim. Mas escrever assim aos nove anos quer dizer tanta coisa. No meu orgulho desmedido, publico este poema, na certeza da solenidade do momento: é o primeiro texto que alguma vez o meu Gui teve publicado (a arrumação dos versos é dele):

O RIO

Nos teus olhos vejo um rio de

lágrimas que corre para uma solução

de água.

Na praia o mar não é o mar,

mas sim a tua íris azul.

A tua tristeza envolve pequenas

partículas de alegria.

O rio envolve tudo isto:

alegria, trisiteza, soluções,

e até um pouco de mar.

Guilherme Moreira, 2009-02-25