2009-02-28

Rachel getting married - What a movie!



Prometi a mim próprio que ia poupar nos superlativos e avisar que esta era uma opinião muito pessoal. Mas depois de passar as semanas cercado de telenovelas e noticiários cada vez mais vazios e insubstanciais, e mesmo que deles fuja, encontrar um filme destes faz vibrar todos os poros do corpo. Eu que nem sou nada de circuitos independentes ou alternativos, e até gosto de um bom "mainstream". Johnanttan Demme, aliás, é um artista do "quality mainstream" (lembrem-se de Filadélfia ou Silêncio dos Inocentes - ganhou o Óscar de melhor realizador por este último). Mas este filme não tem nada de mainstream. Para quem não viu "O Segredo do Cuscuz" porque resiste a tudo o que não fale inglês, tem aqui uma boa oportunidade de observar um trabalho de idêntica profundidade e dimensão, embora os tiques dos críticos de cinema exaltem o tunisino  Abdellatif Kechiche e se esqueçam de exaltar o americano Demme. Este filme é todo em carne viva, e vê-se de um trago. Emociona profundamente, e é bom sentir autenticidade nos dias que correm. É verdadeiro, muito verdadeiro, e confesso que me vi retratado naquela Kimmy, eu que nunca cheguei sequer perto de drogas, o que prova que a empatia não se dá necessariamente entre os que têm percursos idênticos. Não há um actor que seja menor, mas Anne Hathaway, pela qual eu não dava cinco tostões como actriz, surpreende brutalmente. Depois disto, tinha de ter votado nela para o Óscar de melhor actriz, e vou ficar a torcer por ela daqui para a frente - o que ela nos dá neste filme é impagável. Bom rever a grande Debra Winger e todos os outros. Pode ser o flme do ano. Lembro-me de poucos que me tenham tocado tanto, em termos técnicos e lúdicos. Viva o cinema.

2009-02-23

OSCARS 2009 - Encerramento



Esta foi, sem dúvida, a mais autêntica de todas as cerimónias a que assisti, numa clara recuperação do estilo clássico, deixando o brilho aos artistas e não apenas à plasticidade do espectáculo.
 
Foi também a mais barata de há uns anos a esta parte, o que mostra alguma sensibilidade aos tempos que correm.
 
Apesar de tudo o que é condenável na articialidade, a verdade é que são estes senhores que ainda nos alimentam os sonhos e nos amenizam o peso dos dias. Viva o cinema!
 
Como sabem, o esperado grande vencedor foi um filme arrasado pelos críticos de todo o mundo. Ainda bem. É mais indiano do que outra coisa qualquer, e ganhou 8 Óscares, coisa que já não se via há algum tempo:
 
Slumdog Millionaire.
 
O derrotado da noite foi O Estranho Caso de Benajmim Button, mas não deixa de ser um grande filme, que não devem perder.
 
O meu único desacerto nas previsões foi um momento histórico para o Japão: Óscar de melhor filme estrangeiro. Grande surpresa, aliás.
 
A Kate Winslet lá ganhou (ficou por premiar a grande composição de Angelina Jolie em Changeling), o Sean Penn também (meia surpresa, porque havia um grande favoritismo do Mickey Rourke; as suas maldades passadas, contudo, e até as declarações demasiado sinceras - disse que não ia perder o sono por causa do Óscares - levaram a estatueta para o grande desempenho de Sean Penn, que aliás deu um grande destaque, no final do seu discurso, ao "brother" Mickey);
 
Foi notável e superlativa a emoção que percorreu a sala, neste novo formato de actores e actrizes tecerem o elogio directo a um par, sem qualquer tipo de imagem, que não do próprio, a acompanhar.
 
Para os quatro prémios principais de actores, entraram cinco ex-vencedores, e cada um pronunciou-se sobre um dos nomeados.
 
Foi bom rever a "minha" Marion Cotillard dirigindo as suas palavras (num inglês muito melhorado) a Kate Winslet. E foi bom vê-la lado a lado com Penélope!

O cinema faz parte da minha respiração. Não posso dizer muito mais. A emoção também é minha. Ficam os vencedores da noite, e até para o ano. Sempre até para o ano.
 
PG-M
 
Best Motion Picture of the Year
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Christian Colson
Best Performance by an Actor in a Leading Role
Winner: Sean Penn for Milk (2008/I)
Best Performance by an Actress in a Leading Role
Winner: Kate Winslet for The Reader (2008)
Best Achievement in Directing
Winner: Danny Boyle for Slumdog Millionaire (2008)
Best Foreign Language Film of the Year
Winner: Okuribito (2008)(Japan)
Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Song
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - A.R. Rahman, Sampooran Singh Gulzar("Jai Ho")
Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Score
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - A.R. Rahman
Best Achievement in Editing
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Chris Dickens
Best Achievement in Sound
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Ian Tapp, Richard Pryke, Resul Pookutty
Best Achievement in Sound Editing
Winner: The Dark Knight (2008) - Richard King
Best Achievement in Visual Effects
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton, Craig Barron
Best Documentary, Short Subjects
Winner: Smile Pinki (2008) - Megan Mylan
Best Documentary, Features
Winner: Man on Wire (2008) - James Marsh, Simon Chinn
Best Performance by an Actor in a Supporting Role
Winner: Heath Ledger for The Dark Knight (2008)
Best Short Film, Live Action
Winner: Spielzeugland (2007) - Jochen Alexander Freydank
Best Achievement in Cinematography
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Anthony Dod Mantle
Best Achievement in Makeup
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Greg Cannom
Best Achievement in Costume Design
Winner: The Duchess (2008) - Michael O'Connor
Best Achievement in Art Direction
Winner: The Curious Case of Benjamin Button (2008) - Donald Graham Burt, Victor J. Zolfo
Best Short Film, Animated
Winner: Maison en petits cubes, La (2008) - Kunio Katô
Best Animated Feature Film of the Year
Winner: WALL·E (2008) - Andrew Stanton
Best Writing, Screenplay Based on Material Previously Produced or Published
Winner: Slumdog Millionaire (2008) - Simon Beaufoy
Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen
Winner: Milk (2008/I) - Dustin Lance Black
Best Performance by an Actress in a Supporting Role
Winner: Penélope Cruz for Vicky Cristina Barcelona (2008)

OSCARS 2009 - Abertura


Olá a todos. Como repórter oficial, só me falta estar em Los Angeles. Este não é o ano, mas há-de ser. Esta é a 24ª cerimónia seguida em directo, e estamos naquela meia-hora mais adorável da entrada na passadeira vermelha. Para quem gosta disto pelo glamour e não tem ilusões sobre o mérito. 
Depois desta nota de abertura, só voltarei no fim da noite, para deixar o registo dos vencedores. Até já, esperando Kate Winslet e Mickey Rourke, mas sabendo que a maior justiça seria Angelina Jolie e Sean Penn (ver entrada sobre o filme "Rachel getting married", em que mudarei de opinião). A Penélope Cruz é a primeira aposta ganha da noite: finalmente o Óscar de melhor actirz secundária, numa cerimónia que começa a melhor de muitos anos. Algo que se perde quando se vê isto apenas nos compactos. Posso mesmo apostar que vai ser a melhor das vinte e quatro. Mas isto sou eu a dizer. Boa Noite a todos!

2009-02-17

TENHO FOME


Tenho fome,
estou doente da clareza das
palavras,
e palavras
dou aos outros sem urgência, e eles
ficam leves ou pesados

de mim,
e eu devasso sem peso.
Tenho fome,

fico nervoso, sou pobre

inquieto

por não ter saldo ou cuidados,

afogo

na torrente dos meus textos

enganos


meio mundo neste fato
e gravatas neste espelho,
e moléstia neste corpo.
É cara
a decência,
É vaga
a dormência

do escritor que não pode ser mais nada
E tem fome.
Tenho fome,

mas dói-me a ponta dos dedos,
não acho 
a partilha deste choro.

Tenho fome
e não sei se vou comer,
paguem-me os livros com sopa,
ou os poemas com água,
os autógrafos com carne,

deixem morrer o elemento

aparente, deixem morrer

o vocábulo, não

o homem, não

de fome.


Pedro Guilherme-Moreira
2009-02-17
 

2009-02-14

Acorrentados d'escrita? Pinto Coelho e os testemunhos memoráveis

Começo por dizer que foi uma sessão a todos os títulos memorável. Mesmo pelo que ficou por dizer, e que vem a latejar nas nossas cabecinhas. Mas eu ia falar, lá mesmo, ao vivo, tinha de falar, e já não tive tempo. Ora, a sessão termina praticamente com um testemunho emocionado e tocante de Paulo Teixeira Pinto sobre o seu filho recentemente falecido. Ele pediu para os jornalistas não mencionarem a questão, alegando que o filho não era objecto literário. Pediu mal, porque não compete a ninguém decidir isso. Não queria, não falava em público. Falou, marcou, deixou uma mensagem produto de longas, profundas e dolorosas reflexões, deu a ganhar a todos. E a marca indelével que o seu testemunho deixou, sendo vida, é objecto literário. Mas, não sendo jornalista, vou respeitar pelo menos o teor do testemunho, não sem antes dizer que a sua figura nunca me tinha despertado grande simpatia ou consideração. Questões frívolas, se quiserem, estéticas, de figura. Este testemunho trouxe-me essa consideração. A frase "A vida não tem mistérios, a morte sim" fica marcada em quem o ouviu. Mas se ele não quer aqui o conteúdo, não se põe. Mas o que eu queria realmente era falar do Carlos Pinto Coelho. Ao microfone, dir-lhe-ia que tinha lá ido essencialmente por ele, que bem o merece. Na minha humilde opinião, portou-se mal em duas ou três ocasiões, sendo uma delas merecedora desta crónica, mas nenhuma ofuscou o seu extraodinário valor e a forma empolgante com que resumiu as intervenções. Empolgante e bela. A sua humildade permitir-lhe-á, espero, reconhecer alguns erros importantes que cometeu. Não me vou alongar na forma paternalista com que tratou um escritor idoso que disse que tinha de sair para o lançamento do próprio livro, nem a rejeição do tratamento por "você" com um brasileiro ao lado. Falo do momento triste em que uma menina ou senhora da audiência insta Paulo Texeira Pinto sobre a morte do filho. Atrapalhou-se. Ela falou claramente no contexto da mesa, porque a morte acompanhava as intervenções desde o início. Carlos Pinto Coelho não teve a sensibilidade de deixar a sua experiência actuar, e quis alinhar no drama do burburinho que vinha da assistência. Triste e ofensivo da liberdade que ele tanto preza. A menina ou senhora simplesmente queria saber que palavras tinha ele para a morte de um filho. Perfeitamente dentro do contexto do tema: "Estou farto de palavras" (de um poema de Nuno Júdice). Umas velhas (verdadeiras velhas) atrás de mim começaram a esbracejar para o Paulo Texeira Pinto não responder, pouco faltou para pôr a menina ou senhora fora da sala, e Pinto Coelho não queria dar a palavra a Texeira Pinto, não fosse ele querer mesmo responder! Viu-se bem que ele se sentiu bem ao expressar ali o seu sofrimento, algo de inimaginável e incomensurável. Viu-se que quis prestar essa homenagem ao seu menino. E nós precisamos de quem nos ajude a enfrentar a morte assim. Para viver melhor a vida. Mas também precisamos de liberdade, e Pinto Coelho devia saber disso (não, a liberdade da menina ou senhora não invadiu a liberdade de Teixeira Pinto, como aliás também se viu - ele não se sentiu acossado, não verberou a pergunta, não comentou a oportunidade;). Estive para me levantar e sair nas barbas de Carlos Pinto Coelho (não posso admitir que se destrate assim uma pessoa), mas não o fiz porque preferi ficar para lhe dizer isto. Ele ainda vai a tempo de perder todo esse paternalismo e ficar só com a sua notável paixão pelas coisas bonitas da vida. Preferi ter ficado porque ele merece este e muitos mais descontos. E assim acontece.

PS: Todos os oradores foram notáveis, mas é bom destacar também a forma como Rui Cardoso Martins cumpriu a emoção de todos os que são apaixonados por livros, honrando a memória da sua falecida mulher Tereza Coelho, editora notável, e enfrentando a morte e o luto. Claro que, se algum espectador lhe tivesse feito essa pergunta, vinha tempestade... foi ele, de frente, com coragem, sem dar azo a especulações e sem censurar a experiência que as pessoas levaram do seus testemunho!

2009-02-13

A maravilhosa Cate (e o maravilhoso Benjamim)


Tem-se discutido aqui muito Cinema. E este filme é o quê, senão um banho de cinema e, mais do que isso, de literatura? Eu, que lá entrei de pé atrás, pelas críticas tão discordantes, depois de um filme "literário" na semana passada, Revolutionary Road (outro para encher as medidas, embora este seja um "feel bad movie" e o "Benjamim" claramente um "feel good movie"), rendi-me aos primeiros minutos. Fotografia irrepreensível (estou a torcer pelo óscar para o Cláudio Miranda), onírica, quase três horas de deleite (dez minutos para empolgar as senhoras) e uma Cate Blanchett de encher as medidas, o que não espanta a quem a venera há muito. Não, nada de extraordinário na interpretação de Brad Pitt, que no entanto cumpre com competência, como bom actor que é. Mas a Cate. A Cate é fenomenal. Tem todo o brilho de uma actriz clássica e a sensualidade de uma do século XXI. A Cate! Esperem para vê-la dançar ballet com os quarenta anos que tem, parecendo dezoito. Valha a verdade: não é uma injustiçada. Ganhou um óscar e cinquenta e cinco troféus variados. Cinquenta e cinco! Mas merecia a nomeação este ano, que não teve. Um filme imperdível e de chorar por mais. Vão por mim, e vão depressa, que, se não for o vencedor dos Óscares, está de saída em poucas semanas. Tem uma média de 8.3 no www.imdb.com em 60.000 votos, o que é extraordinário. Votos de pessoas normais, como nós, não de críticos muitas vezes desligados da sua verdadeira função.

2009-02-06

Kate, Angelina, Katelina


Venha o diabo e escolha.

Bom, embora nada se compare, na minha escala de valores, à prestação pretérita da Marion Cotillard, que espero ter o prazer de rever na entrega do Óscar ao Mickey Rourke (não que eu deseje que ele ganhe), este ano tenho um dilema:

Gosto muito da Kate Winslet, vi-a em Revolutionary Road, e está fantástica. Ou "vai fantástica", como diziam com encanto os nossos avós. Mas com o excelente trabalho do Sam Mendes, até o afectado Leonardo está muito bom. Dizem que em The Reader, a Kate ainda está melhor. A Academia ingorou o Revolutionary, mas Kate ganhou o globo de ouro de melhor actriz secundária por este filme, o que é um logro, porque não há nada de seecundário neste papel. Deve ganhar o Óscar por The Reader.

Adiante. Sabem que eu quero secretamente ver a Kate a subir ao palco do Kodak Theatre, mas tenho de ser justo:

Há muito tempo que não via uma composição tão perfeita como a de Angelina Jolie em "A Troca". Ali está a contenção de uma Maria Callas a cantar a Ave Maria de Bach/Gounod. Sublime.

No entanto, a Academia é de compensações, o que até nem está mal, se querem que vos diga, isto pela pena de um maluco que segue religiosamente a cerimónia há 24 anos (nunca falhei uma directa, mesmo quando só dava na rádio:).

Se assim for, vou rejubilar com o Óscar para a Kate (uma grande actriz, com pouco glamour, como também é bom e orginal que seja, e que tem 6 nomeações para Óscar e ainda nenhuma vitória), mas tenho de aqui deixar escrito que se vai deixar de premiar aquela que é para mim, até ver, a composição deste século, juntamente com a do Daniel Day-Lewis em "Haverá Sangue".

Acabo como comecei: não toquem na Marion:)!

2009-02-05

E o terceiro já cá está - ERA 11 DE SETEMBRO, e eu saltei

Depois de ter falado tanto - provavelmente demais - sobre a minha chegada à edição, confesso que estou falho de palavras quanto a este teceiro livro. Está aí, pronto. Segue a história de quatro protagonistas e de cinco suicidas das torres gémeas, e noventa por cento da trama ocorre nos dias 11 e 12 de Setembro de 2001. O resto não se pode contar. É inspirado em casos reais, mas descola desse espartilho para buscar a essência do sofrimento e da natureza humana. Não é assim sempre? Para orientação, podem utilizar o www.portolegal.com . Obrigado e abraço do PG-M