2009-12-14

The moon in Tenesse in the moon

Tinha de escrever sobre duas peças de arte porque elas se complementaram, devidamente digeridas, dentro de mim.

Uma é sobre a memória e a sua essencialidade.
Outra é sobre a falta de memória e a sua essencialidade.
A primeira é o filme "MOON", de Duncan Jones , com a notável multi-actuação de Sam Rockwell, por quem poucos davam ate hoje cinco tostões que fosse.
A segunda é "Jardim Zoológico de Cristal", uma peça de Tenessee Williams, que o grupo "Ao Cabo Teatro" traz até nós, e como!


A primeira são noventa e tal minutos de fita densa, dura, que nos perfura.
Não o aconselho a todos. Só a quem quiser reflectir mesmo.
Se alguém vos disser que não importam as experiências de vida, o palpável, o empírico, mas que a memória é tudo aquilo de que somos feitos, ou seja, se um trauma, um filme, um processo psicológico, uma doença, a publicidade subliminar, as lavagens escolares ao cérebro, nos colocarem memórias, por falsas que sejam, no cérebro, isso é tudo o que importa...
...se alguém vos desse a escolher entre vinte anos em coma, vindo a ser felizes com memórias induzidas, e vinte anos acordados, mas vindo a ser infelizes por perder todas as memórias numa doença degenerativa, o que prefeririam?
A verdade é que "MOON" responde por nós, actua sobre nós como esses processos subliminares: saímos do filme cientes de que tudo o que somos são memórias, nada mais. Se fecharmos os olhos enquanto fazemos amor e um outro braço se intrometer sem que saibamos, se beijarmos esse braço, a mulher com quem estávamos ficará para sempre com esse sabor e essa textura. E, afinal, nenhuma das duas existirá.
Não importa o que se é, mas o que se lembra que se é.


A segunda são cerca de duas horas de excelência teatral, com a actriz Maria do Céu Ribeiro a destacar-se de um curto elenco, que lhe fica a dever pouco. A encenação do Nuno Cardoso, que me é tão familiar, o sublime cenário, tudo é adequado a uma experiência intensa, certamente inesquecível.
Mas aqui já me intrometo nessa mesma questão, a memória, porque aqui pressinto que se pede, se clama, pela ausência dela, estas pessoas banais com uma vida banal seriam mais felizes se se esquecessem, se não valorizassem tanto as linhas condutoras das suas vidas, se não marcassem de forma indelével cada momento doloroso.

Se a mãe, se o filho, se a filha, se o candidato, se esquecessem, seriam mais felizes.
É, pois, uma abordagem que vai para lá da denúncia da solidão na aparente comunhão social.

Ensina-nos a não viver manietando quem acorda connosco todos os dias, a não valorizar certos detalhes das nossas vidinhas sem uma visão do globo, e, em contraponto, a realçar o detalhe do belo, cada detalhe do belo, como valor universal.
E a peça aconselho a todos.
No calor da Churrasqueira do Heroísmo, ali a dois passos do Estúdio Zero, no Porto, onde consegui jantar como se estivesse em casa, no calor da antecâmara do palco, onde esperei deliciado com as pessoas que tinham vindo ao mesmo que eu...como se estivesse em casa, e sentado nas confortáveis cadeiras azuis do Estúdio Zero, estive sempre como se estivesse em casa, e Tenessee trespassou-me com as frases limpas que nos dão forma ao ser.
Na continuidade da arte, aqui de um filme e de uma peça de Teatro, não há rupturas, clivagens, mas a sabedoria do olhar interior, sabemos que não morremos estúpidos, parecemos mais nós e saímos mais de nós, parecemos mais de todos e saímos mais de todos,
somos afinal de tudo.
PS: o filme ainda anda nas salas, a peça ainda tem exibições para Sul:
Teatro Aveirense, 19/12;
Teatro Taborda (Lisboa), 6 a 16/01;
Teatro Municipal de Portimão (Portimão), 23/01;
Teatro das Figuras (Faro), 30/01

PS2: no cinema (televisão) nota, hoje, para o 38º aniversário de Natascha McElhone, a diva de Californication;

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