2009-11-15

Lobomago Sarantunes na intimidade

Não. Não conheço nehhuma Sara Antunes.
Para os mais estúpidos, Lobomago Sarantunes é um fusão não apostrofada do nome de dois escritores lusos (como gostam de dizer os brasileiros) residentes em Lanzaboa (não é preciso explicar esta, pois não?).


Confesso:

a minha pena tem galgado ondas melodramáticas de fazer chorar os paralelos das velhas ruas portuguesas, e eu estava convicto de que viria aqui escrever uma crónica épica que me exaltaria o ego e passaria simultaneamente a servir de apelo à paz interior de Lobomago Sarantunes.

Mas este nome fundido não me deixa espaço para tal.

Porque me faz rir.


Como eu não sou o Ricardo Araújo Pereira, embora tenha 1,93m (e eu aposto que ele não passa o metro e noventa e dois), como ele diz que tem, sei que não esperam que vos faça rir.

Seria de mau gosto.


Reflictamos:

costumamos ver Lobomago Sarantunes rir?

A sua parte esquerda sorri, a sua parte direita mostra os dentes ao Mário e à Judite em momentos de comunhão. Mas não ri.

O problema é que, antes de escrever este pobre contributo para a essência como a vejo, fiz um busca de textos recentes sobre o mesmo tema, e, excepto um que não é excepção (porque utiliza o calão para tentar parecer boçal e suave, mas acaba por tirar conclusões tristes), todos são iluminados, omniscientes e sentenciam.


Ora, a minha única hipótese de ser ouvido é assumir a minha burrice.

Não tenho qualquer cultura literária. Li Proust, Saramago, Tolstöi, Conrad, Lobo Antunes, Sándor Márai, Primo Levi, Dag Solstad, mas não tenho a mínima noção do que sejam, porque o que eu próprio sou não é suficiente para os arrumar em caixas lacradas.

A minha mulher diz que tenho sonhado alto e em fluxo alegórico de consciência, e que está preocupada comigo, incentivando-me a ler coisas mais leves, sobre vampiros, por exemplo.


Por isso, o meu único estímulo para escrever estas palavras é este:


Falar da intimidade de Lobomago Sarantunes.


Sou o primeiro escritor a falar de dois outros escritores lusos sem ser em conferências, encontros literários ou workshops, sem dever nada a político algum (sequer favores) e sem ter agenda.


Confesso, já que falamos disso, que gostava de organizar uma tertuliazita de escritores, mas estou a descobrir a forma de o fazer de forma autêntica e descomprometida numa aldeia de que nunca ninguém tenha ouvido falar.

Mas há uma condição primordial (minha):

que percebam que, na intimidade, nem Saramago nem Lobo Antunes estão particularmente preocupados com esta lenda urbana criada em torno deles pela baba mediática.


São suficientemente maduros e sábios - e falo dos homens e não dos escritores -, particularmente cientes da mortalidade e das coisas efectivamente importantes da vida para se não estimarem como seres humanos, ainda que não se respeitem como artistas.

Eu costumo olhar para os homens pelos olhos quem os ama.

Se não se acossa os solitários, muito menos se deve afrontar os amados.

Lobo Antunes por filhas e mulheres de sua vida, Saramago por Pilar.

Assim sendo, nenhuma frivolidade pode abalar rochas impermeabilizadas pela erosão do tempo e pela carícia das ondas que foram e vêm.


Ambos, obviamente, desprezam os palermas que tentam opiniar sobre o inopinável.


Consta que estes homens se desprezam e que nem vale a pena tocar-lhes na lapela com o carinho vigoroso dos velhos amigos (não por sê-lo, mas por sabê-lo), e dizer-lhes que há um país que os gerou e eles próprios vão gerando e os tem como as suas pernas direita e esquerda,
ou um insignificante escritor subterrâneo, moi même, os teve como mão direita e esquerda, e como já não usa pena mas teclas, e escreve com as duas mãos, sabe que Saramago está do lado esquerdo do teclado (só tem de ir buscar o eme com o dedo médio da mão direita), e Lobo Antunes do lado direito (só tem de ir buscar o á com o anelar, o tê com o indicador, o é e o esse com o dedo médio da mão esquerda),


sabe mas é irrelevante, o que importa é que começou a escrever com o fluxo de consciência de Lobo Antunes e as alegorias e frases limpas de Saramago, e se hoje parte temerário e temeroso para outras paragens, deve-lhes a unidade e a coerência que não se exibe sob holofotes nem se vende em lado nehum.


Lado nenhum, livro nenhum.

Já me disseram que eles de mim não querem saber, mas eu não acredito.

A sabedoria dos homens, não dos escritores, não o permite.


Como bandeiras de uma certa modernidade da nação, e como me parecia ridículo convidar o Cristiano Ronaldo para vir falar de literatura e da forma de voltar a olhar para quem escreve bem, e não só para quem vende bem, vou tentar:

Zé, António, de que forma poderemos dizer ao simplismo impresso que os homens não cabem nas folhas dos jornais nem nos ecrãs de televisão, e que os escritores não são barras de sabonete?


Subterrâneo,

1 comentário:

Cristina disse...

Olá Pedro,

Tive conhecimento ontem domingo, e antes que o evento passe...na próxima quinta feira, dia 26 de Novembro às 21h15, na Galeria DO PALÁCIO - Biblioteca Municipal Almeida Garrett, o jornalista José Rodrigues dos Santos vai falar sobre o seu novo livro com um padre católico- Anselmo Borges e Faranaz Keshavjee é socióloga e professora universitária, e investigadora de temas islâmicos.
Eu gosto muito do Padre Anselmo e do jornalista-escritor.
Uma semana feliz.
Cristina