2009-11-17

Alienados - os pais, os filhos e os filhos da puta

Quero dizer algumas coisas de forma muito rápida e quero dizê-lo com as letras todas.
Tratar de filhos de pais em crise não é para qualquer um.
E já nem sequer creio que seja questão de formação.
É, sim, de sensibilidade, ou, mais do que isso, de vocação.
A notável reportagem de Miriam Alves, Pais e Filhos afastados na Guerra do divórcio, com vídeo embebido ao centro deste post, sobre a Alienação parental, é um trabalho superior, não porque a repórter tenha cumprido o cânone do melhor jornalismo, mas porque actuou com sageza com todas as partes, soube perguntar, mas, principalmente, soube calar-se e ouvir, coisa tão rara, tão rara, mas tão rara na selva mediática, que praticamente já não existe.
É, afinal, tão simples perceber onde está o problema, e quem é o problema. Não são as crianças, isso é certo. Mas há sempre um filho da puta. Um elemento filho da puta, a bem dizer. Seja uma pessoa ou uma coisa. Seja um dos pais, ambos, ou a lei, que os obriga a tanta coisa mas não os obriga a ser mediados em paz.
A Miriam actuou com o que tem no coração. Eu, como advogado, actuo precisamente assim neste campo, e não há outra forma de trabalhar. A lei, aqui, deve ser relegada para os fundilhos. Quem a ostentar à cabeça, perde todas as partes. Perde tudo. Dá cabo de vidas, muitas vidas.
E, por mais que se faça, por mais que se trabalhe em prol da felicidade dos meninos e meninas (não me compete trabalhar pela felicidade dos pais, nem que sejam eles os meus clientes; eles que se tratem, como adultos que são; o meu cliente é sempre, apenas e só, a criança, e é ela que devo proteger, e enquanto ela estiver feliz e protegida, os pais, mesmo em crise, estão felizes e protegidos; não existe isso de proteger os interesses dos pais, "apesar" das crianças!!!), se um só dos elementos forenses do processo, seja o colega da outra parte, sejam os magistrados, não tiver essa capacidade e esse coração, o processo torna-se rapidamente uma papelada exasperante e insolúvel.
A Miriam fez-me chorar. Penso que é inevitável chorar quando se vê perante os nossos olhos aquilo que dizemos e por que lutamos há tantos anos. Foi também por isso que fiquei esmagado aqui ("O Troféu"). Não por ser um incorrigível lamechas, mas por causa da merda de certos princípios inabaláveis que não me deixam enriquecer como (quase) todos enriquecem neste país quando deitam a mão a profissões que lidam com o poder ou com a fragilidade do ser humano. Será a despropósito dizer que a máquina nazi se alimentou da mesma comida? Não é.
Pensam mesmo que o que se passa na regulação do poder paternal em Portugal é só mais um azar de um país remendado, pensam?
Não é. É das doenças graves que devora as fundações deste país.
Que ninguém seja capaz de a ver com a importância que tem, é assustador.
(continua abaixo do vídeo)

Reportagem de Miram Alves, Pais e Filhos Afastados na Guerra do Divórcio (43 minutos)
(continuação)
Direito Preventivo é qualquer coisa de nova em Portugal. Os profissionais do foro pensam que sabem o que é, mas nunca houve verdadeiros contributos para os fundamentos teóricos desta "ciência" (chamar-lhe "advocacia preventiva" é, não só redutor, como é não saber o que se está a dizer), e esses contributos são tão miseráveis que este pobre "paper" ("Sucesso na Horizontal") que escrevi passa por ser do pouco, quase nada, que se encontra em português.
Mas se Direito preventivo é uma coisa nova, Direito Preventivo da Família, então, é alienígena.
As pessoas sabem que, como advogado, a única área em que nunca quis intervir foi o divórcio litigioso, precisamente por considerar que o comportamento de todas as partes processuais excedia, em regra, o razoável, e arrastava-nos a todos para um lama kafkiana que a anestesia da rotina obnubilava.
Ora, recentemente, chocado como estava com o facilitismo das leis do divórcio (falo do "mútuo consentimento"), em prol de uma liberdade irresponsável tão em voga na nossa sociedade, deixei de os fazer assim, em dois dias (sem filhos), ou num mês (com).
Passei a implementar os ensinamentos de uma vida a compor e a mediar, a ensinar estagiários que o advogado se deve afastar do Tribunal, porque não é o seu meio natural, e porque no tribunal tem de lidar com tantos factores externos e imprevisíveis que garantir o que quer que seja ao seu cliente é um exercício desaconselhável de adivinhação.
Passei a ganhar muito menos dinheiro, mas a taxa de sucesso é brutal, e quando falo de sucesso falo, numa primeira fase, dos divórcios que não avançam, e, numa segunda fase, dos que avançam em paz.
A cultura e o poder em Portugal estão cheios de gente gorda (de vaidade e egocentrismo) e obtusa (definição de obtuso: o iluminado sem humildade), e, como vejo por conhecidos meus que agora andam na linha da frente, engole ou afasta os melhores, porque esses, os melhores, acabam por concordar que, para implementar o seu brilhantismo nos meios políticos, têm de jogar pelas regras vigentes.
O problema é que depois se esquecem, e desabafam que é tarde demais, e afinal até estão tão bem.
O índice do sucesso em Portugal ainda é a luz artficial, não a decência.
Estamos cheios de alienados.
(que fazem tudo para que sejamos nós, os que os apontamos a dedo, os doidos varridos;)
Créditos Fotograficos aqui

2 comentários:

jaime roriz disse...

Dr Pedro Moreira, Muito obrigado pelas palavras que escreveu.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, caro Jaime. Nuca podemos esmorecer por fazer o bem:). Grande abraço, Pedro (o doutor tem de cair:)