2009-10-27

Praia Nocturna

Enquanto ainda me deixam usar o cê em nocturna, é urgente este aviso:
se entrares numa praia à noite, olha fixamente o vazio negro onde calculas que possa estar o resto da areia, e situa-te ouvindo o mar. Começa a caminhar, se possível a correr, pelo meio da praia. Agora volta a cara para o mar. Não vai demorar muito até que a visão se habitue e as ondas se tornem prateadas, depois quase brancas, e o marulho uma espécie de canção dolente. Não esqueças o céu, que sem poluição luminosa e em noite boa tem mais estrelas do que todos os teus céus passados, nem o que fica para trás, cuja observação dá outro fulgor à tua progressão cega.
Na manhã seguinte, a praia de inverno que atravessaste de noite vai parecer outro lugar, nesse dia de maré cheia em que as ondas te vão empurrar para as dunas, que é a forma de o mar dizer que agora nada daquilo é teu, vais pensar que quem está certo são os físicos quânticos, quando ameaçam provar-te que o mesmo lugar são dois e a mesma pessoa muitas.
Até lá, ou lês Freud, ou fazes de conta, ou vais a uma praia nocturna.

Créditos fotográficos: não foi possível apurar, mas publicar-se-á mal se saiba o autor. Foto colhida neste site.

2 comentários:

Paulo Lopes disse...

Essa luminosidade do mar (ondas prateadas, quase brancas...), não está lá sempre mas existe mesmo, é até palpável se nos dermos ao trabalho de nos enfiarmos na água. Esta ideia não acompanha o sentido poético do texto mas, sem o contradizer, é um complemento de carácter científico não escamoteável.

Escrita muito agradável, hei-de voltar com mais tempo para ler o resto.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Paulo. Acompanha, claro que acompanha, até o melhora, tirando alguma doçura ao sentido poético, que às vezes o torna enjoativo. Não será dos meus melhores textos, mas senti necessidade de deixar o momento registado. Mais uma vez, obrigado pelo seu cuidado.