2009-10-23

Poetic C.S.I. (on the beach)

Cada madrugada que me fica pelas costas, cada aguaceiro que passa, me aparece claro na alma o privilégio (não que tenho, mas) que conquisto quando calço as sapatilhas e visto o impermeável às oito e meia da manhã, e, sob qualquer temperatura ou fenómeno atmosférico, entro na praia para correr.

Corro há muitos anos e há muitos quilos, são por isso milhares de quilómetros sobre as dunas, nos passadiços de madeira de Gaia (Aguda, Miramar, Valadares, Madalena, Salgueiros, Lavadores), mas confesso que sempre o fiz por seguro de saúde, porque sei que, enquanto o faço, raras são as más disposições. Mas nunca tive grande prazer em correr.

Até agora.

Correr dentro da praia, na areia, em cima do mar, é toda uma outra experiência. E uma lição de humildade, para quem acha, em todos os campos da vida e do próprio conhecimento, que basta passar uma tangente às coisas para as conhecer. Pois eu passava ao largo, ali em cima, nas dunas, a vinte metros, e não tinha a mínima noção do que isto era.

Agora o entorno natural esmaga-me, ao ponto de não se sentir solidão, mas, pelo contrário, respeito e comunhão, pelo que todos os dias tiro os auscultadores dos ouvidos para deixar que o mar me ruja de peito aberto. Chamem-me louco, mas não raro abro os braços e eu próprio grito de prazer, como se voasse, o que, com as rajadas de norte nos dias bonsl, e com as tempestades anunciadas ou confirmadas nos dias maus, não é difícil (já não é novidade que do Outono à Primavera corro a cantar, e bem alto, porque ando quase sempre sozinho, e no Verão só modero o tom:).

Com as piores marés, nestes dias bravos de Outono, o mar cobre a praia de noite, chega a galgar as dunas, e estas praias são largas, amplas. Dificulta-me a corrida, mas deixa-me uma folha em branco que me permite perceber tudo o que se passou nas últimas horas.

Sei agora que os tractores da câmara só passam duas vezes por semana para limpar o lixo (no Verão andam sempre cá e lá, das oito da manhã às oito da noite), e deixam muito dele, que forma a linha que me diz até onde veio a maré. Às vezes assusto-me. Corro pior, porque a força do mar deixa a praia inclinada, enquanto no Verão as pessoas, os tractores e as marés pequenas, tornam a secção mais alta, junto às dunas, mais plana, mais fácil de cruzar.

Quase todos os dias, sei que sou o primeiro a passar nas praias, ainda vejo as minhas pegadas na volta, noutros dias percebo que alguém rasgou as areias bem cedo, sei quando é homem ou mulher, e agora também sigo as pegadas dos cães que batem quilómetros de praia à procura de comida, são sempre dois ou três, e passam por mim quase sempre no mesmo lugar. Deixam-me desconfortável estes bichos. As gaivotas e as pombas são muito mais destemidas nesta altura, não se afastam facilmente à minha passagem, como se considerassem que em dia de tempestade a praia é delas. Não temos de nos afastar para lado nenhum. Começo a perceber que entre as gaivotas há líderes com uma compleição assutadora, grandes, grandes, sempre as últimas a levantar vôo quando passo. As gaivotas mudam de sítio. As pombas fazem um círculo e voltam a pousar atrás de mim. O pescador que em Setembro está todos os dias no mesmo lugar, só vem uma a duas vezes por semana no Outono invernal. Os velhos que conferenciam ao cimo das escadas de uma praia, os velhos que jogam cartas sobre os bancos de outra, os velhos que se sentam reguardados sob um canavial, os velhos nem sempre vêm.

Nos passadiços anda sempre gente - só no Inverno se chega a ver ninguém -, e é bom, mas na praia só o que vos digo.

Andar dentro da praia fora do Verão é tão perturbante quanto gratificante. E ver como a natureza se impõe, como a natureza avança e reconquista os espaços que as pessoas lhe roubaram durante três meses, impressiona e faz-nos humildes e agradecidos por, ainda assim, termos consentimento. Há algo de primordial, difícil de explicar.

O mar estende-se com mais vigor areia dentro. É imprevisível. Já ando a fazer cálculos para que no Inverno uma onda mais matreira não me apanhe. É bom molhar as saptilhas na espuma na parte final da corrida, mas só o faço em dias de maré meiga.

Um destes dias um pôr-do-sol fez-me tombar, deitou-me ao chão.

(interrompo agora...continua vida fora...)

Crédito fotográficos: Super Stock

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