2009-10-11

Lobo Antunes no meu Supermercado

Pensei escrever esta "crónica" aborrecido, ressentido, com o António.

A maldade de uma crítica, que li ontem, teve o efeito contrário em mim: tenho dito que a inteligência, quando não é temperada por um mínimo de bondade, prescreve.


Acredito nisso.


O António é muitas vezes um desarmante lúcido que me obriga a fazer uma coisa que detesto. Citar. Cito-o porque ele diz: "Temos de escrever contra os melhores.", e eu penso que é mesmo isso.

Cito-o porque ele diz que a modéstia é inútil, mas a humildade não, e eu nunca me senti modesto, creio até que a modéstia, para ser uma qualidade humana, tem de ser invisível, porque quando se vê é mentira, e, sim, inútil, defeito.


Mas também o cito por razões menos boas.

Antes de as referir, contudo, quero dizer-vos que o que eu reclamo é o António de volta à doçura, a doçura que ele levou às entrevistas com o Mário Crespo, com a Judite de Sousa, com a Ana Sousa Dias, a doçura que ele tem quando nos trata pelo nome próprio, quando fala da essência das coisas e não das coisas da essência.

As pessoas são parte da essência, não se podem destacar da arte.

António, não podes pensar que resolveste os enigmas da escrita.

Não te podes guindar tanto.
Não acabou para ti, claro que não acabou para ti.

E se há cavalos que fazem sombra no mar, casas caladas às três da tarde, dor a vaguear pelos quartos, enquanto existes escreves.

Quando estavas no hospital e vieste correr nu perante o mundo nas páginas da Visão, eu pedi-te para saíres da luz. António, sai da luz.


Passaram quase três anos, e é nas páginas da Visão que te encontro de novo, mas menos do que esperava.


Tens mais sorrisos, mais estantes e sítios e composições, mas estás menos tu, menos doce.


Vou contrariar-te, pois.


Sempre disseste que as tuas crónicas não eram literatura.


Mas são. São muita literatura.

Dizes amiúde que os livros têm de estar cheios de silêncios.

Talvez tenhas alguma razão. Mas os livros também são barulho.

Estão cheios de gritos, António.


Dizes que os teus livros não são de supermercado, mas são, António. Estão lá, junto dos outros. Como tu estás, junto dos outros. Olha a fotografia transparente que te junto, acima.


Sabes que disparate tenho dito?


Que não há génios na literatura. Que a honestidade intelectual nos deve levar a tocar em todos os livros. Que o corpo da escrita não se revela ou desnuda antes da capa.

Dizes que os teus leitores não lêem imprensa frívola. Mas lêem, António.

Dizes que não ligas aos críticos. Mas ligas, António.

Eles e os leitores dos outros estão aqui, os teus críticos são homens com sentimentos e com gostos, às vezes precisam de te combater por seres grande, é verdade, mas às vezes combatem-te porque eles é que são humildes, e tu não.


Não digas que não conheces pessoas, António.

Conheces toda a gente, António.

Eles estão no meio de ti.

Deves aceitar pacificamente que muitos dos leitores que compram os teus livros não são capazes de os ler. Que, ao não baixares a intensidade da luz que os alumia, podes perder alguma sombra, alguma frescura, algum silêncio.


Disseste que tinhas chegado ao mesmo tempo que o Saramago.

Aí percebo-te.


Porque a publicação é um acidente da escrita, e não foi no fim dos anos setenta que chegaste, foi muito antes, compulsivo, por Benfica, a destruir os teus próprios poemas.

A literatura sempre cá esteve, já cá estava quando nós lhe chegámos, os nossos livros sempre cá estiveram, já cá estavam quando o mundo lhes chegou.

Por falar nisso, quando é que vocês, tu e o Saramago, se abraçam, caramba?

Que birra de miúdos é essa, António?

Achas que é possível medir o tamanho de cada um? Não é.


Tu não és maior do que ele, António, ele não é maior do que tu.

Não sabes que, se continuas assim até ao fim, ou até ao princípio, ergues muralhas entre os que seguem ambos com o coração? Os que vos dão o pão a comer?

Quando é que deixamos de ter trincheiras , quando é que deixamos de marchar em colunas concorrentes, pequenos ódios multiplicados muitas vezes por cada lado?

A inteligência, quando não é temperada de bondade,


prescreve, António.

Escrevo-te isto porque sou pequenino e não quero ser grande, António.


E cá de baixo avisto o espectro térmico dos grandes, e deixo de perceber o frio.


Ninguém é a rocha de gelo, ninguém é ilha de ventos, ninguém é Deus nem deus.


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