2009-10-04

Filipe (todo o)


Quando eu tinha dez anos, assustei-me.
Um colega de turma caiu ao chão e a professora afastou os meninos.
Não percebi completamente o que se tinha passado, mas ele próprio nos explicou o que era ser epiléptico, é assim como eu ter um curto-circuito no cérebro,

e se não tomas os medicamentos, cais ao chão, a espumar, a morder, a língua enrola para dentro, explicou mais tarde a mãe, que foi à minha turma num dia em que caiu granizo.

Só deixei de me assustar quando, ao longo dos anos, fui eu e os meus colegas a afastar os professores e a tratar do amigo, agarrar-lhe as mãos, meter os nossos dedos na boca dele, limpar-lhe a baba, acalmá-lo.

Ontem tinha-me queixado do meu dedo mindinho. Talvez precise de gelo.

Hoje conheci o Filipe, que tem nove anos, e não tem ataques frequentes.
Tem epilespsia em permanência, sem descanso.
Toma nove comprimidos por dia.
Nunca tinha conhecido um menino assim.
Era muito bonito e tentava comunicar.
Os pais têm um restaurante onde costumo ir comer, e deixam o Filipe com uma tia, mas a tia viajou.

O Filipe estava sentado no chão desde as sete da manhã (eram dez da noite), a gemer, a dizer coisas , a sorrir, com um olhar límpido e azul, e o pai também, e a mãe também.

O Filipe olhou-me na sua forma de olhar, clara mas dolorosa, aprisionada na linguagem e no gesto, e começou a cantar vogais sucessivas,

Obrigado, a Sílvia trabalha cá, a Lena já foi embora, a Lena trabalhava cá, agora é a Sílvia que trabalha cá, traduziu o pai, que é dono do Restaurante, e a mãe, que é a cozinheira, explicou que o Estado, além de abandonar muitos pais que não tiveram a sorte de ter filhos sãos como nós, faz-se de difícil quando se trata de providenciar um acompanhamento especializado para o Filipe, na escola onde está.

O Filipe está permanentemente em curto-circuito. Uma bateria de medicamentos tomados pela manhã livra-o dos ataques e traz-lhe serenidade e traz-lhe obesidade.
Os pais olham-no com orgulho, mas olham-me com tristeza, como se pedissem desculpa.

Ele está a mexer nas brocas, eu dou-lhe um "passou bem?", ele diz aiá ú, o pai traduz por "obrigado", apresento-lhe o meu filho, o Filipe fica embaraçado - se ao menos ele entrasse dentro.

Eu ontem estava preocupado com o meu dedo mindinho.

Hoje sou o Filipe todo, fecho as recordações, a vida segue, o Filipe vai acabar por perder, a vida ficou lá atrás, caída.

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