2009-10-18

Eu na Escritaria e a Escritaria em mim


Imaginem-se a percorrer uma rua de pedras lisas clareadas pelo sol de outono, brisa alguma e vinte e três graus a meio, e a cada passo, num lancil, numa montra, numa esplanada, 
na desembocadura de uma praça, num jardim, dentro do museu, dentro da praceta, palavras, muitas palavras escritas, e Saramago escreve-as bem, com beleza e subtileza, ainda que sem certeza de alguns de nós, o que importa é a arte e o percurso e os milhares de páginas cinzeladas, as mais bonitas em cubos aos nossos pés, no chão, nas paredes.
Estive lá hoje. Magnífico. Não há qualquer metáfora aqui. 
Entrei dentro do Museu Municipal de Penafiel, vi a força e o amor de uma mulher sugestivamente chamada Pilar del Rio, trouxe risos, cores castelhanas, trouxe palmas e deixou entrar a figura do centro, pouco cabelo, límpido, delicado, brutal, digno, eu quero lá saber se nem tudo é do meu acordo (algo na vida o é?), se nem todas as palavras me inquietam (podemos descansar os olhos nas planícies), eu já o tinha visto com o meu polegar a deixar cair páginas em livrarias, no meu sofá, mas hoje tive a certeza:
Zé Saramago é um escritor de enorme estatura, escreve bem e ainda emociona mais escrito na rua, no chão, no labirinto, civitas, são parágrafos de molde e moldes da alma.
Ao falar pausadamente com o seu modo de cantar cada vez mais doce, encanta.
Ele foi espalhado por Penafiel, eu fui devorado pela Escritaria.
Fica-se profundamente agradecido a quem concebe e executa momentos destes.
Penafiel dentro, mundo fora.

2 comentários:

António disse...

Obrigado.

António

(Aquele que concebeu este momento (e organizou a maior parte dele))

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado eu, António. A ver se por lá pareço de novo este ano. E um dia hei-de lá ir noutra veste, vai ver:).