2009-10-25

3 livros, 3 opostos, 3 obras-primas sobre a condição humana


Sándor Márai, com "As Velas Ardem até ao fim", na brilhante tradução do húngaro de Mária Magdolna Demeter, reconciliou-me com a leitura da grande literatura, e fê-lo quando eu tive os pés na areia e o azul do mar no fundo do olhar durante os habituais quinze dias de férias de praia em Armação de Pêra, os tais em que eu entro em transe de escrita e estou particularmente disponível para ler os que são muito melhores do que eu.

Procuro, cada vez mais, o osso da página, a frase depurada percorrida por um suave, quase imperceptível, perfume de poesia.
"As Velas (...)" são só dois amigos e a condição humana. Tem uma violência aveludada.
Mas é tão violento quanto delicioso. Um obra-prima não absoluta. Um exemplo maior de ficção.

Chil Rajchman escreveu um caderno sofrido, sobre o qual sangrou todo o sofrimento acumulado.
Dir-se-ia que não tinha escrito um livro.
Mas à medida que avançamos na leitura de "Sou o Último Judeu" (Edição Teorema de Outubro de 2009, Tradução de Telma Costa), que relata a experiência de sete meses no campo de extermínio de Treblinka (eu ia dizer breve experiência, mas não teve nada de breve, tendo em conta que o autor quase nada comeu ou bebeu nesses sete meses, dormiu no chão, terá tomado meia-dúzia de banhos, sendo que o seu trabalho, das cinco da manhã às seis da tarde, era o mais sujo, física e psicologicamente, que é possível imaginar, cortar cabelo a mulheres nuas desesperadas, à entrada das câmaras de gás, transportar milhares de cadáveres e arrancar-lhes dentes de metal, permanentemente seviciado por chicotes e pancada dos guardas ucranianos e SS, enquanto ia vendo os seus colegas de "trabalho" ser indiscriminadamente mortos por tiros de pistola - bastava um momento de fraqueza -, e sendo obrigado a encarar com naturalidade que todos os dias aparecessem enforcados, no barracão onde mal dormia, pelo menos três - muitas vezes cinco, sete, dez - companheiros de infortúnio), o lugar onde ocorreu o maior massacre da história da humanidade - perto de um milhão de inocentes massacrados em apenas treze meses, o que dá uma média de 60.000 por mês, 2.000 por dia! Fica-se, pois, com uma ideia do que era preciso fazer para assassinar, não uma ou vinte, mas duas mil pessoas num dia, entre homens, mulheres e crianças. Uma média. Porque dias havia que eram mortas quinze mil pessoas em escassas horas e metros quadrados, e numa espécie de linha de produção tenebrosa. Como Rajchman, judeu polaco nascido em Lodz, e mais tarde cidadão uruguaio, apenas mais 56 pessoas sobreviveram. Este relato é uma obra-prima porque não se limita a relatar. Tem uma adejctivação mínima, uma secura tremenda, mas nunca abandona um estranho equilíbrio estético que nos esmaga. E é possível reconhecer aqui, provavelmente, da mais depurada literatura que alguma vez lemos. Obra-prima não absoluta, mas narrativa maior.

Finalmente, Primo Levi, "Se isto é um homem", muitíssimo bem traduzido por Simonetta Cabrita Neto, na versão que possuo há já alguns anos.
Pura luz, algo nunca visto por este vosso humilde servo até ao dia presente.
Escrito de forma sublime em 1945, uma ano depois da libertação dos campos de Auschwitz, nos quais se situa a acção, faz-se acompanhar de uma lucidez perturbante, de uma análise subtil, mesmo filosófica, do fenómeno do extermínio, dos limites da condição humana (uma vez mais). Páginas que nos respondem a muitos porquês que pensávamos retóricos.
Uma obra-prima absoluta.

Três livros de leitura imprescindível para quem quer dar passos adiante.
E por esta ordem de importância:
Se isto é um homem.
Sou o último Judeu.
As Velas ardem até ao fim.

Um garantia: serão pessoas diferentes, para melhor, depois da leitura destes livros, tal a marca indelével que nos deixam sobre a pele.

Mas é preciso coragem.


Crédito fotográficos: Wook

1 comentário:

sonyate disse...

Olá: Quando percorria o olhar pela tua descrição/interpretação destas três obras... olhei para as capas dos livros e para os seus títulos. Fixei-me no último... comecei a ler... finalmente debrucei-me sobre a última obra e pensei enquanto lia.. é esta, é esta que irei escolher, mal sabia eu que a tua sugestão para primeira leitura era mesmo essa...:))) O sexto sentido existe...