2009-09-20

Yes, We CARE


É importante escrever isto na tensão crescente do Magnólia, a passar às 2:49h do dia 20 de Setembro de 2009 na Dois, ainda só está a chover torrencialmente. Água, ainda só está a chover água, o miúdo do concurso acaba de fugir, a edição está intensa, revisitamos todos os que desfilaram até aqui, depressa, cada vez mais depressa, ainda só água

o Miguel Sousa Tavares atacou as redes sociais que medram na internet e de que muitos de nós fazem parte, disse que era o grande mal da humanidade, e eu já reflectindo sobre o mundo mudando pela rede global há quase quinze anos, estive lá, sim, fui praticamente pioneiro, e sei que o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou mais inteligentes do que ele que se sentem tapadas pela vacuidade da televisão, agora até dos jornais e da rádio, e afinal podem colher o mundo através dos seus pares nestes "lugares", o Miguel disse isso porque se esqueceu de que há pessoas tão ou menos inteligentes do que ele que se servem disto para combater a solidão, para não ficarem expostas às suas cabeças, aqui tenho testemunhas, pensam, aqui faço testes que me dizem o que sou e para onde vou, aqui sou ridícula, sim, mas não mais do que lá fora, onde o silêncio me persegue como uma sombra.

Procuramos quem se importe connosco.
O Miguel tem razão.
Os nosso "amigos" estão lá, e a maioria não se importa verdadeiramente.
Ego, Eu, importo-me, sim, e sou resto apenas com quem também se importa.
Leio livros, cada vez mais livros, onde pelo menos o autor se importa consigo próprio.
Faço mal?
Serão os livros, esses objectos indecentes que isolam as pessoas em momentos, longos momentos, infinitos momentos que excluem absolutamente todos os outros, serão os livros o grande mal da humanidade há centenas de anos? Com livros alguém te toca? Alguém te olha, se não interromper a leitura? O narcisismo de se aculturar?
Os livros que o Miguel vendeu na casa milhão a gente que passou o tempo sem tocar ou olhar o próximo?
E o Miguel, quererá realmente tocar e olhar alguém para lá do pequeno quarto do seu ego e do anexo dos que ama e do outro anexo dos que o amam?

Ainda chove só água.
A música de fundo parou, mas nós sentimos o desenlace próximo na coreografia dos corpos e no tom da luz.

(um momento...a música...a música é poderosa...os personagens do filme cantam sucessivamente o "Wise Up", da Aimee Mann, tremendo momento, tremenda esta nossa vida, ainda só chove água...diz a Aimee, em tradução livre, "a dor não vai parar até despertares...por isso, desiste!". Give up. Supostamente não vamos despertar. Depende de quem? Depende de quem, despertar?)
A chuva parou.
Claro que não.
Guardemos a liberdade.
Há oportunidade e oportunismo, ninguém te dá colo, ninguém te pega, ninguém te paga,

ninguém se importa.

Dentro ou fora do Facebook, se sorris em demasia, se te importas em demasia, és louco, falta-te o equilíbrio essencial.
Fazes do teu mural uma festa, mostras-te aos outros cheio de falsas luzes, com o corpo à sombra.

Ninguém se importa.
Ninguém se esforça por compreender.

E no meio das palavras bonitas, dos vídeos embutidos, das músicas partilhadas, dos poemas, dos textos, dos links, tu sabes que procuras quem se importe, e vais evoluir pensando que podes abanar a árvore dos fundamentos e colher um, dois amigos, nenhum.

E eu estou cá, Miguel, para ler palavras com coisas dentro, não calculadas em função das audiências, vi quem soltasse a parede, é um sorriso, um justo sorriso, mas está vazio, o nosso Porto perdeu, e claro que sou mais por dentro, muito mais por dentro quando perco, a natureza humana não depende de nada disto, Miguel, começaram a chover os sapos no Magnólia, está na hora de encerrar aqui,

a (boa) natureza humana depende de enfrentares tudo e todos por dois ou três princípios simples, porque se não abdicas da liberdade sabes temperar as fraquezas da bondade.

Hoje um grande amigo vive o luto mais destruidor que a alma pode conceber, a morte de um filho, eu importo-me e não estou junto dele, ele usou o facebook para gritar a sua dor, pediu que ninguém lhe ligasse, os "amigos" desfiaram palavras de conforto que ele lerá mais tarde e que lhe exponenciarão e aquecerão as lágrimas, sim, e eu a este verdadeiro amigo disse-lhe muito pouco, toquei-o, abracei-o, mais nada, não sei já se o toquei no casaco, na pele ou em lado nenhum, nem sei se as palavras foram ditas entre o caixão pequenino do bebé e o fato preto, ou se, como ele certamente preferiria, as escrevi num papel que lhe pus num bolso, num email ou num mural.

No fim de tudo, tens apenas de te importar, tens de perceber que se importam contigo.

São agora 3:50h.
Acabou a obra prima do Paul Thomas Anderson.
Com a música "Save me", da Aimee Mann, claro.
Conheces?

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos fotográficos: Reuters

1 comentário:

belinha disse...

Olá Pedro!Também tem um blogue!Vim ver!Obrigado pelo add no Facebook!Gostei de ler este post.É muito honesto,escreve o que sente.Esse filme é bom,já vi há muito tempo.Antes desse,na TV,creio que passou Sideways,igualmente bom.Lembro-me de pensar que era uma noitada de cinema em cheio!