2009-09-26

Vou escrever àquela menina que vai morrer...


... mas não hoje, porque há perspectivas impossíveis, questões que transcendem a filosofia, o próprio pensamento, posições corporais e palavras que nunca são competentes perante uma criança em estado terminal.

Vi isso, hoje mesmo, no cinema, quando os familiares da menina, à boca do seu estertor, dizem banalidades que fazem os espectadores encolher os ombros, mas que ela, precisada de camuflar a sua partida com um comprimento aparente, uma medida maior para a vida, que supera a própria esperança, se quedou sentada entre os lençóis, com um sorriso feliz, repetindo "Thank You", "Thank You", "Thank You".

Morreria nessa mesma noite, dando colo à própria mãe, esgotada de não a deixar partir.

"My Sister's Keeper", em português "Para a minha irmã", é um filme brutal em que não pode importar a intenção do realizador Cassavetes (de nos fazer chorar copiosamente), muito menos as palavras de um crítico de cinema que o toma como mero objecto artístico (dizendo, por exemplo, que se trata de mais um melodrama sem originalidade - coisa pouco necessária neste caso).
Abigail Breslin está uma mulherzinha de 13 anos, a chegar ao fim do paradigma "child actor", nunca deixou de ser uma pequena actriz dotada, contida, rara, Cameron Diaz confirma a sua maturidade, mas quem enche o ecran, mesmo que o filme não a atire para a frente com despudor, é a própria doente, no filme com quinze anos, na vida real com pouco mais, Sofia Vassilieva, no tal papel que Dakota Fanning não quis fazer.

De facto, há um ritmo literário a embalar as violentas imagens do sofrimento, uma cadência que nos faz olhar para dentro das questões que nos são levantadas, aliás a intenção não é fazer pensar, porque tudo é dito desde o primeiro minuto.
É fazer sentir. So what?

Não há exageros, procura-se realismo, e o "cliché" quer dizer apenas vida, vidas, vidas normais que são abaladas por fazerem de uma menina com leucemia o seu ponto fixo.
Chora-se muito, mas não se chora porque o realizador quer que se chore. Chora-se porque se tem a perfeita noção da bênção que é não estar ali - um choro copioso, soluçado, um choro fundamental, porque é fundamental perceber o fundo das coisas, para não lamentar certas frivolidades.

É preciso trazer para a arte, de forma limpa, clara, quase asséptica, a perspectiva das crianças que sofrem. Escudarmo-nos sempre no pudor do seu destino e da sua intimidade, é, essencialmente, virar a cara, fingir que o problema não existe. Mas existe.
Asséptica por respeito a elas, claro. Nós, os que somos sujos. Somo nós que temos capacidade de as transportar, de falar por elas, mas para isso temos de olhar para elas. Não podemos virar a cara.
Neste filme, estamos mais de duas horas a enfrentar a morte.
E eu, ainda e sempre, digo que se torna essencial, para viver, saber ir morrendo.
Ir morrendo com a obra-prima "O Túmulo dos Pirilampos", por não suportar a fome de dois irmãos órfãos, ir morrendo porque este "My Sister's Keeper" nos mostra a morte na primeira pessoa.
Em cinco primeiras pessoas.

PG-M 2009

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