2009-09-02

Setembro

Fui um miúdo de praia durante vinte anos, hoje vivo a dois quilómetros do mar, mas volto todos os dias à areia, sobre a qual corro porque um fisioterapeuta me disse Meu Velho, se queres continuar a jogar voleibol sem muletas, tens de fortalecer os ligamentos, e isso só correndo na areia, tu que corres na estrada todos os dias, passas a correr meio-meio, e em Maio lá me danei, lá mandei vir as muletas e disse que ia seguir o conselho, e quando recomecei a caminhar, devagarinho, descalçava-me e ia uma hora para a areia, depois fiquei melhor e passei a correr meia-hora (na areia), depois os meus pés ganharam golpes dos pequenos objectos deixados gentilmente pelas pessoas entre os grãos, e eu concluí que correr só de sapatilhas, assim era um esforço tremendo, só que o peso cedeu, os ligamentos fortaleceram, e a mítica malandragem da areia para ossos e coluna não se confirmou. Tudo para dizer que todos os dias corro três quilómetros dentro das praias, sobre a areia seca, e dois na estrada. Mas Setembro?

Em Agosto, como qualquer miúdo de praia, verberei as turbas que me invadiram a costa, me tiraram o lugarzinho para o carro e me atravancaram os areais. Habituei-me. Comecei até a achar graça aos companheiros de todos os dias, o careca morenaço, as chavalas da praia X, a madura entre rochas, a menina do quiosque a quem eu estive para cumprimentar, mas, sabem como é, é sempre a correr, esta vida é assim mesmo, sempre a correr, os meias-horas do Alex, os cool do Atlântico, o povo de Francelos, e eu sempre a correr, o mp3 a tocar nos ouvidos, eu a gastar fôlego acompanhando as músicas, uma ou outra vez corri na linha de água, mas assim não dá gosto, não dá pica, a areia molhada é quase chão, subo para a seca...

...e chega Setembro.

Faço-me à areia e não está ninguém.
Pensava que ia gostar, suspeito até que desejei o momento, mas aquele deserto fez-me recordar a tristeza dos miúdos de praia, os que vivem à beira-mar e odeiam os Agostos até se habituarem, ano após ano, ao bulício da praia, à vibração dos dias, e que ao chegarem ao deserto de Setembro descompensam.
Está bem, agora os cafés são nossos, as longas extensões de areal também, e já podemos preparar o nosso Inverno em paz.
Sei da adrenalina de correr sobre a areia molhada num dia de chuva torrencial, na quadra do Natal, no Carnaval, praias vazias que até os residentes afastam, estou só no mundo, enfrento a besta, tenho a coragem de cortar o granizo com os próprios punhos, e o mar ali em baixo a rugir.

Mas nada me prepara para o primeiro dia de Setembro.
Nem os anos a suceder-se e a repetir a tristeza.
Vista daqui, a ausência, tanta ausência, também magoa.

Para o ano, quero lembrar-me de vos rever, de sorrir perante Agosto, de acenar Até para o ano em Setembro.

4 comentários:

Cristina disse...

Olá Pedro,

Tenho tantas recordações da praia de Francelos. Tem razão, esta praia foi sempre diferente em Setembro. Bons tempos.
Bom exercício.

Cumprimentos

Cristina

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá, Cristina.
Este é o lugar certo para sabermos dessas recordações. Quando? Como? Passo à escuta:)

Cristina disse...

Olá Pedro,

Obrigada por este desafio.
As minhas recordações da praia de Francelos começam com as minhas fotografias de 1972. Os meus pais alugavam uma barraca no lado sul da praia em Julho e Agosto. Era uma bela praia com um areal enorme e com muito iodo. Foi a minha praia durante muitos anos. Aprendi a jogar voleibol.
Comemos muitos camarões que o meu irmão pescava. A nossa distração nos dias de nortada.
Perto de nós havia uma menina que usava os calções que diziam “Frágil” parecida com a sua descrição do “anjo do norte”.
Por vezes, as nossas campeãs de natação Ana e Marta Reboredo desciam até à praia.
Cresci com um bom grupo de amigos, tive os amores de verão.
As sardinhadas em casa de amigos em Francelos eram uma festa.
Às vezes voltávamos em Setembro mas a praia não era a mesma….
Os últimos amigos que encontrei demonstraram que temos mais de 15 anos de Boas recordações.

Cumprimentos,

Cristina

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Fantástico.
Pois eu também, mas só a partir de 1977, quando fui para lá morar.
Ainda hoje vou lá todos os dias.
Há caras que desapareceram, outras que ainda se vão vendo, mas, decididamente, a nossa praia já não existe.
Parte dessas recordações vai poder encontrar em alguns livros meus (já nem me lembro quais, mas sei que me situava lá, enquanto escrevia).
As minhas prendem-se precisamente com o Voleibol, eu ia todos os dias com a bola debaixo do braço, eu e os meus manos e um amigo inseparável, e, como éramos federados, sentíamo-nos os reis da praia, a sustentar a bola durante horas. Jogávamos também muito futebol. Tínhamos um grupo, mas era local, porque todos moravam por ali.
Em minha casa, também se deliciosas sardinhadas de Verão.
Depois, anos fora, aquelas barraquinhas que já lá não estão, o Rei dos Frangos, o Silvinus', o Bar-Sol com as suas queijadas (que ainda hoje se vendem na padaria local), onde eu estudei muito nos primeiros anos de curso, o Iôdo até à degradação, o Parque, quando ainda era dos meus amigos "retornados", enfim, a verdade é que hoje as praias estão melhor do que nunca, mas essa Francelos nunca mais. Setembro, contudo, ainda é o mesmo:)). Obrigado, Cristina!