2009-09-14

"Os meus sentimentos" por Dulce Maria Cardoso

Foi hoje.
Podia ter sido mais tarde, muito mais tarde, podia ter sido nunca.
Mas foi hoje, Domingo, num sofá bege no primeiro andar da melhor livraria do Porto.
Era o único livro que levava comigo, talvez porque o presentisse.
Ante de me sentar, ainda percorri a estante de livros de História e fotobiografias, folheei um livro magnífico de mulheres viajantes, estava lá a dinamarquesa Karen Blixen no nada tudo africano.

Então abri "Os meus sentimentos", da Dulce Maria Cardoso (Edição Asa) e fiquei por lá horas.
Assustei-me.
Assustei-me muito.
Quando olhei para a mulher invertida, pendurada pelo cinto de segurança e fixa numa gota de água, quando recuei e a acompanhei na língua fina e negra da auto-estrada onde se havia de inverter, quando dancei ao ritmo das palavras ou me embalei nos detalhes simples em que cada parágrafo subsiste límpido e claro como uma tampa de garrafa atarrachada pelo meio,
seguramos o parágrafo na mão, entretidos, quase hipnotizados, apetece ficar ali contemplando a mão da escritora deslizando pela folha ou pelo teclado, embalados no berço que os livros são.

Eu escrevi isto, pensei.
E tinha realmente escrito.
Com outras palavras, como outros parágrafos, certamente, mas com as mesma linhas brancas para respirar.
Sim, tinha escrito pior, muito pior do que a Dulce, mas tinha escrito assim, e pela primeira vez na minha ausente carreira literária, tão ausente quanto longa de dezenas de anos, tão presente quanto genuína e independente de todas as forças que relativizam a arte,

pela primeira vez desde que escrevo me vi reflectido num lago de palavras.

Na minha cabeça, escrevo como a Dulce, devia escrever como a Dulce, é o que a Dulce escreve que tenho dentro, depois há o ar, certos ventos, os ossos dos meus dedos, a luz em ângulo agudo e saem palavras diferentes, frases diferentes, livros diferentes.

A Dulce é a pureza apriorística da minha literatura.
Daí o susto,
como uma viagem breve de auto-observação por fora do corpo,
com remate de paz, que é a identidade quase absoluta.

Comprei o livro porque era meu.
Era-me eu muito antes.

Eu que não sou ninguém entre as ondas visíveis

(Obrigado, Dulce Doce)

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