2009-09-04

O vazio sempre foi assim

Um novo mundo. A aparência da democracia total. Os imaterais, as figuras públicas, misturam-se connosco e com os nossos amigos. Escrevemos-lhes como se fôssemos íntimos, achamo-nos no direito de ter essa oportunidade. Milhares de amigos não existem. Passam a fãs. E fãs são animais perigosos que se deve manter à distância excepto quando pagam bilhete. Mas de repente os imaterais precisam de humanidade, da voz da rua e descem a nós.
E nós?
Pululamos pelas redes sociais e identificamo-nos intensamente com esta ou aquela personagem que escreve tudo o que pensamos, que decalca o nosso pensamento, queremos aproximar-nos, temos os amigos, os verdadeiros amigos, por ali, somos considerados, somos ignorados, somos considerados, somos ignorados.
E depois dizemos coisas nossas, partilhamos. Esperamos.
É o deserto.
Lá fora não estão os amigos, e, embora o ecran abarrote, sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
Alguns ascendem, são banhados pelos focos, tornam-se imateriais também, cruzam os fantasmas com os outros imateriais. Outros pedem amizade a tudo o que mexe, e vão lá pela quantidade, que mede o sucesso.
Subitamente ficam inundados de amigos e de comentários e aprovações e de abraços e de fives e depois de mails e sms.

Sabemos, se formos lúcidos, que estamos sozinhos, que sempre estivemos sozinhos.
E que os amigos não enchem uma mão.
E há noites em que sentimos essa solidão.

Lá pelo ecran, eventualmente, há emoções reais. Válidas.
Melhor do que hábitos mediáticos passivos.
Pessoas que gostam de nós, e é fácil gostar de frases limpas e de pessoas que se apagam ou se acendem com um clque de rato. É prático.
Pode ser autêntico, contudo. Pode.

Mas, ontem ou hoje, o vazio sempre foi assim.

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