2009-09-08

O Troféu

* "Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Os homens não choram, os advogados muito menos.

Por isso, mal acabei de dizer aquela frase, desrespeitando a ordem da juíza para me calar, o meu corpo inteiro foi tomado por uma inesperada comoção, ainda disse entre dentes, com a voz sumida, "agora pode prender-me", e ouvi a juíza e a procuradora, sob espanto, devolver o "obrigado" que não foi coloquial, foi pessoal.

A juíza tinha ordenado que me calasse pelo seu alto sentido de ética, e foi também por causa da ética, e pela fome que ela me dá, foi também por toda a descrença de quinze anos de advocacia em que eu me apercebo de que todos os intervenientes estão sempre mais preocupados com o seu umbigo, e que vão e vêm como moscas, deixando a merda no mesmo lugar, que me comovi.

Mas não chorei.
Desci dois pisos, tive de entrar na Sala dos Advogados para me recompor, baixei a cabeça, servi-me de um café de saco, os meus olhos marejavam e as mãos tremiam, o que é isto Pedro?, o que te deu?, sentei-me, suspirei profundamente e deixei o café aquecer-me por dentro, porque o calor de fora gelava-me, olhei para a janela do terceiro piso onde prosseguiam em diligências a mesma juíza e a mesma procuradora, pensei que tinha tido o direito de ter permanecido junto a elas para lhes explicar porque disse aquilo, e porque é que nunca o houvera feito antes, mas o corpo não deixou, eu saí a correr porque me senti embargado, não porque estivesse com pressa.

Foi preciso coragem para me levantar da cadeira, acabar o café e sair da sala.

No regresso, uma ideia assaltou todas as outras, eu estou comovido porque amo o que faço, porque apesar de amar o que faço a descrença era absoluta, hoje de manhã levantei-me a custo achando que ia fazer, uma vez mais, figura de Quixote a lutar contra pás ou mós, que eu próprio já não me aturava, muito menos o sistema, apanhei a funcionária do costume, uma para quem tudo são nãos, mas que eu compreendo sempre, porque compreendo o que lhe dói e porque é minha colega, como todos os que trabalham no tribunal em particular e no Direito em geral.

Hoje, inesperadamente, aquela juíza e aquela procuradora resgataram o sentido a uma luta violenta e solitária, e então, em plena auto-estrada, eu achei que tinha direito a chorar, e finalmente chorei de raiva, chorei pelo dinheiro que não ganho e pela ética que faz fome, e porque quem sente esta pressão e não quer dever nada a ninguém perde o sentido da beleza da sua função social e profissional, tantas são as estaladas e as navalhadas dos seus iguais e dos seus diferentes.

No intervalo da diligência, pensei logo dizer-lhes o que disse, discretamente, no final.
Pensei que lhes deveria entregar o troféu que não brilha nem se funde em metal mas se funda na essência do que que é mais importante na vida.
Pensei, depois de tudo passado, que deveria escrever este texto em sua honra, inicialmente sem nome, por uma questão de reserva, depois com nome, porque não se honra ninguém no anonimato.

A juíza Amélia, também dos olhos doces, e a Procuradora (que num assomo de superior dignidade, disse que não era adjunta, mas da República, e eu vi-lhe nos olhos e na postura que não o fazia por formalismo ou pedantismo, mas pela mesma razão pela qual eu viria a chorar de raiva momentos depois, porque a vida lhe deu o direito a isso) Maria de Lurdes, ambas intensamente bonitas porque serenas e sensatas - sendo irrelevante o padrão estético -, dirão que não fizeram nada de extraordinário, mas eu comecei a procurar com a memória os meus pedaços de tribunal, e não vi nenhum com esta perfeição, e soube ali mesmo que o que defendo há anos é verdade:
o lugar natural dos advogados é o mais longe possível do tribunal, porque quando o tribunal, no exercício das suas funções, atinge a excelência, o advogado torna-se, e ainda bem, inútil.

Como é que eu dizia naquela tese de Direito Preventivo (que ainda não há por cá)? O juíz é endógeno ao processo mas exógeno ao real, o advogado é endógeno ao real mas exógeno ao processo. Assim sendo, o advogado deve fazer o seu papel na rua para que o juiz faça o seu papel no processo. A ida do advogado ao tribunal é, em si, contranatural, e prenuncia sempre conflitualidade. A função do advogado, sendo essencial e nobilíssima, deve exercer-se afastada o mais possível do tribunal, onde uma série de factores burocráticos e processuais e forenses dificulta que se atinja o coração das coisas, algo de que nos conseguimos aproximar a montante, ou então, muito depois, perante o cansaço e o esgotamento desnecessário de todos os intervenientes, a jusante, na foz, no fim, no espectro insolúvel.

Não vou dizer porque é que foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício de advocacia. Isso pertence ao processo, e no processo não vou nem quero mexer. Quero ser actor secundário, como dizia, e muito bem, a Procuradora da República. Sempre quis.

Mas vou dizer que parte da minha emoção se funda, a contrario sensu, na forma como os magistrados hoje filtram as palavras dos advogados, como já não nos querem ouvir, como anseiam seguir em frente com o seu trabalho, porque afinal o advogado não está lá para ajudar, mas sim para ser enfático e pleonástico, para fazer barulho e vincar e sublinhar à exaustão a posição já defendida. A culpa é nossa, só nossa.

Hoje eu fui lá prometendo não julgar, porque eu não julgo, nem acusar, porque eu não acuso.
E consegui.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, porque já todos tinham saído, e nessa posição o advogado é mudo, os magistrados são mudos, só fala o processo.

Como eu gostava que não fosse sempre assim.
Como eu gostava que, à imagem de países mais civilizados, os juízes, para ganhar tempo e enquadramento informal, chamassem os advogados para um café ou um almoço e deixassem entrar no foro o resto da vida, um filme que foram ver, um livro que andam a ler, o colo que dão aos filhos, a forma como lhes falam em surdina, vai alta a madrugada, e lhes dizem que está frio e que têm de os cobrir, como eu gostava que o foro ganhasse cor e os protagonistas respeito, profundo respeito, uns pelos outros, o respeito que hoje é mais declarado do que praticado.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, e nem por um momento admitiu que eu ia dizer alguma coisa fora do padrão a que já se habituou. A culpa é nossa. A desculpa também.

No final, nem à luz dos olhos doces a juíza Amélia me quis deixar falar, nem ao sol do brilho intenso da sabedoria da Procuradora da República, e por isso eu disse que ia desobecer, que me prendesse, mas

"Este foi o melhor momento que passei num tribunal em quinze anos de exercício."

Queria antes ter martelado a cinzel as palavras, queria ter criado o troféu num pergaminho que ficaria tombado num corredor obscuro do tribunal e que um dia seria descoberto pelos arqueólogos da justiça, dizendo mais ou menos

Se soubesses o que eu chorei, se soubesses o que a inclinação do meu corpo disse, se soubesses o que a surdez dos meus olhos gritou, se visses as lágrimas em sulcos calados na tez da minha pele, se visses que a vida entrou pela quarto onde tu fazes montes de cartolina atados a um cordel,
Se visses a calma do teu lago, a luz da República, a minha luta
E os olhos doces,
Tinhas pedido, não deixado, que eu escrevesse isto na pedra.
Lentamente
Tiro o Ó na cadência da frase, e o bê pequeno a seguir, o erre o i e o guê, o outro á e o dê,
o outro Ó e tu, se tu soubesses!

(se tu soubesses...seria impróprio.
É bom que não saibas. Obrigado!:)

E os minutos mais banais do mundo à vista desarmada viraram, sob lucidez, um troféu.

O Troféu.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: tive novamente presente a música que diz que devemos olhar a essência antes de nos transformarmos em pedra, que podem ouvir aqui, porque é fantástica! E porque, sim, é hora de não deixar por dizer as coisas mais importantes.

* Créditos fotográficos: Nélson Garrido, Arquivo Público

2 comentários:

Isabel disse...

Gostei muito... Não tenho palavras para mais...
Levei a tese para ler. :) Inspiraste-me.

beijinhos
Isabel

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, "anónima" Isabel:)