2009-09-30

O Segundo Olhar, os Afectos e os "Requests"

Já é raro dizer hei-de emprestar-te um livro, e que raio de saudades tenho de ir a casa de um amigo que me "roubou" um livro que ainda não tinha lido, ou já tinha lido mas com o qual tinha uma relação especial de posse, ou só porque ia a meio, e esconder o meu próprio livro entre as minhas coisas para o levar de volta - aconteceu não há muito com a Valsa Lenta do Cardoso Pires.
Agora pouco fica escondido, tudo se mostra, manda-se por mail ou exibe-se logo no messenger, vê isto, vê aquilo, aquilo está demais, e mesmo eu, que fujo dos forwards como o diabo da cruz, sinto que vejo coisas a mais.
E o caso daqueles que ainda não percebem o que escrevi no último parágrafo?
Não é nada de que se devam gabar. Eu ergui uma cortina às notícias televisivas, já não as vejo de fio a pavio, e prefiro o que vai transpirando nas redes sociais, uma abordagem à actualidade de muito maior qualidade, e em que nem todos são redundantes ou estafados, mas não saber de nada disto, não perceber o que é o messenger,o facebook ou o twitter, claro que é analfabetismo.

E os afectos?
Neste momento, todos falam com todos, figuras privadas com figuras públicas, os primeiros mostram sempre especial ansiedade, os segundos tentam proteger-se, mas a verdade é que, ainda que as relações careçam de solidez, transmitem-se hoje mais afectos, de forma mais directa, mais próxima, do que nunca. Irónico.
Mas cada vez se desconfia mais de uma mão estendida ou de alguém que nos pede um abraço.

Eu tenho resolvido alguns problemas com um segundo olhar.
A tendência, hoje, e dado o exposto, é ir resolvendo tudo à primeira para seguir em frente.
Mas como todas as perversões do tempo, nada nos impede de resgatar velhas virtudes, e devotar um segundo olhar a algumas coisas e pessoas.
Não raro ouvimos os primeiros acordes de uma música e decidimos não gostar.
Depois, um chato qualquer obriga-nos a ouvir aquilo várias vezes durante uma viagem, fala-nos da história da música, e, sem querer, dá-nos um segundo olhar.
Vamos correr, estamos no escritório, em casa, e sentimos necessidade de voltar a essa música, de saber mais sobre o cantor, e começamos a puxar um fio de onde caem, as mais das vezes, coisas surpreendentes e maravilhosas.
Isso é navegar.
Quem navega, quem diz que gostar de navegar, tem precisamente este comportamento.

A navegação, quando é segura e sustentada, leva-nos a segundos olhares, e então, fazendo nós próprios a triagem (quem envia tudo para todos, muitas vezes de forma automática, perde a credibilidade, parece coleccionar coisas para mostrar e ele próprio deixa de as ver, deixa de aprender, torna-se frívolo, oco, vazio).

A outra face é a perversão dos novos hábitos. Os "Requests", por exemplo.
Os "Requests" são pedidos de "amizade" nas redes sociais, em particular no facebook, e, como se pode ver num recente anúncio da TMN, "I moche you", a miúda diz que tem seiscentos e tal amigos e sete requests.
Ora, eu também tenho alguns requests a que não posso responder positivamente, alguns pelas melhores razões, mas isso não me deixa feliz, nem é de anunciar.
No entanto, o tom com que se "anunciam" os requests é, neste caso, uma perversa medida do sucesso. És tanto mais popular quantas as pessoas que tens a pedir-te "amizade", ou seja, alegras-te por aqueles que ignoras.

Em vez de rejeitar liminarmente os novos tempos, temos de continuar a ser críticos, construtivos.

Sobre os afectos e os segundos olhares, há um momento que sempre magoou qualquer passante, que é aquele em que cruza olhares com alguém que o marca, e sabe que nunca mais vai ver essa pessoa, ou mesmo quem se cruza todos os dias com alguém que acaba por fazer parte da sua vida, e que de repente desaparece:
nas redes sociais, um dia, podemos aproximar-nos desses desconhecidos fascinantes e dizer-lhes isso mesmo, que são desconhecidos fascinantes, e às vezes surgem laços, coisas boas que acrescentam, e não retiram, vida. E estão lá. Raramente desaparecem.

Crédito fotográficos: fonte (autor não identificado)

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