2009-09-27

Cinderella Redshoes

Quando se diz que ela tem tudo estudado, as meias vermelhas, os sapatos vermelhos, os vestidos fluidos que deixam que lhe adivinhemos o corpo sem que as suas formas nos sejam entregues de forma óbvia, a altura (baixa) do microfone, a forma como ela a ele se agarra, a obliquidade do corpo enquanto canta, uma perna formando linha recta com as costas, a outra dobrada, em apoio, mais exposta, o joelhinho apontado para nós, os pés a pisar pedais invisíveis na espuma de ondas eléctricas, musicais, carnais, o modo quase sofrido como toca nas teclas, o cabelo agora liso, a formar com a repa um ângulo quase iconográfico, quando se diz que ela tem uma estética própria e calculada, esquecemo-nos do essencial.

Esquecemo-nos de que ela é música, compositora, executante, e que já cá anda há uns aninhos a forrar paciente e competentemente a glória de outros.

Esquecemo-nos de que ela é uma pessoa, e que uma pessoa, é, por definição, frágil.

Ao mesmo tempo, quem a vê em palco - e eu escrevo depois do concerto de Arouca, e embora tenha valido pagar o de Vila do Conde para a ver chegar até nós sem dores de pescoço ou encontrões, fica definitivamente confirmado que não cansa vê-la ao vivo, seja onde for e em que condições - tem a sensação de que ela se imaterializa, alçando-nos ao seu conto de fadas de forma imperceptível, e fica-se para ali encostado a sorrir-lhe como se ela fosse só nossa, como se ela nos cantasse ao ouvido.

Oh, Blue Bird take me away...

É por isso que perturba, que afaga, os mais empedernidos.
E acabamos por não perceber que plenitude é esta que ela nos dá, algo que nos descompõe, que nos leva a sentimentos primordiais.

E às vezes é não vista que se percebe que vai muito para lá do óbvio.
O momento do concerto de Vila do Conde em que a luz azul invade o público e a Rita fica na sombra, sem ser vista mas vendo-nos, não me ficou na retina, mas na alma, e foi algo de tão belo que magoa lembrar.

Oh, Blue Bird take me away...

Arouca não tinha resguardo atrás do palco.
Aliás, chegava-se ao parque milénio pela parte de trás do palco, e como esse é o resguardo de qualquer saltimbanco, não sei se tive a sorte, ou o azar, de ver a boneca de trapos à luz dos candeeiros da rua, numa semi-penumbra, um oportunidade para confirmar que a Rita é gente normal.

Mas não é. É muito melhor.
Não é um palhaço que se maquilha e desmaquilha, olhando triste e esgotado o espelho do camarim enquanto se constrói ou desconstrói.

A Rita é mesmo assim, a sua postura em palco é de comunhão absoluta com o público (como é delicioso o estilo Amália dos seus incontáveis "Muito Obrigado", e a forma como todos os seres vivos são para ela "senhores" e "senhoras"), a sua postura fora de palco não tem o condão de andar sem brilho. Porque brilha intensamente.

Parece-me que por estes dias começa a não ser "in" dizer que se gosta de Rita Redshoes, e por isso é a hora certa de lhe declarar fidelidade e ser coerente. Este primeiro álbum, Golden Era, tem pelo menos um pecadilho: tem demasiadas músicas boas, e, aí vai bomba, vai ficar na história da música pela sua excelência - e só em palco ela tem a oportunidade de interpretar, e dar a respiração a ouvir, cada nota que lhe saiu da forma das mãos e dos traços do canto.
Tem excelentes músicos em palco, mas a verdade é que eles próprios sabem que ninguém se mexe como ela, uma coreografia subliminar notável, que vem de dentro e a transforma em todas as pessoas de brincar que cruzaram os nossos dias e os nossos sonhos.

No entanto, e por causa de elementos de magia não explicáveis pelas ciências humanas, todos têm vontade de que um dia um dos seus sapatos vermelhos fique caído nalgum lugar, para que possamos ser nós, os que fingem não ser seus fãs e ter uma existência artística distinta de fenómenos estéticos conhecidos pelas pequenas e médias massas, os que rejeitam obstinadamente render-se a ela, a encontrá-lo caído na soleira da casa caiada de uma aldeia qualquer, e só descansar depois de lhe encontrar um pé e casar com a dona dele.

Mudei-lhe, pois, o nome artístico para Cinderella Redshoes.

Que, de tão maravilhosa, sempre se imaterializará antes que o sapato perca a matiz e vire cristal puro.

Dream on Girl.




Já agora, o novíssimo vídeo que simboliza o perfume da Rita ao vivo.




Créditos Fotográficos: fui eu que tirei esta foto em que parte do que fica dito ressalta com clareza;

Post mais antigo sobre a RR aqui.

3 comentários:

Catherinne Duarte disse...

Grande texto Pedro! Gostei muito.

XxX

www.missritaredshoes.blogspot.com disse...

Texto muito, mas muito bom!
Boa escrita, belos detalhes!
Os meus parabéns! :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado Cath e missritaredshoes :)