2009-08-09

Redshoes e Kafka com a Guerra fechada e o hospital aberto


Nota Prévia: detalho alguns momentos privados porque se me impõe, e acaba por ser serviço público explicar que há coisas que não podem funcionar assim;

Não tive noite e dormi três horas de madrugada, porque ontem sucedeu cá em casa um daqueles momentos em que a saúde faltou, e quando assim é o mundo revira-se e o que deixa de suceder é a imortalidade.

Porque ontem não havia mais nada a fazer no hospital privado (a urgência despega às 24h), viemos dormir pouco e marcámos hora para pegar ao serviço do sofrimento no hospital público. Na véspera, tinha criticado de forma inclemente os hospitais públicos perante a médica do sistema privado. Hoje o dia deu-me razão.

Chegámos pelas 9h, e depois eu não pude entrar, e depois o menino foi atendido, e depois fez análises, pelas quais esperou mais de duas horas.

Às 10:50h, enquanto eu tomava café numa confeitaria das redondezas e lia um artigo no DN sobre as casas dos escritores, alguém ligou para a guerra e disseram-lhe que estava fechada. Raul Solnado morria aos 79 anos. Não me caiu nada bem, porque aquele sorriso malandro não é dos que fecham. Não fechará.

Fugi para a Fnac e deixei-me levar pelos livros, persegui a Rainha Vitória (é impressionante que, sendo um símbolo da história da Europa, não haja nas nossas livrarias livros sobre a época vitoriana ou a Rainha Vitória), a arte e arquitectura em Paris - grande livro que desencantei na Bertrand - (onde descobri que Kafka era da idade do meu bisavô e que também tinha escrito nos seus diários sobre o Metro parisiense). Decidi perseguir Kafka também.

Tive a sorte de ir almoçar com os meus dentro do hsopital, saber notícias e abraços.
Quando chegaram à minha beira eram 13 horas: Levavam cinco horas no corpo numa sala de espera bafienta entre gritos, e só no último minuto tiveram dos médicos uma notícia mais animadora.

A maioria dos médicos, mesmo que pendure um sorriso nos dentes, não nos olha como gente animal, mas como animal gente. Há uma desapego que se sente num olhar que é a média de todos os olhares, o olhar de enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, vi-os na esplanada do bar interno e era assim, hei-de-escrever sobre isto, há uma defesa nas palavras com que se dirigem a nós, chamando mãe à mãe e pai ao pai, como quem chama boi ao boi e vaca à vaca, sem ter uma verdadeira noção de que nos estão a tratar como coisas, meros elementos mais ou menos previsíveis do sistema.

Foi bom poder comer com os meus num bar decente, mas foi mau que o filme do Tom & Jerry estivesse parado na mesma cena, durante horas, na sala de espera de pediatria, e ai de quem se atrevesse a dizer que o filme rolar era importante para amenizar o sofrimento das crianças.
Na televisão do bar confirma-se e o coração ainda aperta mais: Raúl Solnado fora mais longe.

Era preciso esperar pelas 14h, porque ecografias não urgentes só de tarde (lembremos que se estava numa "Urgência" - pelos vistos não urgente - ). Eram 14:30h quando foram chamados para junto da parede da Eco, e apenas 15:30h quando a fizeram.

Eu libertara-me na Leitura, em Ceuta, a ler os diários de Kafka, de como ele deslumbrava as próprias irmãs e conseguia ser virtuoso dentro da casa de banho lendo-lhes alto, mas não perante os homens do seu tempo, como tratava o Sr. K como um alter-ego, e como misturava no dia-a-dia a ficção com a realidade. Mas a edição da Difel é acrítica e reduzidal. Sobre Paris quase nada.

Já passava das 16:30h quando os meus foram chamados à médica, e era oficial:

saíram perto das 17h, o que perfazia oito horas , oito, oito horas ininterruptas dentro de um hospital para ter uma consulta em que nos chamam pelo papel social, uma análise ao sangue e uma ecografia.

Fugimos.
Fugimos pelo Sol e pelos jesuítas de Santo Tirso, pelas compras breves num Outlet, pelo jantar junto ao mar, e à noite...

... Rita Redshoes ao vivo em Vila do Conde.

A Rita é uma riqueza.
Bonita e pequenina, com os tiques robóticos de David Fonseca (que nela ficam a matar), mas bem mais arguta do que ele, que nunca teve a ideia de escolher como nome artístico, por exemplo, David Bluetie.

É uma riqueza a Rita, e conseguiu dar uma boa hora e quarenta e cinco minutos de comunhão, de desempenhos intensos e profissionais (uns fiéis ao disco, e ainda bem, outros exponeciando-o, e ainda bem), humor fino, a Rita chega ao palco em meio desconchavo mas sobre ele parece bailarina, muitas vezes boneca assumida, contém a expressão no canto e mal risca rugas na cara, escalou os minutos quase como uma artista internacional e terminou intimista, já em encore, com um pássaro a quem ela pede que a leve dali, porque não quer morrer num dia de sol.

Nunca pensei que um fio de luz branca, outro de azul clara, virado para o público, e o artista no negrume a cantar uma canção quase sem instrumentos, fosse mais privada para quem vê do que a luz de outros concertos, ou seja, nesse momento final, em vez de a Rita estar sozinha no palco com um foco suave sobre ela e tudo em volta na mais profunda escuridão, chegou-se à frente e o foco incidiu no público e ela é que ficou na mais pura escuridão, só lhe víamos um recorte preto, mas a verdade é que estava ali, ao fundo de um braço que nunca se estendeu, de vestido preto reversível e sapatos vermelhos, tentando destruir-nos o coração a cada segundo.

Deu cabo de nós no dia em que a guerra fechou e o hospital abriu sem tino, Raúl Solnado poderia levar-nos pela mão a conhecer a Rita, porque Kafka alternava constantemente o virtuosismo e a excelência com a banalidade. Não tens de te acreditar nisto. Não acredito.

A Rita está inclinada em tripé sobre os teclados, provocante e bem ensaiada, genuína e virtuosa, a acompanhar-se no Choose Love, uma menina portuguesa com tudo para vencer e se massificar, e eu queria dizer isto mas já não posso.

Queria ligar para a frente de batalha e dizer-lhes coisas bonitas, mas são quase três da manhã e a guerra está mesmo fechada.

Pedro Guilherme-Moreira

Créditos Fotográficos: Miguel Rosenstock

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