2009-08-12

Onde arrumar os sentimentos (before we turn to stone)

Onde arrumamos os sentimentos, quando de repente nos apercebemos de que gostamos muito mais do que odiamos, ou que por acaso não odiamos nada, só desprezamos algumas coisas e algumas pessoas, desprezamos humildemente, sem desfazer, mas essencialmente levantamo-nos de manhã e, estejam as coisas fáceis ou difíceis, passamos o dia em busca de vida, e quando se procura encontra-se muita, porque ela está aí, está aí todos os dias no vapor da respiração, e mesmo quando nos dão morte, a morte de alguém que nem sequer é nosso, nós encostamos as nossas costas às do desaparecido, estendemos uma passadeira vermelha e durante alguns dias, às vezes muitos dias, percorremos o seu caminho de volta, detalhando momentos, e quando todos detalham momentos mostram aos outros o tanto que lhes escapou, por isso mesmo na morte há vida, mas o problema é se, de repente, nós começamos efectivamente a olhar para todos os que nos rodeiam com olhos de ver, como faríamos nos seus funerais, com vontade de gostar deles, de apreciar o que eles fazem, de validar e testemunhar as suas vidas, o que acontece é que de repente o nosso coração rebenta, porque se estivermos atentos, mesmo muito atentos, até aquela pessoa que nós sempre tivemos como mesquinha e má, mesmo essa pessoa traz vida no rosto, algumas rugas de sofrimento, e como repara que nós a olhamos de frente comete o pecado de sorrir, e depois todos os dias nos sorri, e nós começamos por detestá-la menos e acabamos a gostar, gostar pelo menos um bocadinho, afinal ela é má porque nunca se deteve sendo boa, e se nós abrandarmos em alguém sua maldade, pode dar-se o caso da bondade, não, não é bem a máxima do Luis Cencillo (o filósofo que eu deixei morrer sem prestar respeitos), que dizia que um dos erros da vida era tomarmos à conta de mau o que é sempre bom, mas de vez em quando mau, e à conta de bom o que é sempre mau, mas de vez em quando bom, não é isso, o problema é mesmo onde arrumar este sentimentos, se mesmo o detalhe dos maus e mesquinhos pode mostrá-los bons, o que fazer dos que são mesmo bons, o que fazer da beleza das pessoas na rua, o que fazer do sorriso da empregada na loja, o que fazer da tristeza que conseguimos quebrar atrás de um balcão, há olhos tão tristes que são quase choro, e nós estamos ali perante eles e não os combatemos?, claro que sim, claro que combatemos, e eles sentem-se combatidos e quando chegam a casa para serem injectados de tristeza de novo, sim, porque aquela tristeza não era do trabalho, o trabalho só não ajudava, mas há tristezas tão fundas que vêm já de casa, e ela leva de fora um sorriso e chega a casa e discute ou é desrespeitada ou espancada e fica triste de novo, é preciso voltar no dia seguinte, onde é que arrumamos os sentimentos da rapariga que é tão bonita que temos de lhe agradecer, porque muitas raparigas são bonitas e não se põem assim, ela parou perante si em casa e disse que ia supor que era a mais bela do planeta, supôs isso e saiu tão confiante e produzida que nos iluminou, lá está, o que fazer do prazer e da beleza que nos trazem as mulheres luminosas como a canção, quando passas à minha rua, como um anjo que flutua, os meus pés nunca pisam o chão, por acaso escrevo estas palavras de desespero pelos sentimentos fantásticos que tenho jorrando sem prateleiras onde os pôr, por acaso escrevo ouvindo outra canção, antes de nos transformarmos em pedra, que diz assim, e assim termino, porque afinal não consigo arrumar, ou melhor, eu cá sinto que a forma de os arrumar é sendo feliz e contagiando todos em volta, mas nem sempre eles deixam, há pessoas que adorámos no passado que não nos deixam chegar perto, têm medo de ser vistas no presente, têm medo de gostar de ver, outras que adoramos hoje e se eclipsam, mas temos é de ir caminhando em passos firmes e faremos a estrada, a nossa e a de todos, que as estradas são para todos os que passam, e ficam feitas, diz assim a canção:
vamos lançar um segundo olhar/ para lá do livro de histórias/ e aprender que as nossas almas são tudo o que temos/ antes de nos transformarmos em pedra;
vamos dormir com cabeças mais leves/ e corações demasiado grandes para caber nas nossas camas/ e talvez nos sintamos menos sozinhos/ antes de nos transformarmos em pedra;
E se esperares pela mão de alguém/ certamente cairás;
Sei que não sou nada de novo/ mas há muito mais que podemos fazer/ mas como é que podemos expiar/ antes de nos transformarmos em pedra?;
Sei que se for pelas ruas ser bom ninguém me aceita, chamam-me louco, afectado, poeta, artista, estranho, talvez louco outra vez,
mas eu vou pelas ruas ser bom,
a bondade é lamechas e eu vou levar-lhes a insuportável lamechice da bondade,
foi isso que decidi,
vou pelas ruas ser bom até fenecer.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Músicas referidas no texto: "Quem és tu, miúda?", Azeitonas, e "Turn to stone", Ingrid Michaelson; video refere-se ao momento que esta última musica, episódio 22, temporada 5, Anatomia de Grey;

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