2009-08-07

Nobel e Camões para Mia Couto

Pronto. Já está. Com este título, que vou repetir de seguida, "Nobel e Camões para Mia Couto", este artigo vai passar a propagar-se na rede universal, e em alguns dias passa a facto. E daqui a algum tempo vai haver uma mesa redonda para debater a possibilidade, e já não se vai saber onde nasceu a ideia. Um mau jornalista vai pesquisar qualquer coisita antes de uma entrevista que vai ter a sorte de fazer ao Mia, e lançar-lhe a pergunta "Sabe que já se pensa no seu nome para o Nobel?", e o Mia vai ter de desconversar, como fazem todos os escritores, porque ninguém aguenta um que diga "sim, penso nele todos os dias!", ou "sim, claro que quero, claro que mereço!", e preferem uma alienação momentânea tipo Doris Lessing, com um saco de compras no regaço e ar de campónia, que é a nova moda mediática, dizendo algo do género "Quem, eu??? Já nem me lembrava que escrevia!"

Só que isto é muito sério e decente, modéstia à parte.
Claro que vou aproveitar para o Mia o lado bom desta coisa má: a propagação irracional e estúpida de uma ideia, boa ou má. As boas fazem-nos os dias, se quisermos e soubermos procurá-las, as más fazem os noticiários.

Até há alguns anos, as brancas do Mia eram em número insuficiente, assim como o tempo decorrido sobre o seu nascimento. Agora são bastantes, e em anos já vai na casa dos cinquenta, o que pode querer dizer que tem quase sessenta, pelo menos ao tempo em que esta mensagem acabar de dar a sua terceira volta ao mundo e surgir num computador qualquer como se fosse uma grande novidade.

Não se deve desperdiçar um Nobel num escritor que vende massivamente, como um Ian McEwan ou um Philip Roth, não se deve, em suma, desperdiçar demasiados prémios Nobel em americanos ou europeus, que vivem muito centrados no seu umbigo (mais aqueles do que estes, mas estes cada vez mais do que aqueles;).

Precisamos do Nobel, pelo menos, para nos lembrarmos de que não estamos sozinhos no mundo, e que algures num canto esconso do planeta há grandes pessoas a escrever (porque, já agora, se me é permitido o remoque, eu não acredito em génios literários).

O Mia é de Moçambique, um dos mais pobres países do mundo (ou seja, seria bem empregue e um estímulo para a economia, mataria a fome a muita gente;), e a questão não é ele escrever maravilhosamente bem. A questão é que este homem, depois de ser mundialmente conhecido e reconhecido como um inventor de palavras, e assim poder passar à eternidade, reinventou-se a si próprio, depurou a linguagem, sustou os deliciosos neologismos, e ainda assim conseguiu crescer, fazer livros cada vez maiores, sempre com o poema a construir-lhe as frases.

Ou seja, a Academia sueca, e já agora o júri português do Camões, têm onde se agarrar para lhe dar isto e justificar longamente as suas decisões.

Agora aguenta-te, Mia.
É que quando este artigo se propagar em forma de verdade e chegar à Suécia, lá vais tu para as intermináveis listas anuais esperar vez.

Claro que, como homem humilde e bom que és, vais sentir que já ganhaste só por aparecer aqui, nos fundos de um remoto blogue de um português subterrâneo.

Fica o grito de guerra:

NOBEL E CAMÕES PARTA MIA COUTO JÁ!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: A composição da foto está deliberadamente grosseira, para não virar verdade antes de o ser:);

1 comentário:

perdigota disse...

Concordo plenamente, já sabes que sim!!

P.S. - Parabéns pelo perfeitíssimo Photoshop...