2009-07-14

Uma longa Sexta-feira de Arrebatamento

A vida não é um filme, mas às vezes parece. Supera. Dizem que imita a ficção.
Em que lugar depositamos os sentimentos?
Se na vida falamos deles ou os exacerbamos, somos olhados de lado.
No Cinema ou em frente à televisão, pode ser.
Se metermos tudo em caixas bem rematadinhas, e tivermos o cuidado de as arrumar, ninguém se agita, está tudo bem.

Pois eu vou dessarumá-los todos sobre a mesa.

No dia 10 de Julho tudo começou poucos minutos depois da meia-noite com uma mensagem decifrada do Anjo a Norte, cuja essência se solveu na minha tantos anos depois.
Prosseguiu com sinais entre mim e o ecran do computador, em busca do equilíbrio do dia seguinte.
Deitei-o.
Deitei-me.
Deitada.
Acariciei-lhe os cabelos, como sempre.
Fiquei-lhe junto da pele, desliguei a televisão e adormeci.

Como sempre.

Acordaram-me antes da hora e deram-se-me.
Rumei a Miramar, deixei-o, depois fui sozinho para Francelos, deixei-me.
Chegaram mensagens em catadupa, chamadas em catadupa, quase tudo ao mesmo tempo, à porta da minha rua. Debaixo da minha árvore.
Depois fui voar.
A praia estava perfeita, o ar no peso certo, o sol sobre as pestanas, eu voando sobre a areia.

Como sempre.

A professora ao meio-dia, com palavras no olhar, trinta e um anos depois.
Falei-lhe de tudo, agradeci, bebi o café de saco e comi os bolos de pão de ló de Ovar, agradeci, vi-a chorar a morte do seu menino, agradeci, e depois quis falar-lhe dela. Da tal que me andava no peito ia para o mesmo tempo.

É assim, professora, de nada me lembro senão da Garça e do seu traço de luminosidade, um sorriso é um gesto?, seria um movimento de lábios que só não me cegava porque havia demasiada sombra nos outonos e invernos, ela era o astro, o único astro,

É assim professora: tenho saudades dela, muitas saudades dela.
Veio-me pelo braço até à carrinha, disse até sempre, fiz dois telefonemas e a meio da tarde fiquei com um pé no presente e outro no passado, os mesmos trinta e um anos de abismo no meio de mim, mas a amiga de volta, a mesma que dançava todas as rodas de todos os dias de todos os círculos do meu pensamento, voltei à metáfora do filme, estava em câmara lenta com o sorriso suspenso e a batinha branca planando no meu pudor, está aí. Estás aqui.
Que bom que tenhas vindo, finalmente.
E logo hoje.

Antes, tinha almoçado com o rapaz que me ouve.
Que me ouve tudo e ainda pergunta mais.
Como pode? Não existem dele hoje.
Tenho tanta sorte.

A noite ia começar a fechar-se, mas saí com o filho pelo asfalto e tinha de ser cedo o pavilhão de voleibol, porque o foi cedo também na vida, havia lanternas na alameda, é o mesmo que dizer que me alumiaram elas todas, principalmente três, e eu precisava de uma inundação prévia, algo primordial, de surpresa, antes que fosse dobrado o meu cabo.

Voltei pelas primas (primeiras) que podiam não estar, e estiveram afinal, estive também, estive por dentro e por fora, e quando cheguei ao meu pátio já estava em suspenso, e não consta que tenha voltado ao chão.

Começou cedo a noite com os amigos da manhã da vida, o manto seráfico a cair sobre o cimento, eu sempre a um metro do chão, e depois sufoquei, sufoquei de tudo o que a vida me quis dar nestas décadas, sufoquei dos sorrisos que vieram claros, sufoquei da amizade que sentia nas peles, de algum amor que transbordou sem querer, a saudade, raio de saudade que nos atropela o olhar e torna trémulos os lábios, não chorei.

Não chorei a noite toda, e quando chorei ninguém viu, foi uma lágrima por dentro do fim do vídeo que entretecera dias antes, parabéns a todos vocês, a história de mim feita pelas imagens deles, como tinha de ser.

Estive distante, quase de fora a ver a minha sorte, os amigos, as amigas, a mulher e as mulheres da minha vida, o filho e os filhos das minhas palavras, fluía a música de ontem, a música deles, na rua havia quem ouvisse o mar, o mar de hoje que subia pela rua dos bombeiros até nós, molhou-nos os pés de espuma salgada, quase todos se deixaram ficar na praia, ninguém partiu.

Abri o bolo, e passado um bocado expus-me. Despi a camisa.
Dei-me a todos e, sei-o profundamente, a tudo.
Quem és tu, miúda?
Anda comigo ver os aviões, deixa que a brisa os leve de volta.
Debaixo da ramada da videira cantei a Lenda das Rosas porque me desafiaram, eu sem saber a letra, eu sabendo o poema,

disse o poema todo

Na mesma campa nasceram duas roseiras a par
e enquanto o vento as movia, iam-se as rosas beijar

O sol reapareceu, como eu pedira, mas nada ficara de pé.
Começou a despenhar-se na morrinha
que havia de ser eu

(chorando, horas antes).

Jamais me levantarei desta longa sexta-feira de arrebatamento.
Jamais me quererei levantar.

Morrerei feliz só com a película da morrinha que me sustentou o peito

e me suspendeu sobre a noite

até eu próprio cair sobre mim

com o húmus de todos os que me fizeram assim.

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