2009-07-05

Jorro de luz à entrada da magnífica semana - 10 e 40 anos

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
Nunca escrevi publicamente prosa alguma sobre isto (escrevi poesia, vá lá), mas esta não é uma data qualquer. Estou profusamente feliz.

Ontem andava pelo shopping quase deslumbrado com cada pessoa que se cruzava comigo, pensando que algo de estranho se passava comigo. Não é normal achar toda a gente bonita. É mesmo perigoso. Mas era isso que sentia. Estou convencido de que me assaltava a felicidade pura, que afinal só existe nestas embalagens de momentos, não pode ser permanente. E por saber disso deixei-me estar no jorro de luz.

Em cinco dias perfaço quarenta anos, e antes que seja tarde, deixem-me que vos diga o ano magnífico que tem sido.
Costumo dizer que sou pobre de bolso, mas opulento de espírito.
Sou caso provado de que o dinheiro não traz felicidade, e se a falta dele não a concede automaticamente, a noção do seu carácter perfeitamente acessório ajuda bastante.
Viver economizando ódios e canalizando essas energias negativas para enfrentar a incompetência e a desonestidade, porque não há dúvida de que é duríssimo ser decente.
É preciso uma atenção constante, uma aposta na busca da lucidez, mesmo contra os que temos como modelos.

Finalmente, sendo contidos e respeitosos, deixemo-nos de merdas.
Pelo menos a partir dos quarenta.
Basta a vida anterior para as incertezas de estatuto.
Os quarenta, não dando garantias de respeitabilidade, dão ao menos aquele apriorísitico estauto do maduro. É a idade zero para a reclamção da maturidade, com a consciência plena de que se reclama um posicionamento social, e que isso não nos livra do perigos de infantilidade até à morte: chifres em parlamentos, por exemplo.

Deixemo-nos de merdas, porque está na hora de dizer a todos as coisas boas que lhes pertencem sem resguardo.
Sem receio do que possam pensar, ou do sentido da sua aceitação.
Se essa entrega criar anti-corpos no interlocutor, paciência.
Um dia ele vai querer a palavra branca e não a vai ter.

O mais certo é contagiarmos os outros dessa coragem e dessa bondade.

Hoje, às 17:35h, faz dez anos certos que sou pai.
O meu filho é talvez do outro mundo, agridoce como são os melhores, e as corridas pelo pátio à meia-noite e trinta dizem-me que é feliz, o braço sobre o meu pescoço mostra-me a bússola que me guia, e eu já não preciso que me digam como sair.

Estou cá bem. Fico para sempre, se me deixarem:).

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