2009-06-25

O Anjo a Norte


Vi-a pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.
Mas o que nunca naquela rua alguém alguma vez esqueceu foi o sorriso líquido da menina de Francelos, o sorriso onde sempre o nosso olhar suavemente se estendia, tal a clareza das suas águas, seriam os dentes pequeninos bem alinhados, seria o coração grande, seria toda ela, leve, seria a boquita franca ou os largos sinais da sua felicidade, assim era a pequena vizinha ao Norte de mim e da minha casa, portões acima.

Fui-me embora na deriva normal da vida, e um dia tomou-me a tristeza porque deixara de ver os cabelos belos brancos curtos do pai da pequena vizinha a Norte, e disseram-me outras vozes que se tinha imaterializado na sua bondade.
Deixei-me estar na deriva. Afinal o que podemos nós nas nossas vulgares tristezas perante os muros que erguemos em volta?

Um dia, muitos anos depois, outra menina, que mais de perto era mulher, e mais de perto ainda puro rasgo, pura luz, um dia essa menina passou-me vogando pelo passeio da casa de Francelos, onde eu estava por acaso, passou vogando e sorriu, sorriu claro, e prosseguiu para Norte, e quando eu a vi entrar na mesma casa da minha pequena vizinha, indaguei sem me deter. Quem seria? Não respondi, e a vida prosseguiu.

Meses depois desse dia, a mesma menina, mais de perto mulher, rasgo, luz, passou-me de novo vogando, sorriu, eu desprevenido nada fiz, nem um gesto, nem um aceno, sorriu de novo transparente, prosseguiu para Norte, entrou na mesma casa, e foi aí que me desceu a memória, e dentro dela a imagem da pequenina com tufos doirados entre os panos alvos que podiam ser as roupas penduradas no estendal ou o linho da mãe a que se encostava envergonhada nos passos pequeninos que formava até à praia.

Era ela.
É ela.

Daí até cá, passa sempre e eu nunca a conheço a tempo, nunca lhe trago um aceno ou um gesto que lhe mostre admiração, mesmo ternura, mas ela sim, ela capta-as no ar, tempera o sorriso claro na boquita franca, na face fresca, e prossegue segura para Norte, portões acima.

Estive anos para escrever estas palavras, porque sabia que tinha de ser assim, que nunca poderia tocar à campainha do anjo ao Norte da minha antiga casa de Francelos e dizer:

- Obrigado por iluminares.

E ela dizia o quê?

"- De nada."?

Há coisas na vida que nos transcendem, há conhecimentos desconhecidos que nos formam e enformam e não podemos fazer mais do que calar ou escrever palavras na distância.

- Obrigado por iluminares a nossa rua toda desde sempre.

Créditos fotográficos: Ashley J Tyler ; modelo: pequena Hailey

2 comentários:

Anónimo disse...

Esta menina, se existe, tem tanta sorte em ter sido objecto da sua pena! Bendito!:)))
Não só por este artigo ou "post", mas por tudo o que escreve, dentro ou fora do blogue, nos livros (li o magnífico "preview" do "Era 11 de Setembro..."), no Portolegal, o Pedro é absolutamente arrebatador. Não o conheço, mas vi no seu perfil que gosta do filme "Feitiço do Tempo". Sabe aquela cena em que o Bill Murray, já apostado em ser melhor pessoa, fala em italiano para o senhor forte com que se cruza todas as manhãs, e ele fica inspirado para o dia todo? O Pedro é assim. E não é só para mim, lhe garanto:) Obrigado, obrigado, obrigado. Deus e alguns Homens lhe prestem o reconhecimento devido, e que não demore muito. Raquel

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Raquel,
Mesmo que me gabe as palavras, não imagina o estado em que me deixou (certamente sem elas). Também é preciso que as pessoas digam e escrevam, e não fique tudo calado. A Raquel disse, e disse tanto. Obrigado!!! Que prenda:) PG-M