2009-06-13

Os Azeitonas (e o belo absoluto)

Tenho de escrever isto, porque não quero morrer estúpido:).

É oficial. Acabou de acontecer. Aquele momento em que, tendo passado algumas semanas, ou meses, depois da descoberta de um grupo musical, ficamos parvos de todo e já não conseguimos ver nada de errado neles. Ou com eles. Ou por eles.
Acabei de ficar parvinho de todo, pois.
Há coisas do caraças.
A caixa de Cds da minha carrinha anda instável vai para um mês. Maldição. Eu, que no Rover 620 Si a cair de velho já tinha transitado para música ouvida em Cartão SD (que nunca falhava), tive de voltar à caixa de Cds que já vinha com a minha Tânia Filipa (são as letras da matrícula, não se assustem). A gaja é temperamental. A carrinha, não a caixa de Cds - esta é mesmo pérfida. Ora, mal deixo o centro cá da vila e desço à praia e começam os paralelos, os Cds saltam e no visor ultra-moderno da carrinha aparece a merda da expressão anglo-saxónica "Surface", que eu nunca soube verdadeiramente o que queria dizer no contexto da avaria. Ainda arranjei rituais, saco a caixa fora, limpo os Cds, sopro para dentro, mas ela só funciona quando quer.

Acontece que eu andava mais ou menos dependente de ouvir todos os dias o "Quem és tu, miúda?", e não há melhor momento para fazê-lo do que com o cabelo ao vento a ver passar e a passar por gajas e raparigas e até mulheres parecidas com as que imaginamos saídas da canção, no fundo todas as mulheres passadas e presentes que nos fizeram e fazem estremecer por um momento que fosse (seja) vida fora.

Em resumo, agora tenho de os ouvir na porcaria do portátil, que sem fones tem um som verdadeiramente reles, mas com fones nos envolve no outro extremo.
E aqui sentado deu-me para descobri-los mais e mais.
E uma pessoa fica a respeitar esta (boa) gente.
Não que os tipos interessem, mas interessa a Nena, que um ouvinte distraído leva à conta de menina de coro, mas que umas buscas no "You Tube" nos devolvem na forma de anjo, como o que passa à nossa rua, e flutua. Então aqueles grandes planos da "Praça da Alegria", a cantar os Desenhos Animados, desestabilizam qualquer rapaz bem casado (como eu).

Serem do Porto (como eu) não é pormenor despiciendo, embora "Os Azeitonas" sirvam ao mundo, mais do que ao país. Mas sendo do Porto, talvez possa dizer do Norte, há uma emoção particular, uma essência que nos faz agradecer a estes putos o virtuosismo de um bom gosto que vem das tripas.
E depois ouvimos neles o Neil Diamond, os Beach Boys, o Rui Veloso, os ZZ Top, os anos cinquenta, sessenta, oitenta, noventa.
Já lhes chamei "Os Trabalhadores do Comércio" dos anos 2000, mas isso é muito redutor.

Para quem escreve, como eu, ouvir letras que são livros totais é impagável.

Os Azeitonas fazem-me sentir que não temos de ser "cool" para ter emoções.
Derreto-me todo a ouvi-los, vibro, derreto-me, vibro, derreto-me.

"Quem és tu, miúda", "Um tanto ou quanto atarantado", "Carta ao Pai Natal", "Desenhos Animados" (não me apetece ir ver o nome completo, estragava a onda), "Mulheres Nuas", e agora todas as do Salão América (escrevo esta elegia ao som de uma nova, "Anda comigo ver os Aviões" - que com o foobar passou ininterruptamente nos meus ouvidos já mais de dez vezes, como eu gosto de os ouvir cantar o Porto de Leixões, ou fazer rimar totobola com pistola!).

Juro que apetece chorar de felicidade por ver que há pessoas que conseguem trazer-nos a simplicidade da dita, a imperfeição da dita (felicidade), como apetece não relativizar o belo absoluto com que passei a olhá-los quando fiquei parvinho e me tornei fã, há meia-hora atrás.

Gosto de os ver reclamar para si a simplicidade do romantismo. O direito a ele.

E afinal dão tudo, está tudo disponível gratuitamente para download, e até deram à TVI a música que passa nas novelas (por isso dizem que são dados, e não vendidos, como os acusaram de ser porque para certos afectados tudo o que entra nos Morangos passa a estado terminal da segregação).

Não temem ser confundidos com zés ninguéns, como eu às vezes tenho quando gaguejo a falar dos meus livros, e têm a perfeita consciência de que valem (de valor intrínseco) o mesmo agora do que valiam em 2002, quando resolveram fundar-se numa bebedeira em Ibiza, e que valerão amanhã, quando metade do país se render a estes ímpares poetas dos paralelos da minha carrinha. Valem muito.

Ficam as justas ligações, e a certeza de que vida fora lhes darei mais do que o que custariam os Cds que ele não vendem, dão. E dar-lhes-ei como eles me dão a mim.

http://www.osazeitonas.com
http://blog.osazeitonas.com

Gosto de vocês!!!!!!

(reivindico o direito a ser lamechas, apesar de escritor, apesar de advogado, apesar de investigador, apesar de grande, apesar de chato, apesar de melga, e depois de ter sido trucidado duas vezes por superlativos Cirque du Soleil, não vejo menos brilhantismo na dedicação destes moços;)

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Créditos fotográficos - Marlon



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