2009-06-19

Este foi o dia (Onde está a Nena e os meus livros e o Mendes e os Joões)?

Foi uma autêntica vergonha. Fui de fato.
Não consegui vir a casa trocar de roupa.


Foi uma autêntica vergonha. Não vi a Nena.


O Mendes disse que o "Anda Comigo Ver os Aviões" está na linha literária do "Readers' Digest", o que é um perfeito disparate, porque este último (sendo brilhante) é impossível de dedicar à minha mulher, e o "Anda Comigo Ver os Aviões" é, porque não é apenas sobre as romarias a Pedras Rubras, mas sobre todo um sentir e um amar dos rapazes do Porto.
Eu, quando ouço o "Anda comigo ver os aviões" (título que pensei por ao meu livro sobre o 11 de Setembro, a sério!), penso apenas no amor de tronco completo que nunca enjoa. Se amas a tua mulher, ama-la a comer tremoços e a ver aviões nas redes de Pedras Rubras, não a jantar no Rivoli à meia-luz. Aí todas se amam! Mendes, a minha mulher sempre disse que o Porto de Leixões e as vias férreas do lado de lá da auto-estrada eram o ideal para fazer um teledisco. Tu escreveste esta canção de mim para ela. Está dito.

À tarde, cheguei em espuma à primeira foz da minha literatura.
O segredo é a alma do negócio, e não posso nem quero revelar mais pormenores, mas uma pessoa não é bem um rio, e se for repete o circuito da água e está sempre a desaguar. Esta foi a primeira de algumas. Foram 34 anos a ouvir elogios do amigo do lado. 20 anos a esperar humildemente pelo momento certo. Uma tarde com uma pessoa magnífica que nos olha e nos ouve. Foi isto que pedi. Nada mais.
Tive.

Este foi o dia.
Mas onde estava a Nena? A Nena foi? Se foi, passarinhou pelas paredes forradas a alcatifa azul escuro do Passos Manuel? Alguém a viu? E o Wally? Eu tinha trocado de caneta, troquei para aquelas de escrever em Cds, que não saem, para dar um autógrafo a um fã, e levar um autógrafo dela. Nada.
O Mendes calou-nos.
Fica-se a ouvir e a ver este rapaz, que começa por nos despistar a fome a falar dos cachorros (pagos) do Gazela da Batalha, continua sempre simples e familiar como se fosse fácil subir a Rua Firmeza entre Santa Catarina e a Alegria, deixa-nos um sorriso luzente e permanente, culmina sempre virtuoso mas olha-nos e toca-nos como se estivesse connosco discutindo as chuteiras do Gomes à soleira da porta do Café dos Lóios, dizendo apenas que não é por causa delas que ele corre com passos pequeninos, quando afinal tinha acabado de dedilhar a guitarra da lágrima negra como se o seu apelido fosse Lucia e o flamenco pudesse esperar. O Salsa - que é meu fã - sabe muito e tocou harmónica de acordeão como um caubói, o João Vaz tornou a "Costureirinha da Sé" da avó ainda mais inesquecível, e ouviu-me e eu ouvi-o e é magnífico.


Mas a Nena não vi.
Será que lhe vou ter de falar desta coisa de sangue que tenho da Babi para ela me perder o medo, e deixar que a musa necessária vingue (já não se fazem musas, não me deixam ter uma)?
Este foi o dia.

Queria agradecer a todos os portugueses,
em particular a uma Magalhães (que também fazem no feminino, sabiam?, e sublime, e tem a ver com a tal tarde literária, não com Azeitonas), um Miguel, dois Joões e uma Barbosa que se deseja mais opaca.


Agora andem comigo ver os aviões.

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