2009-05-15

nem surrealismo nem sexo (com bolinha)



Bolinha (nota prévia): é expressamente proibido ler este texto na tela de um Magalhães, tenha o leitor a idade que tiver; convém, igualmente, ter mais de 16 anos, porque a linguagem pode não ser compatível com o seu ideal de educação; os facilmente impressionáveis com honestidade erótica e palavrões, também devem abster-se.



Nem o Púcaro Búlgaro, nem o próprio Campos de Carvalho, nem Pacheco, nem Cesariny, nem Pessoa, nem mesmo o próprio Breton (que nunca poderia ser surrealista em português) podiam hoje salvar-te do teu problema. Queres fazer sexo com uma mulher brasileira. Não queres fazer sexo real. Muito menos surreal. Ainda menos virtual. Queres só fantasiar com uma mulher brasileira e atingir o orgasmo sem subterfúgios. Não te queres masturbar, e já cansaste dos amigos mesquinhos da Polícia do Pensamento que te segredam que não podes fantasiar sem ser infiel. Foi o Edson do economato que anteontem na sombra do teu intervalo para café a meio da manhã te disse Estás com fantasia no olho, devo avisar tua mulher?, e tu cuspiste o líquido negro e deixaste de fumar um cigarro porque apenas rugiste
Foda-se! Quando é que vocês renegam o cerco mental?
Não, meu caro, a tua erecção perante a ideia dos quadris de uma brasileira em tuas mãos não é rótulo de natureza canalha. É só hormonas e liberdade. O Edson é que anda procurando subscrição para a folha em branco do seu caráter ausente, tem de encontrar em todos os cantos um igual que desmaterialize a sua culpa e valide a sua traição. Ele nunca inteligiu limites, e a primeira vez que o pénis explodiu contra o ecrã quis convencer Deus e a sua própria cobardia que passara a fronteira, coisa que nunca fizera contra os azulejos do banheiro (que é igual), e foi correndo uma, duas, cem vezes para todos os nicks, e fodeu-os dentro da pele sem fantasia alguma. Edson é macho cobarde e sem caráter, tu não.
Acredita que não precisas do surrealismo para nada, também eles, a maioria deles, eram uma espécie de maricas afivelados de maneirismos, calões e incapazes de trabalhar os mais dos anos de suas vidas como gente séria, em busca do suicídio glorioso, fosse o tiro nos cornos ou a margem social.
Vamos então perceber: não queres sexo real, surreal, virtual, oral ou masturbação, mas queres uma brasileira em ti agora porque é o teu fetiche e uma das vias para a liberdade. Ok. Estás com uma erecção desde manhã e nem sequer a pediste. Não falaste em negar sexo escrito. Puxa então uma folha em branco e escreve honestamente
Ela tem uma camiseta branca e uma calcinha de fio dental preta que desaparece no centro das nádegas que o torno do divino carpinteiro fez em curva nos mais precisos cálculos da imprecisa engenharia humana. Está inclinada sobre a cama para que possas apreciar da cortina do teu pudor onde reside o rio e os afluentes da tua fórmula. Prenuncias os teus lábios sobre a pele eriçada, o sabor na tua língua, primeiro os teus indicadores sobre os mamilos endurecidos, depois as tuas mãos em concha sobre os seios em globo, mas não executas. Arrancas o tecido de musselina transparente que está no guarda-vestidos ou nos teus olhos e voltas a cobri-la quando ela já vai nua. Levantas o véu para o teu corpo passar por baixo do dela, de frente para ela, nunca a tocas, deslizas suavemente até a tua boca estar em frente à dela, carnuda, vermelha, os dentes brancos de pureza, mas não a beijas. Sentes a respiração, o cheiro a sal e a praia, a areia que caiu na colcha da cama por abrir do hotel, o bronzeador que te veda a formação de frases. Sabes que és parvo e inocente, até um pouco obtuso e palerma, mas sempre doce e honesto. Sempre foste.
Colocas a tua mão direita sob a orelha esquerda dela, a ponta dos dedos no pescoço empurrando tufos de cabelos brilhante, cruzas as respirações divisando sua língua esperando a tua, não trocas saliva, nada, só dizes
Eu vou entrar em ti logo à noite sobre os meus azulejos, vou só com o que tenho todo livre e sem romper trato de sangue, mas levo daqui o teu cheiro e o teu quase suor, a tua quase saliva, a tua quase vagina afogada, o meu quase esperma, os nossos quase movimentos arquejantes em viagens de acesso e regresso, levo daqui a nossa quase plenitude erótica sem nunca te ter visto na pele sem o véu de musselina.
E um dia, quando puderes mostrar os teus breves parágrafos de sexo escrito ao teu filho, para lhe explicares a diferença entre pornografia e decante do corpo, saberás que o teu único pecado foi ser livre pensando a quase totalidade, sem o subterfúgio de uma arte desonesta ou a desonestidade de uma pedra em bruto. Esculpe-te como pessoa de dezasseis milhões de cores e fala com a clareza do preto e branco.
Essa brasileira, na noite dos azulejos, no fundo do seu banheiro, foi a amante permanente do teu corpo, a fantasia consentida, a tua mulher (e os votos renovados).
2009-04-07, P. Guilherme-Moreira

4 comentários:

Juliana disse...

Muito bom, Pedro. Keep writing...:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Juliana. Não tenho outro remédio mesmo:). Está comigo.

Sabores Exclusivos disse...

Obrigada, Pedro. Sempre incrivelmente fantástica a tua escrita. Bem hajas!
Beijinho e dia feliz :-)
anacampelos

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado eu, Ana :)