2009-05-24

(Did you say it?) You changed my life (Did you say it?)

"This is it.
It might all be gone tomorrow."

Esta é a voz (estas são as exactas palavras) de Meredith Grey nos últimos e emocionantes momentos da quinta temporada da Anatomia de Grey, mas não é sobre uma série de televisão que vos quero falar, embora muitas vezes a ilusão seja maior do que a vida.

A cena dá-se com os acordes de "Off I Go", de Greg Laswell, em fundo.
Muitas vezes fica o piano sozinho com a nossa emoção. Gerimos situações limite de personagens que nos são familiares, que nos fazem chorar e rir.

Estremecer.

Municiam-nos os passos mais doridos da vida, resgatam um sorriso de um lugar em nós que pensávamos impossível, facultam-nos a lágrima que devíamos ter chorado muito antes.
As mais das vezes (e sabemo-lo), só somos nós próprios na intimidade e perante a ilusão.
Na rua, na vida, encapotamo-nos, como se a tempestade se eternizasse.

Independentemente da chuva emocional, não faz sentido que tratemos melhor as nossas ilusões do que as pessoas que passaram e passam na nossa vida e nos fizeram e fazem, quais rios de curso vago, correr num leito diferente.

Venham do passado longínquo ou do presente, é preciso que algo de extraordinário nos suceda para que as abracemos e lhes digamos o quanto gostamos (ou gostámos) delas?
António Lobo Antunes começou a dizer às pessoas o quanto gostava delas depois de ter sido salvo de um cancro. Ou começou a dizê-lo com frequência. Terá confessado o seu amor e admiração por mais pessoas no último ano do que em toda a sua vida anterior.
É possível não cometer o mesmo erro e ter uma vida menos literária, não é?

Quando Meredith pergunta "(Did you say it?) You changed may life (Did you say it?)" e o piano de Laswell fica a sós comigo (o pano descia), o meu peito enche-se de orgulho, e eu respondo sibilando entre dentes:

"Yes I did"

A praticamente todas as pessoas que conheço.

I often do.

Mas como não sou neon nem tenho brilho próprio, não tenho "star quality" nem banda sonora a acompanhar, fico certamente perdido em prateleiras simpáticas da posteridade, como uma foto que se tira de um álbum poeirento.

É esse o destino dos meus abraços?

Duvidarei sempre, até porque os desenho fechados, apertados, como as palavras que escrevo, e estas lanço-as ar fora sempre com a esperança de que andem a migrar entre os corpos.

Luminosas.


PS: fica um homem frágil por isso? Claro que não.

PS2:  A foto - plenamente dentro do contexto, para quem me conhece, documenta essa mesma dicotomia: a fragilidade do corpo é irrelevante perante a força do espírito

1 comentário:

Zingão disse...

Grande Pedro,

A sensibilidade é característica muito rara em "épocas" como as de hoje, mas é um bem valioso e raros que o têm.

Continua!! Sê feliz!!

Abç

Pedro S