2009-05-10

As dores do tempo

Ando cheio de dores do tempo.
A ver se as percebo nas próximas linhas.
Se as explico e o nó do peito se me desfaz.

Como já aqui aventei no "post" "As marés dos amigos de ontem", e depois de 25 anos sem nada fazer para rever velhos (e grandes) amigos e amigas, decidi deixar as promessas e as declarações de intenções para concretizar. Contactei, nos últimos cinco meses, mais de quarenta, entre conversas profundas, presenciais ou telefónicas, visões breves, olás doces ou enxutos como vais.

Estive, por isso, gravemente exposto à radiação da luz do passado de estrelas presentes.
Pior, estive sujeito a sofrer com o sentimento de culpa de ter estado ausente do sofrimento.

Como é isto? É precisamente quando ganhamos alguma autonomia dos pais e vamos para as Universidades ou para os empregos que viramos as costas a pessoas que nos acompanharam nos momentos mais íntimos durante 5, 6, às vezes 10 e 12 anos? Provavelmente os mais importantes anos das nossas vidas, aqueles em que ganhámos forma de gente? Amigos que nos sustentaram o choro, nos ampararam a raiva, nos partilharam os gritos e os abraços, nos acompanharam as gargalhadas,  nos quebraram ou alimentaram os corações?

Muitos dirão: é o curso natural da vida.
Ora, raios para o curso natural da vida! No curso natural da vida há pessoas que de nós dependiam que estão hoje numa solidão tremenda. E nós com isso!

É verdade: absorvemo-nos de tal forma no nosso projecto pessoal (académico e profissional), na parceria matrimonial, na paternidade, rodeia-nos tanta gente e tanto barulho nesses anos, é tudo tão novo e tão importante, a conquista do nosso lar, da nossa própria família nuclear, a morte dos avós e dos familiares mais próximos, tudo é tão absorvente que, quando decidimos que é hora de parar e olhar para trás, para os que ficaram (não necessariamente para os que passaram!) lá no fundo dos tempos, aqueles a quem nós confiávamos a vida e que nunca mais vimos, perguntamos a nós próprios:

Devo fazer isto? Posso fazer isto?

Perante estas saudades, que nalguns casos, quando desenterradas da camada subcutânea onde se suspenderam por mais de duas décadas, são poderosas, muitos respondem escondendo-se e fugindo. Poucos partilham. Poucos respondem. Poucos abraçam, muito menos abraçam forte.

Este é o primeiro sintoma da dor do tempo. Abraços que precisam de ser dados e não são.

O segundo sintoma, terrível, é o daquelas (poucas) pessoas que estão na nossa constituição química. Concluímos que, afinal, algumas delas fazem efectivamente parte de nós, sempre fizeram, sempre farão. E quando digo "parte de nós" não me refugio numa metáfora despida de sentido.
Quero dizer efectivamente "parte de nós". Da forma como ainda hoje sorrimos ou contamos piadas, olhamos ou escrevemos, beijamos ou fazemos amor.

Andei a tentar entender-me sem fugir para a frente. 
As pessoas que me doem, estas que me doem porque me lembrei delas e não posso revê-las, não podem morrer. Não podem morrer como não pode morrer o mais íntimo dos nossos. 

Às vezes, é alguém que não tem espaço para ocupar (no presente).
Uma paixão antiga, por exemplo, uma daquelas que nos alimentou em exclusivo durante muito tempo, anos, às vezes décadas. Pessoa passada que está dentro da presente, e que permanece parte de nós.
Espécie Matrioska emocional.
Quando somos felizes e amados no presente, a paixão antiga não pode ocupar esse espaço nem travestir-se de amizade comum.
Quando surpreendemos nela uma história de infelicidade (sentimos culpa por não a termos impedido) ou uma necessidade urgente de ajuda, a frustração é exponencial.

Chora-se de forma surda. Em hemorragia interna. Infinitamente.

Não há solução, nem é preciso que haja.


(Escrevi este post ao som de "O Vinho do teu corpo", dos portugueses Neruda, porque me apeteceu e porque ao ouvido é uma grande canção com uma grande letra, "Bebo o vinho do teu corpo,/ devagar como se a boca/ fosse uma flor onde o tempo/ desenha o mapa da vida." Estranhamente coerente.)

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