2009-03-10

Os cafés em carne viva


Uso muito esta expressão. Em carne viva. É talvez a forma como gosto que o tempo e o espaço se desdobrem em mim. Voltei aos cafés no ano da graça de 2008. Tinha-me esquecido de como posso ser terrivelmente produtivo a salvo do mundo à mesa de um café. Fiz o curso entre as mesas do Mandarim (hoje McDonalds), na Praça da República, em Coimbra, e a Pastelaria dos Olivais, mais ou menos em frente ao edifício velho da Faculdade de Economia, na Dias da Silva, sem esquecer as minhas fugas para o Porto de Quinta a Segunda, para namorar e estudar no Aviz. Agora é a escrita. Este ano, como não me posso dar ao luxo de escrever à noite e é impossível no escritório, procuro a algumas horas improváveis o Paredão-Bar, em Canide, e o Palhota, em Francelos, recentemente renovados. Quando estes, por alguma razão, não estão disponíveis ao tempo que para eles reservei, perco-me. É aí que sinto como não é a simpatia (bem pelo contrário) ou a empatia que procuro nos cafés, mas o espaço adequado que se funde com a minha respiração. Se é demasiado invasivo, demasiado exposto, demasiado familiar, demasiado silencioso, não fico. Se é abandonado, minimalista, sombrio, e suficientemente barulhento, deixo-me pelos anos fora. Assim se vá fundindo um pedaço da pele com a geometria do espaço e os gestos tácitos dos empregados de mesa. Os meus cafés em carne viva.

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