2009-02-17

TENHO FOME


Tenho fome,
estou doente da clareza das
palavras,
e palavras
dou aos outros sem urgência, e eles
ficam leves ou pesados

de mim,
e eu devasso sem peso.
Tenho fome,

fico nervoso, sou pobre

inquieto

por não ter saldo ou cuidados,

afogo

na torrente dos meus textos

enganos


meio mundo neste fato
e gravatas neste espelho,
e moléstia neste corpo.
É cara
a decência,
É vaga
a dormência

do escritor que não pode ser mais nada
E tem fome.
Tenho fome,

mas dói-me a ponta dos dedos,
não acho 
a partilha deste choro.

Tenho fome
e não sei se vou comer,
paguem-me os livros com sopa,
ou os poemas com água,
os autógrafos com carne,

deixem morrer o elemento

aparente, deixem morrer

o vocábulo, não

o homem, não

de fome.


Pedro Guilherme-Moreira
2009-02-17
 

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