2009-02-14

Acorrentados d'escrita? Pinto Coelho e os testemunhos memoráveis

Começo por dizer que foi uma sessão a todos os títulos memorável. Mesmo pelo que ficou por dizer, e que vem a latejar nas nossas cabecinhas. Mas eu ia falar, lá mesmo, ao vivo, tinha de falar, e já não tive tempo. Ora, a sessão termina praticamente com um testemunho emocionado e tocante de Paulo Teixeira Pinto sobre o seu filho recentemente falecido. Ele pediu para os jornalistas não mencionarem a questão, alegando que o filho não era objecto literário. Pediu mal, porque não compete a ninguém decidir isso. Não queria, não falava em público. Falou, marcou, deixou uma mensagem produto de longas, profundas e dolorosas reflexões, deu a ganhar a todos. E a marca indelével que o seu testemunho deixou, sendo vida, é objecto literário. Mas, não sendo jornalista, vou respeitar pelo menos o teor do testemunho, não sem antes dizer que a sua figura nunca me tinha despertado grande simpatia ou consideração. Questões frívolas, se quiserem, estéticas, de figura. Este testemunho trouxe-me essa consideração. A frase "A vida não tem mistérios, a morte sim" fica marcada em quem o ouviu. Mas se ele não quer aqui o conteúdo, não se põe. Mas o que eu queria realmente era falar do Carlos Pinto Coelho. Ao microfone, dir-lhe-ia que tinha lá ido essencialmente por ele, que bem o merece. Na minha humilde opinião, portou-se mal em duas ou três ocasiões, sendo uma delas merecedora desta crónica, mas nenhuma ofuscou o seu extraodinário valor e a forma empolgante com que resumiu as intervenções. Empolgante e bela. A sua humildade permitir-lhe-á, espero, reconhecer alguns erros importantes que cometeu. Não me vou alongar na forma paternalista com que tratou um escritor idoso que disse que tinha de sair para o lançamento do próprio livro, nem a rejeição do tratamento por "você" com um brasileiro ao lado. Falo do momento triste em que uma menina ou senhora da audiência insta Paulo Texeira Pinto sobre a morte do filho. Atrapalhou-se. Ela falou claramente no contexto da mesa, porque a morte acompanhava as intervenções desde o início. Carlos Pinto Coelho não teve a sensibilidade de deixar a sua experiência actuar, e quis alinhar no drama do burburinho que vinha da assistência. Triste e ofensivo da liberdade que ele tanto preza. A menina ou senhora simplesmente queria saber que palavras tinha ele para a morte de um filho. Perfeitamente dentro do contexto do tema: "Estou farto de palavras" (de um poema de Nuno Júdice). Umas velhas (verdadeiras velhas) atrás de mim começaram a esbracejar para o Paulo Texeira Pinto não responder, pouco faltou para pôr a menina ou senhora fora da sala, e Pinto Coelho não queria dar a palavra a Texeira Pinto, não fosse ele querer mesmo responder! Viu-se bem que ele se sentiu bem ao expressar ali o seu sofrimento, algo de inimaginável e incomensurável. Viu-se que quis prestar essa homenagem ao seu menino. E nós precisamos de quem nos ajude a enfrentar a morte assim. Para viver melhor a vida. Mas também precisamos de liberdade, e Pinto Coelho devia saber disso (não, a liberdade da menina ou senhora não invadiu a liberdade de Teixeira Pinto, como aliás também se viu - ele não se sentiu acossado, não verberou a pergunta, não comentou a oportunidade;). Estive para me levantar e sair nas barbas de Carlos Pinto Coelho (não posso admitir que se destrate assim uma pessoa), mas não o fiz porque preferi ficar para lhe dizer isto. Ele ainda vai a tempo de perder todo esse paternalismo e ficar só com a sua notável paixão pelas coisas bonitas da vida. Preferi ter ficado porque ele merece este e muitos mais descontos. E assim acontece.

PS: Todos os oradores foram notáveis, mas é bom destacar também a forma como Rui Cardoso Martins cumpriu a emoção de todos os que são apaixonados por livros, honrando a memória da sua falecida mulher Tereza Coelho, editora notável, e enfrentando a morte e o luto. Claro que, se algum espectador lhe tivesse feito essa pergunta, vinha tempestade... foi ele, de frente, com coragem, sem dar azo a especulações e sem censurar a experiência que as pessoas levaram do seus testemunho!

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