2009-12-31

O final de ano no temporal solar do meteorolgista corredor...

(Nota Prévia: este post tem um longuíssimo título e um curtíssimo conteúdo. Não assumimos a responsabilidade por quaisquer efeitos secundários:)

Título do Post:

"Final de Ano no temporal solar do meteorolgista corredor que hoje saiu para a areia pelas quatro da tarde debaixo de sol e debaixo de chuva e não pressentia que acabaria a pontapear tangerinas na crista das ondas de Myazaki ao tempo em que estas estendiam os seus braços de espuma na preia mar para lhe apanhar os pés ou até parte do corpo e assim dar cabo do ano por entrar de dois mil e dez, que o meteorolgista corredor prenuncia como o ano das urgências depois das longas paciências, e sabe que serão os trezentos e sessenta e cinco dias em que vingará ou morrerá, porque acontece que ele saiu para areia e não sabia que ia confundir um saco do lixo preto com um labrador a agonizar, mas isso é por não levar óculos, não sabia também que ia conhecer as tempestades de sal que são suaves e amistosas, e apesar de ele se chamar meteorologista corredor, o que lhe dá estatuto para discutir o tempo com os velhos sábios e quem raramente erra é ele, apesar de ele se chamar isto hoje quase errava o sentido do vento e da chuva, disse primeiro sudoeste, depois sudeste, mas mudou a tempo para noroeste por causa dos aguaceiros rápidos, tudo o que traz sol súbito vem de norte, afinal como ele próprio, o meteorologista corredor que passou o final de ano no temporal solar das tempestades de sal sobre a areia e até viu uma coisa espantosa, aquelas pedrinhas que no Verão nos magoam os pés junto à suave rebentação, sabem?, essas pedrinhas estavam hoje estendidas pela área espantosa de uma praia inteira até às dunas, e como ele corre de sapatilhas e estava a precisamente no fim da corrida, parecia uma espécie de céu chão, e foi um momento belo de anúncio de grandes entradas e saídas, e é por isso que ele resolveu escrever as seguintes palavras sob este título."

Texto do Post:

Um grande ano de 2010 para todos!

Foto: a minha oficina de escrita, hoje (agora) às cinco da tarde, do lado de cá das dunas, que o lado de lá é precisamente onde correu e corre previamente o singatário, sobre as ondas de Myazaki:))). Hoje fecha às 18h, e reabre às 23:30h.

2009-12-27

Levantamento de heterossexuais contra a (ou a favor da?) SportTV

Está bem, eu digo-o com todas as letras:
Ser "gay", sexualmente falando, não tem mal nenhum.
Mais complexo é explicar a pessoal que supostamente se acha de barba rija, feios, porcos e maus, que o seu canal favorito, que provavelmente estão a ver sempre que estão acordados, canal esse que sacrifica milhares de orçamentos familiares (e famílias) por esse país fora (só à conta dele, tenho fibra e tudo!), e torna os seus espectadores animais obtusos e desinteressantes, tanto como o pedreiro que só fala de pedra ou o carpinteiro que só fala de plainas, esse dito canal é, sem margem para dúvidas, um canal gay.

Tal ideia iluminou-se-me hoje mesmo, quando suportava por breves minutos um centro comercial, onde tive de ir fazer coisas que lá estão concentradas e saíram totalmente da rua, tomando café a assistir deleitado no ecrã gigante aos movimentos da Beyoncé no "Single Ladies" (que junto abaixo, para vocês perceberem do que eu estou a falar), quando o meu deleite é bruscamente interrompido pelo Chelsea-Cascos de Rolha FC (como habitualmente, sem peguntar, seja centro comercial ou cafezinho de bairro, é "óbvio" que o povo todo quer ver Sport TV, e que a parte feminina do povo agradece por ter os obtusos entretidos e calados, até porque alguns lhes acertam e bem quando não têm nada que fazer, e isto já não tem piada nenhuma).

Ora, nada tenho contra quem adora futebol.
Acontece que eu adoro cinema. Eis as razões pelas quais não estou todas as horas disponíveis de todos os dias, e dez horas por dia ao fim-de-semana, a ver cinema:
a) tenho mais que fazer;
b) vivo numa sociedade que exige um pedaço de mim em várias frentes, porque sou pai e marido, pelo menos, mas também amigo e advogado e escritor, leitor e voleibolista veterano, etc;
c) mesmo que estivesse na absoluta solidão, há coisas chamadas moderação e bom-senso.
d) há bilbiotecas e museus e mercearias e aldeias e serras e planícies e campo e cidade e outros deportos (pasme-se!!!);

By the way, também gosto de sexo, de comer bem, de beber bom vinho, ouvir boa música e de mais algumas coisas, if you know what i mean.

Acontece que também gosto de mulheres.

Ora, garanto-vos que, meus caros consumidores compulsivos de Sport Tv e quejandos, que se vocês gostassem um bocadinho de mulheres não passavam a vida espetados nesse canal gay eivado de homens.

Mas, e isto é importante que se diga, nada contra.
Sendo muito prosaico, como tem de se ser com qualquer obtuso, mais sobra, e melhor, e curiosamente num especial grau de assanhamento que muitos de nós, os realmente heterossexuais com a mobília devidamente arrumada, não desdenham.

Mas, por favor, não se queixem nem me tornem a trocar a Beyoncé pelo Drogba!

PS: não, eu não me esqueço que o resto do tempo vocês estão nos cafés mergulhados nos jornais deportivos, e que a vida não vos deixa tempo para muito mais, coitados.


2009-12-25

Retroversão Azeitonas


Era antevéspera de Natal e chovia copiosamente nas ruas do Porto.
A chuva parou e levantou-se o vendaval, dentro e fora do Passos Manuel.

O que, mais do que surpreender, perturba neste três rapazes que estiveram em cima do palco para o espectáculo intitulado "Ambos os três", é a capacidade de não se deixarem obnubilar pela fama.
Está bem, vão utilizando subrepticiamente todos os mecanismos de marketing existentes no mundo em que nasceram e cresceram.

Mas, neste mundo digital, viraram espantosamente analógicos.
Senão, vejamos:

O Marlon, que podia simplesmente exponenciar uma massa informe de chavalas a endeusá-lo, insiste, no seu ar dread de dandy desconchavado que se esqueceu de botar polainas, e por isso pegou na velha calça com camisa e meia de vidro até ao joelho (que jura ter descoberto recentemente, mas que obviamente faz parte da sua fatitota interior - a de dandy - ), aprendeu a tocar baixo. E tocou. E não tocou mal. E afinal é moço percursionista, e percute bem, ó se percute.

O Miguel, no seu ar dread (sim, eles são todos dreads, cada um na sua frequência:) de levantei-me agora mesmo e tive de vir para aqui porque estava a compor e a dedilhar as minhas guitarras dentro da alma e já nem sei como consigo sair da pele, estou magro e visto as roupas que tenho de vestir, porque eu sou dolorosamente artista e afinal nada me dói) é, todos sabem, um exímio guitarrista que envergonha qualquer virtuoso de letra, mas, acima de tudo, compõe este grupo ímpar, compõe sozinho ou em cima da carne do maior músico dos três, o Salsa.

O Salsa, ó o Salsa, bom o Salsa é sublime nas teclas, ele que não se põe a fazer recitais na Casa da Música, mas podia e sabia, infernal na harmónica (que tem depurado e depurado e depurado, como só os génios), mas não deixa de ser um dread da terra média entre o atinadinho das avenidas e o mozárte de Passos Manuel.

Ambos os três são - e é isso que ressalta da sessão de encerramento de 2009 no Passos Manuel - grandes músicos. E quem tem o atrevimento de se intitular fã deles saiu de lá com esse orgulho.

Deram-nos o o baladeiro galego Roger de Flor de adianto, e, se é certo que a música dos Azeitonas a que ele deu perfume e letra galega é de estouro, perto da excelência, Roger não é Azeitona. É um bom baladeiro, dedilha bem, mas falta-lhe aquele bocadinho assim. O momento em palco com o Marqués da Villa e ambos os três foi muito bom, isso foi, mas só foi.

A Nena, a diva, a voz feminina e doce por excelência, faz falta, sim, mas a intensidade da sua presença em palco poderia ter-nos feito perder a noção do quanto valem, em bruto, estes três rapazes. Queremos Azeitonas eléctricos, sim, mas este era o momento certo para vê-los a nu.

Versões acústicas que se desejam de volta de "Corre", "Salão América", "Café Hollywood" (gostei do novo teledisco no estilo anúncio Super-Bock caseiro, muito caseiro, muito íntimo, e gostei mais ainda da versão acústica) e, grandessíssimos atrevidos, do "Miúda" como nunca a viram, repleto de referências intemporais nas teclas do Salsa.

Eu gostava que o "Anda Comigo Ver os Aviões" com o Zambujo saísse mais coerente em disco. O mal, provavelmente, será meu, que sublimei a música nas gotículas do meu próprio suor tripeiro desde o primeiro segundo, mas sempre disse que esta belíssima balada kitsch era intensamente nortenha. Zambujo tem uma voz belíssima, e talvez valorize a música se cantar à velocidade do Porto, e for capaz de dizer totobola.

A que valorizou, e muito, foi a "Cantigas de Amor", que subiu dez degraus com o toque de Midas do António Zambujo. Uma grande voz.

E numa noite memorável fica também uma surpresa que raramente se tem:
não sei exactamente porquê, mas "Os Azeitonas" têm um público "íntimo" que sabe cantar. Foi quase desarmante ouvir o público cantar, em fundo ou em primeiro plano, com uma estonteante afinação e algumas vezes a duas vozes, como se tivessem ensaiado como coro em classe de conjunto, sem gritar, sem disparatar, sem espingardar.

Levo uns concertos na conta, e nunca tinha visto isto.
Estava lá no arrepiante "Porto Sentido" do "live" do Rui Veloso em 1987, e, se a projecção de um coro de milhares de vozes a sentirem o que cantavam se tornou inesquecível, não me lembro de nada tão subtil como o público desta noite dos AZ's.

Em resumo: se andam distraídos, convinha deixar a lua aqui.

"Os Azeitonas" devem ser vigiados de perto.
Miúdos simples para quem está sempre tudo bem, demasiado bem até (impressiona a descontracção, e eu não lhes posso pedir mais profissionalismo, porque gosto deles assim), perfeitamente desligados até à hora última, mas absolutamente empenhados e concentrados em dar excelência ao que fazem, que não tem igual neste país.

A Retroversão Azeitona de "Ambos os três" é um sinal de coragem e humildade.
Um passo atrás (não em termos de qualidade, mas de registo e sofisticação) para dar dois à frente só pode ser sinal de excelência.

E são amigos do seu amigo, estendem a mão, misturam-se, são pessoas, não estrelas vagas do vácuo.

Caso não saibam, ainda dão toda a música que fazem. Sem pedir nada em troca.

Eu vou ter de dar. Sempre.

2009-12-17

Clubite no divã

(Nota prévia: a expressão da semana, em termos futebolísticos, para que fique registado, é "dar minutos", certamente das mais belas de sempre, e que significa "pôr a jogar jogadores irrelevantes, porque o jogo é a feijões")

- Doutor, sou do Benfica.
- Parabéns.
- Dá-me uma raiva enorme quando o Porto ou o Sporting ganham.
- Interna ou externamente?
- Ambas.
- O que lhe dói mais?
- Penso que internamente.
- Aqui?
- Mais ou menos.
- Não é grave.
- É normal?
- É uma ligeira frustração, passageira, do género "não é desta que ganhamos pontos aos gajos?"
- Não. É forte. Fico deprimido, discuto com a mulher e com o filho, ou bato-lhes, se conseguir. É mais "Grandes bestas. Que sorte marcarem aos 50 minutos!"
- Mas aos 50 minutos nem sequer estavam perto de empatar ou perder...
- ...por isso mesmo. Só me vem à cabeça "no fim da primeira parte o Benfica estava mais longe...era tão bom, tão bom..."
- O Natal era melhor assim?
- Era.
- E no estrangeiro, presumo que queira sempre que percam.
- Sempre.
- Já viu de que tamanho fica sua pilinha nessas alturas?
- Vi. Ou melhor, deixo de a ver.
- Hum...
- É grave?
- Bom, grave não é. Quer dizer, não é se mudar de residência por uns dias, e aceitar um internamento temporário.
- É assim tão grave?
- Moderadamente. Posso ver se há vagas?
- Por favor, doutor.
- Estou? Jardim Zoológico de Lisboa?

Claro que esta breve palhaçada, e o respectivo diagnóstico, se aplica a qualquer adepto de qualquer clube, e tem menos piada do que o que parece à primeira vista.

Espero que quem assim sente e pensa se sinta suficientemente mal, depois de ler estas palavras.

PS:

Eu, portista, nascido na Sé, crescido nas Antas e em Gaia, com pai, irmão e próprio jogadores de voleibol no FCP, com filho sócio do FCP há dez anos, declaro:

- Faço questão que o Benfica ganhe hoje ao AEK, como faço sempre em qualquer circunstância ou embate com clubes estrangeiros.
- No Domingo, no Benfica - Porto, a minha única frustração é se meu FCP jogar melhor e perder ou empatar injustamente, porque essa do "não há justiça no futebol" é treta. Se perder justamente, é-me fácil a aceitação, e até a homenagem aos vencedores.
Que seja um grande espectáculo, e isto não é treta.

Espero que o desportivismo se pegue a alguns cobardolas de hoje, os que baseiam a sua coragem na agressão e no ódio aos outros, se esquecem da banalidade de um jogo, e ainda por cima vivem felizes com isso.

Red Bull? Erase! Insuportável bairrismo ou deslealdade?


(morte às crónicas longas!)
(hoje vai à moda do Porto!)

Eu sempre disse que no domínio dos princípios não tenho nenhuma dificuldade em responder.

Deslealdade, claro.

Ainda que se possa admitir, no limite da ingenuidade, que foi a própria organização da Red Bull Air Race a pedir a troca do Porto por Lisboa, e que António Costa está a ser rigoroso quando diz que "Lisboa nada teve a ver com isto", nem Governo, nem edilidade, nem Institutos, nem nada, se um amigo me viesse dizer

- Pá, desculpa lá, pá, mas os gajos querem deixar-te na mão e vir para cá, pá, o que é que dizes, pá?

Eu respondia-lhe:

- Vai-te f..., PÁÁÁÁÁÁ!

E virando-me para o lado, dizia: "E pensava eu que este gajo era meu amigo."

Ora, o problema é que isto se passa dentro de casa.
Somos o mesmo país, temos os mesmos interesses, mas Lisboa está rica e o Porto nem por isso.
Lisboa tem tudo, e o Porto nem por isso.
Esta invicta cidade inscrevera já no seu código genético as imagens deste raro espectáculo e teve três organizações irrepreensíveis.
Já tenho dito que um país moderno se vê pela forma como promove e trata as suas segundas e terceiras cidades.
Portugal, para mim, está visto.
O Porto é muito mal tratadinho.

Red Bull? Erase!

Créditos Fotográficos: Red Bull Air Race

PS: Abaixo, imagens para recordar:

2009-12-14

The moon in Tenesse in the moon

Tinha de escrever sobre duas peças de arte porque elas se complementaram, devidamente digeridas, dentro de mim.

Uma é sobre a memória e a sua essencialidade.
Outra é sobre a falta de memória e a sua essencialidade.
A primeira é o filme "MOON", de Duncan Jones , com a notável multi-actuação de Sam Rockwell, por quem poucos davam ate hoje cinco tostões que fosse.
A segunda é "Jardim Zoológico de Cristal", uma peça de Tenessee Williams, que o grupo "Ao Cabo Teatro" traz até nós, e como!


A primeira são noventa e tal minutos de fita densa, dura, que nos perfura.
Não o aconselho a todos. Só a quem quiser reflectir mesmo.
Se alguém vos disser que não importam as experiências de vida, o palpável, o empírico, mas que a memória é tudo aquilo de que somos feitos, ou seja, se um trauma, um filme, um processo psicológico, uma doença, a publicidade subliminar, as lavagens escolares ao cérebro, nos colocarem memórias, por falsas que sejam, no cérebro, isso é tudo o que importa...
...se alguém vos desse a escolher entre vinte anos em coma, vindo a ser felizes com memórias induzidas, e vinte anos acordados, mas vindo a ser infelizes por perder todas as memórias numa doença degenerativa, o que prefeririam?
A verdade é que "MOON" responde por nós, actua sobre nós como esses processos subliminares: saímos do filme cientes de que tudo o que somos são memórias, nada mais. Se fecharmos os olhos enquanto fazemos amor e um outro braço se intrometer sem que saibamos, se beijarmos esse braço, a mulher com quem estávamos ficará para sempre com esse sabor e essa textura. E, afinal, nenhuma das duas existirá.
Não importa o que se é, mas o que se lembra que se é.


A segunda são cerca de duas horas de excelência teatral, com a actriz Maria do Céu Ribeiro a destacar-se de um curto elenco, que lhe fica a dever pouco. A encenação do Nuno Cardoso, que me é tão familiar, o sublime cenário, tudo é adequado a uma experiência intensa, certamente inesquecível.
Mas aqui já me intrometo nessa mesma questão, a memória, porque aqui pressinto que se pede, se clama, pela ausência dela, estas pessoas banais com uma vida banal seriam mais felizes se se esquecessem, se não valorizassem tanto as linhas condutoras das suas vidas, se não marcassem de forma indelével cada momento doloroso.

Se a mãe, se o filho, se a filha, se o candidato, se esquecessem, seriam mais felizes.
É, pois, uma abordagem que vai para lá da denúncia da solidão na aparente comunhão social.

Ensina-nos a não viver manietando quem acorda connosco todos os dias, a não valorizar certos detalhes das nossas vidinhas sem uma visão do globo, e, em contraponto, a realçar o detalhe do belo, cada detalhe do belo, como valor universal.
E a peça aconselho a todos.
No calor da Churrasqueira do Heroísmo, ali a dois passos do Estúdio Zero, no Porto, onde consegui jantar como se estivesse em casa, no calor da antecâmara do palco, onde esperei deliciado com as pessoas que tinham vindo ao mesmo que eu...como se estivesse em casa, e sentado nas confortáveis cadeiras azuis do Estúdio Zero, estive sempre como se estivesse em casa, e Tenessee trespassou-me com as frases limpas que nos dão forma ao ser.
Na continuidade da arte, aqui de um filme e de uma peça de Teatro, não há rupturas, clivagens, mas a sabedoria do olhar interior, sabemos que não morremos estúpidos, parecemos mais nós e saímos mais de nós, parecemos mais de todos e saímos mais de todos,
somos afinal de tudo.
PS: o filme ainda anda nas salas, a peça ainda tem exibições para Sul:
Teatro Aveirense, 19/12;
Teatro Taborda (Lisboa), 6 a 16/01;
Teatro Municipal de Portimão (Portimão), 23/01;
Teatro das Figuras (Faro), 30/01

PS2: no cinema (televisão) nota, hoje, para o 38º aniversário de Natascha McElhone, a diva de Californication;

2009-12-11

Augusta Carrilho é o primeiro ser humano da Zon(a)

...em doze anos e meio.
Não conheço, não sei de onde veio nem para onde vai a Augusta Carrilho. Sei apenas que me conseguiu prestar um serviço de atendimento de excelência, como nunca me tinha acontecido.

Há muito, muito tempo, quando comecei a negociar com as operadoras de comunicações, televisão e internet, uma parte de mim morreu.

E aquilo que é um prazer a nível profissional, como advogado, que é dar-lhes cabo da canastra, um jogo, confesso, em que a competitividade é reduzida, dado o chorrilho de asneiradas e abusos que são praticados todos os dias, mas que se torna impossível para qualquer leigo, enredado desde cedo na teia da aranha que o armazena para posterior deglutição (as pessoas até podem ser lúcidas, mas não têm armas, as mais das vezes, para se libertar da teia burocrática e hierárquica que é armada, mesmo dentro das empresas), dizia, aquilo que é um prazer a nível profissional, o combate, é um inferno a nível pessoal, quando o que se quer é um produto com a máxima qualidade e rapidez, e o mínimo preço (coisa que não existe, mas é nossa obrigação persegui-lo).

Claro que os poderes públicos, parcialmente comprometidos, coitados, porque a maioria deles tem famílias alargadas e acaba sempre por ter uma pessoa amiga num lugar qualquer (não têm culpa, o que hão-de fazer, uma pessoa tem de se desenrascar!), pouco fazem para sanear a vergonha do cenário contratual e técnico do sector. A família Com, a da Ana(Com), se não come, e acredito que não coma, do bolo que há escondido para o festim de alguns, limita-se a certas acções, que, por causa das infinitas omissões, mais não são do que areia nos olhos.

E então ontem, quase treze anos depois, falei com o primeiro ser humano não automatizado de todas as operadoras.
E eu, que não sou propriamente um gestor mas também não sou parvo, diria que o que se pretende de uma funcionária que está num Call Center é o máximo de eficiência no menor espaço de tempo.
Pois ontem a Augusta, num dos telefonemas mais breves que tive para uma operadora destas, respondeu-me de forma perfeitamente límpida e profissional a questões comerciais e técnicas que andava há meses para esclarecer, e muito mais tempo me fizeram perder, nunca usou expressões como "Obrigado pelo seu contacto", "Obrigado por ter aguardado", "A Zon agradece o seu interesse" e coisa abjectas do género, daqueles que o Zé da esquina apelidaria como a "fraseologia do estão-me a f... e eu a ver".
Mais, interessou-se pelo local onde eu residia ou trabalhava, mostrou conhecimento geográficos, enfim, foi uma pessoa inteira, coisa que nunca antes eu tinha encontrado numa empresa destas.

Por ela, e não fosse o azar de não haver o produto que eu pretendia na minha zona, eu tinha ficado numa empresa sobre a qual tenho sérias reservas (mas cuja hipótese admiti, por, numa breve investigação, verificar que todas as empresas desta área têm um nível de queixas gigantesco). Graças a ela, a Zon tinha ganho um cliente.

Eu imagino os chefes de muitas destas operadoras de call center, como os chefes de tanta gente que trabalha numa linha hierárquica neste país, a pressionar para um eficiência de números, de chamadas em bruto, ignorando que têm ao seu serviço seres humanos com necessidades, fragilidades, mas também força e competência, que pode sobrevir caso haja sensibilidade a cada caso, e não seja tudo tratado como uma grande manada.

Não sei se o chefe da Augusta Carrilho é decente, ou se, pelo contrário, ela é a única responsável por atingir este nível de excelência. E não vou dizer que ela tem valor para estar bem cima do posto que ocupa, porque são precisas pessoas assim naquele trabalho.

Sei é que, graças a ela, uma marca fica reabilitada:
doravante terei a esperança de a encontrar de novo, a ela, a alguém como ela ou quem ela venha a formar ou chefear.

Era bom que ela tivesse o prémio merecido, porque eu já tive.

2009-12-06

Mister 3D Zemeckis

Não sei ainda o que nos vai trazer "Avatar", do James "King of the World" Cameron, a estrear no próximo dia 17 de Dezembro deste ano da graça de 2009, e que dizem atirar a nova geração 3D para uma outra dimensão. Veremos se são promessas vãs. A verdade é que eu e o meu filho (sim, eu e o meu filho de dez anos; sim, estou a viciá-lo em cinema desde os 3 anos, algum problema? Sim, cinema mesmo; Sim, o rapaz dá-me uma abada na saga Star Wars, e depois?), presentes no pré-visionamento do Avatar, e tirando um ou outro problema de fluidez de imagem (característico de todo o novo digital, televisões incluídas) ficámos impressionados. Resta saber se os quinze minutos de trailer eram só para inglês ver.

Pois não sei o que nos trará o futuro, mas sei o que nos traz o senhor que a ele regressou: Robert Zemeckis.
Quem viu Beowolf caiu na asneira de dizer aos amigos que o novo 3D era aquilo, emocionante, experiência ímpar, mas a verdade é que nenhum outro filme desde Beowolf se tinha sequer aproximado da excelência de Zemeckis, que domina, mais do que a animação, o 3D. É produtivo, esplendoroso, sem ser exagerado.

Ora, "UM CONTO DE NATAL"(clicar para ver o trailer) eleva a fasquia, e muito.
Quem pensa que é filme para crianças, está bem enganado, e pode deixar em casa os miúdos mais impressionáveis. Aquilo assusta a sério, cola-nos à cadeira, mas o que faz mesmo é encantar, encantar profundamente.

Não percam a entrada do filme, o voo sobre a cidade. Brutal.
Este é daqueles em que não vale entrar quinze minutos atrasado. Não compensa o desperdício.

Para já, Zemeckis, os seus animadores e sonoplastas, são os únicos a saber verdadeiramente o que fazem. Uma experiência de muitas estrelas, certamente mais do que cinco, e, vão por mim, se algum crítico lhe dá menos, pura e simplesmente ignorem-no.

Encontrei há pouco um amigo a sair do cinema, e por ele me lembrei que tinha de escrever isto.
Ele, que é muito contido e expressa as emoções com dificuldade, vinha pálido.
Agarrou-me os colarinhos e ordenou: "Tens de ir ver este filme."

Já tinha visto, mas sei bem o que ele estava a sentir.

Imperdível mesmo (e, por favor, meninos e meninas crescidos que dizem não gostar muito de animação, por uma vez, ponham esse preconceito de lado e depois contem-me se este filme não vale, em termos de espectáculo, emoção e argumento, mil 2012's!) !

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Ah! Grande, grande, grande trabalho do Jim Carey em várias personagens, emboram me tenham dito que a versão dobrada em português está muito boa (temos excelentes equipas a trabalhar em dobragem);

Cinema é Lisboa, o resto é paisagem

Acho curioso que chamem província ao país menos Lisboa, quando afinal o que é provinciano e sinal de pequenez é o centralismo bacoco de quem pensa que fora da área metropolitana da capital é tudo um bando de crentes. A saúde de um país também se vê pela forma como ele trata as cidades e os cidadãos periféricos. Eu até aceito que a chuva e os sotaques fiquem todos a Norte, e seria redundante estar aqui com paninhos quentes a dizer que Lisboa é uma linda cidade e blá blá blá, porque afinal qualquer pessoa com um palmo de testa se está cagando para essa coisas. Somos todos, certamente, orgulhosos portugueses, e, cada um para seu lado e sem que nunca as paixões possam ser inibidas, alfacinhas ou tripeiros, lampiões ou portistas, provavelmente até com as cidades trocadas, não importa.

Agora o que me irrita profundamente é quando certos senhores pensam que só em Lisboa é que se podem ver certos filmes, e se esqueçam de os distribuir no resto do país. Ao menos no Porto! Ao menos no Porto. E nem sequer falo de filmes "alternativos". Não.

Isto acontece amiúde e envergonha-me.
50% das estreias desta semana, nomeadamente "Coco Chanel e Igor Stravinsky" e "A nova vida do senhor O'Horten", aconteceram só em Lisboa (clicar sobre os nomes dos filmes para os trailers).

Como frequentador habitual das salas de cinemas, esta semana, pura e simplesmente, não havia filme decente para se ver, e, se noutros tempos, sob desespero, eu entrava na primeira porcaria que me parecesse suportável, nem morto me apanhavam esta semana no telefilme com argumento baseado nos livros da senhora ministra da educação, aquela que "alça" sorrisos repentinos para conquista da nossa simpatia.

Chegar ao jornal e não encontrar qualquer dos citados filmes em cinemas do Grande Porto revolve, verdadeiramente, o estômago.
Um, ao que dizem, é um excelente e saboroso filme norueguês, raridade por estas paragens, e o outro francês (realizado por um holandês), cujo tema me interessa particularmente (a primeira parte do século XX) e em que debuta uma, também ao que dizem (porque eu não sei; como poderia?), promissora e belíssima francesa chamada Anna Mouglalis (na foto).
Foram-me miseravelmente usurpados porque as 78 (!) salas do Grande Porto não chegaram para que os Lords of the Portuguese Cinema se decidissem a estrear cá uma copiazinha que fosse.
Posso mandar-vos ir ter vergonha na cara?

Então ide.


Créditos Fotográficos aqui

2009-12-05

Vinho Lilás

A árvore lilás que dá vinho lilás e me vem acompanhando a embriaguez desde que deixou de ser etílica - nos loucos tempos de estudante -  e passou a ser mental e sentimental, esse arrebatamento de que vos falo sempre. Entreguemo-nos a tudo o que nos arrebata agora mesmo, perante a inspiração de Jeff Buckley e Lilac Wine e o dashing men and women deste clássico, e já falamos:



"Lilac Wine" é uma canção escrita por James Shelton (letra e música) em 1950. Teve "covers" de Eartha Kitt (1953),  Judy Henske (1963), Nina Simone (1966), Elkie Brooks (1978) e esta mesma, de Jeff Buckley, no seu álbum "Grace" (1994) - e ninguém me convence, nem mesmo os puristas, que não foi na versão da Elkie, e não da Nina (como dizem) que o Jeff se inspirou. É que Elike seria sempre "out", e Nina sempre "in". Depois disso ainda foi cantada ao vivo por Sarah Slean em 1997 e no álbum de estreia de Katie Melua "Call Off the Search" (2003). Em 2006 foi usada como banda sonora do filme francês "Ne le dis à personne", e mais recentemente é trauteada por mim em plena corrida, por não conter em mim ou no meu mp3 a sublime expressão de embriaguez de Jeff Buckely (que, como sabem, morreu afogado com 30 anos no Rio Wolf, afluente do Mississipi).

É, necessariamente, uma grande música.

Créditos Fotográficos: Dave Nietsche

PS: Quem quiser ouvir outras versões, clique pf nos nomes: Nina Simone, Eartha Kitt, Elkie Brooks,  Katie Melua

PS2:

I lost myself on a cool damp night
I gave myself in that misty light (small g)
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see (may be better to say "What I wanted to see"
and be what I want to be
When I think more than I want to think
I do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here? (is coming)
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine, I feel unsteady, where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac Wine, I feel unready for my love,
feel unready for my love.

2009-11-20

Les petites "merdas" (salvo seja) et la frivolité - gajismo, ciclismo e golfe

Não estás bem a ver a cena!

Sabes aquele rotunda na praia? Uns metros antes, estava uma gaja estacionada numa Mercedes, ou a Mercedes estacionada nela, eu estava pr'aí a trinta metros, a tipa arranca de rompante e corta-me  a trajectória.

Dasse, pá! Disse-lhe tantas! Mas ainda não acabou, queres ver? A tipa segue como se nada fosse, a trinta à hora, e eu eu cheio de pressa. Dois quilómetros à frente, eu ainda atrás dela, acelera para a estonteante velocidade de SASSENTA (60) quilómetros, mesmo ao pé dos semáforos de controlo de velocidade, e aquela merda fecha.

Ó pá, não aguentei. Saí do carro, cheguei-me ao vidro dela, a gaja olha-me d'alt'a baixo, pá, e.. arranca!

(Estava verde?)

Estava, pá, mas a questão não é essa...dasse...

(continuei a tomar o meu café e a observar uma japonesa grunge a ver-ser ao espelho na montra do restaurante)

Depois fui para o trabalho pela marginal, e rai's parta o trabalho ao Domingo, rai's parta o povo, aquela m... é o hipermercado do relax. Agora tudo tem as suas sapatilhinhas de marca, os seus calçõezinhos de marca. E ainda dizem que há crise. Tudo a fazer o seu joggingzinho. Que irritação, pá. Nâo se encontra um lugar, e vais em filas de quilómetros, com os azelhas como a gaja da manhã a desfilar.

(Se sabes disso, porque é que não vais por cima?)

C...! Não tenho direito, como os outros? Vai-te f..., pá!

Mas ouve, o problema não é esse.

O pior de tudo são os ciclistas, aqueles cilclistazinhos irritantes, todos equipadinhos, com mochilinha junto ao corpinho, o capacetezito afiveladinho, e depois andam lado a lado, três a três, quatro a quatro. É uma praga.Dia e noite!

(Uma verdadeira praga.)

Gente sem escrúpulos, que só se quer exibir.

(Ora bem!)

Pá, hoje não aguentei, Pedro!

(O quê?)

Pá, fartei-me de buzinar a um grupo de três e os gajos nem se mexeram.

(e depois?)

Pá, dei um encosto a um com o carro.

(E...?)

O gajo caiu sobre os outros. Fartei-me de rir, pá. Mas depois vi um deles com um papel e uma caneta, aqueles coninhas até levam papel e caneta para fazer exercício...

(isso e lanternas, e água, e telemóveis e tudo!)

Pois...pá...virei logo na primeira rua, mas o gajo apanhou-me a matrícula e tenho aqui isto.

(Mostrou-me uma notificação do Tribunal, pôs as mãos na cabeça, encolheu a virilidade )

O que faço, pá?

(Diz-me uma coisa. Esqueceste-te de opiniar sobre os coninhas que jogam golfe,  e dizem que não há dinheiro, que até é um vício barato, três contos de rei e dão uma voltinha ali no Fojo, são três bilhetes de cinema, mas está bem, não te irritam estes?)

Nem me fales!!!! Não imaginas o que tenho de aturar. Alguns até levam os filhos. Apetecia-me pô-los a todos contra uma parede e rá-tá-tá-tá-tá!!! "Xauzêscu"!

(O palerma nem sequer tinha reparado no meu Sand-wedge com um loft de sessenta graus no banco de trás do carro, perfeito para lhe aquecer aquele rabo. O meu filho de doze anos chegou com o putter e nós despedimo-nos dele. So long, sucker.)

Ó! Ó! Queres ver? Fuôd..................O qu'é qu'eu disse???????

(C'est mon petite "merdas" privé, que je torture tous les matins.)

(PS: Vendo bem as coisas, não sei quem serão os maiores palermas:)

Esta cena é ficcionada, não vá a porca torcer o rabo

Créditos fotográficos aqui

2009-11-17

Alienados - os pais, os filhos e os filhos da puta

Quero dizer algumas coisas de forma muito rápida e quero dizê-lo com as letras todas.
Tratar de filhos de pais em crise não é para qualquer um.
E já nem sequer creio que seja questão de formação.
É, sim, de sensibilidade, ou, mais do que isso, de vocação.
A notável reportagem de Miriam Alves, Pais e Filhos afastados na Guerra do divórcio, com vídeo embebido ao centro deste post, sobre a Alienação parental, é um trabalho superior, não porque a repórter tenha cumprido o cânone do melhor jornalismo, mas porque actuou com sageza com todas as partes, soube perguntar, mas, principalmente, soube calar-se e ouvir, coisa tão rara, tão rara, mas tão rara na selva mediática, que praticamente já não existe.
É, afinal, tão simples perceber onde está o problema, e quem é o problema. Não são as crianças, isso é certo. Mas há sempre um filho da puta. Um elemento filho da puta, a bem dizer. Seja uma pessoa ou uma coisa. Seja um dos pais, ambos, ou a lei, que os obriga a tanta coisa mas não os obriga a ser mediados em paz.
A Miriam actuou com o que tem no coração. Eu, como advogado, actuo precisamente assim neste campo, e não há outra forma de trabalhar. A lei, aqui, deve ser relegada para os fundilhos. Quem a ostentar à cabeça, perde todas as partes. Perde tudo. Dá cabo de vidas, muitas vidas.
E, por mais que se faça, por mais que se trabalhe em prol da felicidade dos meninos e meninas (não me compete trabalhar pela felicidade dos pais, nem que sejam eles os meus clientes; eles que se tratem, como adultos que são; o meu cliente é sempre, apenas e só, a criança, e é ela que devo proteger, e enquanto ela estiver feliz e protegida, os pais, mesmo em crise, estão felizes e protegidos; não existe isso de proteger os interesses dos pais, "apesar" das crianças!!!), se um só dos elementos forenses do processo, seja o colega da outra parte, sejam os magistrados, não tiver essa capacidade e esse coração, o processo torna-se rapidamente uma papelada exasperante e insolúvel.
A Miriam fez-me chorar. Penso que é inevitável chorar quando se vê perante os nossos olhos aquilo que dizemos e por que lutamos há tantos anos. Foi também por isso que fiquei esmagado aqui ("O Troféu"). Não por ser um incorrigível lamechas, mas por causa da merda de certos princípios inabaláveis que não me deixam enriquecer como (quase) todos enriquecem neste país quando deitam a mão a profissões que lidam com o poder ou com a fragilidade do ser humano. Será a despropósito dizer que a máquina nazi se alimentou da mesma comida? Não é.
Pensam mesmo que o que se passa na regulação do poder paternal em Portugal é só mais um azar de um país remendado, pensam?
Não é. É das doenças graves que devora as fundações deste país.
Que ninguém seja capaz de a ver com a importância que tem, é assustador.
(continua abaixo do vídeo)

Reportagem de Miram Alves, Pais e Filhos Afastados na Guerra do Divórcio (43 minutos)
(continuação)
Direito Preventivo é qualquer coisa de nova em Portugal. Os profissionais do foro pensam que sabem o que é, mas nunca houve verdadeiros contributos para os fundamentos teóricos desta "ciência" (chamar-lhe "advocacia preventiva" é, não só redutor, como é não saber o que se está a dizer), e esses contributos são tão miseráveis que este pobre "paper" ("Sucesso na Horizontal") que escrevi passa por ser do pouco, quase nada, que se encontra em português.
Mas se Direito preventivo é uma coisa nova, Direito Preventivo da Família, então, é alienígena.
As pessoas sabem que, como advogado, a única área em que nunca quis intervir foi o divórcio litigioso, precisamente por considerar que o comportamento de todas as partes processuais excedia, em regra, o razoável, e arrastava-nos a todos para um lama kafkiana que a anestesia da rotina obnubilava.
Ora, recentemente, chocado como estava com o facilitismo das leis do divórcio (falo do "mútuo consentimento"), em prol de uma liberdade irresponsável tão em voga na nossa sociedade, deixei de os fazer assim, em dois dias (sem filhos), ou num mês (com).
Passei a implementar os ensinamentos de uma vida a compor e a mediar, a ensinar estagiários que o advogado se deve afastar do Tribunal, porque não é o seu meio natural, e porque no tribunal tem de lidar com tantos factores externos e imprevisíveis que garantir o que quer que seja ao seu cliente é um exercício desaconselhável de adivinhação.
Passei a ganhar muito menos dinheiro, mas a taxa de sucesso é brutal, e quando falo de sucesso falo, numa primeira fase, dos divórcios que não avançam, e, numa segunda fase, dos que avançam em paz.
A cultura e o poder em Portugal estão cheios de gente gorda (de vaidade e egocentrismo) e obtusa (definição de obtuso: o iluminado sem humildade), e, como vejo por conhecidos meus que agora andam na linha da frente, engole ou afasta os melhores, porque esses, os melhores, acabam por concordar que, para implementar o seu brilhantismo nos meios políticos, têm de jogar pelas regras vigentes.
O problema é que depois se esquecem, e desabafam que é tarde demais, e afinal até estão tão bem.
O índice do sucesso em Portugal ainda é a luz artficial, não a decência.
Estamos cheios de alienados.
(que fazem tudo para que sejamos nós, os que os apontamos a dedo, os doidos varridos;)
Créditos Fotograficos aqui

Novas da Praia outonal (repórter Bachelard)

Dois dias de chuva e o regresso à filosofia de Bachelard.

Seria possível uma vida coerente se a estação onde apanhamos o comboio mudasse de lugar todos os dias?

Nas praias de Gaia as ribeiras que desaguam no mar mudaram de curso, a fúria da água rasgou novos afluentes, deitou pontes e passadiços de madeira abaixo, descobriu centenas de rochas, muitas guardas de bambu de protecção às dunas estão por terra, o lixo acumula-se na segunda linha de praia, basta olhá-lo um minuto para perceber histórias inconfessáveis, sapatos, comida, bacias, cigarros, e não há engenheiro ou arquitecto que resista a uma chuvinha mais viva.

Está sol de novo, e as aves voam sobre as ondas.

Bachelard e a física quântica foram hoje correr sobre a areia.

Créditos fotográficos aqui

2009-11-15

Lobomago Sarantunes na intimidade

Não. Não conheço nehhuma Sara Antunes.
Para os mais estúpidos, Lobomago Sarantunes é um fusão não apostrofada do nome de dois escritores lusos (como gostam de dizer os brasileiros) residentes em Lanzaboa (não é preciso explicar esta, pois não?).


Confesso:

a minha pena tem galgado ondas melodramáticas de fazer chorar os paralelos das velhas ruas portuguesas, e eu estava convicto de que viria aqui escrever uma crónica épica que me exaltaria o ego e passaria simultaneamente a servir de apelo à paz interior de Lobomago Sarantunes.

Mas este nome fundido não me deixa espaço para tal.

Porque me faz rir.


Como eu não sou o Ricardo Araújo Pereira, embora tenha 1,93m (e eu aposto que ele não passa o metro e noventa e dois), como ele diz que tem, sei que não esperam que vos faça rir.

Seria de mau gosto.


Reflictamos:

costumamos ver Lobomago Sarantunes rir?

A sua parte esquerda sorri, a sua parte direita mostra os dentes ao Mário e à Judite em momentos de comunhão. Mas não ri.

O problema é que, antes de escrever este pobre contributo para a essência como a vejo, fiz um busca de textos recentes sobre o mesmo tema, e, excepto um que não é excepção (porque utiliza o calão para tentar parecer boçal e suave, mas acaba por tirar conclusões tristes), todos são iluminados, omniscientes e sentenciam.


Ora, a minha única hipótese de ser ouvido é assumir a minha burrice.

Não tenho qualquer cultura literária. Li Proust, Saramago, Tolstöi, Conrad, Lobo Antunes, Sándor Márai, Primo Levi, Dag Solstad, mas não tenho a mínima noção do que sejam, porque o que eu próprio sou não é suficiente para os arrumar em caixas lacradas.

A minha mulher diz que tenho sonhado alto e em fluxo alegórico de consciência, e que está preocupada comigo, incentivando-me a ler coisas mais leves, sobre vampiros, por exemplo.


Por isso, o meu único estímulo para escrever estas palavras é este:


Falar da intimidade de Lobomago Sarantunes.


Sou o primeiro escritor a falar de dois outros escritores lusos sem ser em conferências, encontros literários ou workshops, sem dever nada a político algum (sequer favores) e sem ter agenda.


Confesso, já que falamos disso, que gostava de organizar uma tertuliazita de escritores, mas estou a descobrir a forma de o fazer de forma autêntica e descomprometida numa aldeia de que nunca ninguém tenha ouvido falar.

Mas há uma condição primordial (minha):

que percebam que, na intimidade, nem Saramago nem Lobo Antunes estão particularmente preocupados com esta lenda urbana criada em torno deles pela baba mediática.


São suficientemente maduros e sábios - e falo dos homens e não dos escritores -, particularmente cientes da mortalidade e das coisas efectivamente importantes da vida para se não estimarem como seres humanos, ainda que não se respeitem como artistas.

Eu costumo olhar para os homens pelos olhos quem os ama.

Se não se acossa os solitários, muito menos se deve afrontar os amados.

Lobo Antunes por filhas e mulheres de sua vida, Saramago por Pilar.

Assim sendo, nenhuma frivolidade pode abalar rochas impermeabilizadas pela erosão do tempo e pela carícia das ondas que foram e vêm.


Ambos, obviamente, desprezam os palermas que tentam opiniar sobre o inopinável.


Consta que estes homens se desprezam e que nem vale a pena tocar-lhes na lapela com o carinho vigoroso dos velhos amigos (não por sê-lo, mas por sabê-lo), e dizer-lhes que há um país que os gerou e eles próprios vão gerando e os tem como as suas pernas direita e esquerda,
ou um insignificante escritor subterrâneo, moi même, os teve como mão direita e esquerda, e como já não usa pena mas teclas, e escreve com as duas mãos, sabe que Saramago está do lado esquerdo do teclado (só tem de ir buscar o eme com o dedo médio da mão direita), e Lobo Antunes do lado direito (só tem de ir buscar o á com o anelar, o tê com o indicador, o é e o esse com o dedo médio da mão esquerda),


sabe mas é irrelevante, o que importa é que começou a escrever com o fluxo de consciência de Lobo Antunes e as alegorias e frases limpas de Saramago, e se hoje parte temerário e temeroso para outras paragens, deve-lhes a unidade e a coerência que não se exibe sob holofotes nem se vende em lado nehum.


Lado nenhum, livro nenhum.

Já me disseram que eles de mim não querem saber, mas eu não acredito.

A sabedoria dos homens, não dos escritores, não o permite.


Como bandeiras de uma certa modernidade da nação, e como me parecia ridículo convidar o Cristiano Ronaldo para vir falar de literatura e da forma de voltar a olhar para quem escreve bem, e não só para quem vende bem, vou tentar:

Zé, António, de que forma poderemos dizer ao simplismo impresso que os homens não cabem nas folhas dos jornais nem nos ecrãs de televisão, e que os escritores não são barras de sabonete?


Subterrâneo,

2009-11-09

Tretas! (Ebook reader, um mês depois: tão bom como os outros)


Um mês depois, dou conta da minha experiência de integração de um leitor de ebooks nos meus hábitos diários.
Com eu esperava, a maior parte do que se tem dito e escrito por aí é um chorrilho de disparates e muita treta.
O que acontece à maquineta, que por acaso é leve, prática e anda no bolso dos casacões?
Para quem gosta de ler, é muito simples: é só mais um tipo de papel.
Agora, em vez de ler SÓ revistas e livros, passei a ler ebooks.
Ou seja, é só mais um.
Deixei de imprimir a maioria dos textos (os mais longos, os que exigem mais atenção), grande parte da internet, e tenho a vantagem de não gastar papel e tinta e de, ao mesmo tempo, ir lendo essa papelada toda sem parecer papelada, mas sim um suave e gentil livro.
Muitas vezes não nos apercebemos da quantidade de páginas que temos de ler na net, e do tempo e cansaço que isso representa.
Aconteceu-me recentemente: tinha de ler cerca de dez testemunhos em vários "sites", e adormecia todas as noites em cima do computador. Quando me lembrei de os passar para pdf, e para dentro do ebook reader, passei a ler os textos com todo o vagar (e prazer) e nos tempos mortos. E, espantem-se, aquilo equivale a mais de 80 páginas que, no computador, pareciam meia-dúzia. Fixo melhor o que estou a ler, tiro notas, etc.
E, last but not the least, fechar um livro demora tanto tempo como desligar a maquineta, mas abir demorará menos, embora a dita dispense marcadores, porque abre precisamente onde deixámos a leitura. A tendência é concentrar as leituras em menos "sessões",  embora mais prolongadas.
A dispersão de atenção por causa das redes 3G não é problema, porque este não tem, nem precisa.
Insisto:
chamar a isto "futuro" é um erro crasso.
É o presente. Vocês passam a vida a falar do tipo de papel deste ou daquele jornal, do lettering, da tinta, da grossura das páginas, do tamanho das letas?
Não me parece.
Então não sejam tão esquisitinhos, e deixem aquele discurso maneirista do "em vez de".
Isto não vem em vez de nada. Adiciona-se ao existente. É mais um.
Aliás, graças à maquineta, cada vez leio mais, porque dos textos que estão lá dentro tiro notas e referências, e passo muito mais tempo em bilbiotecas e livrarias em torno de livros tradicionais que me são sugeridos pelas eLeituras:).
E esta, hein?

2009-10-27

Praia Nocturna

Enquanto ainda me deixam usar o cê em nocturna, é urgente este aviso:
se entrares numa praia à noite, olha fixamente o vazio negro onde calculas que possa estar o resto da areia, e situa-te ouvindo o mar. Começa a caminhar, se possível a correr, pelo meio da praia. Agora volta a cara para o mar. Não vai demorar muito até que a visão se habitue e as ondas se tornem prateadas, depois quase brancas, e o marulho uma espécie de canção dolente. Não esqueças o céu, que sem poluição luminosa e em noite boa tem mais estrelas do que todos os teus céus passados, nem o que fica para trás, cuja observação dá outro fulgor à tua progressão cega.
Na manhã seguinte, a praia de inverno que atravessaste de noite vai parecer outro lugar, nesse dia de maré cheia em que as ondas te vão empurrar para as dunas, que é a forma de o mar dizer que agora nada daquilo é teu, vais pensar que quem está certo são os físicos quânticos, quando ameaçam provar-te que o mesmo lugar são dois e a mesma pessoa muitas.
Até lá, ou lês Freud, ou fazes de conta, ou vais a uma praia nocturna.

Créditos fotográficos: não foi possível apurar, mas publicar-se-á mal se saiba o autor. Foto colhida neste site.

2009-10-25

3 livros, 3 opostos, 3 obras-primas sobre a condição humana


Sándor Márai, com "As Velas Ardem até ao fim", na brilhante tradução do húngaro de Mária Magdolna Demeter, reconciliou-me com a leitura da grande literatura, e fê-lo quando eu tive os pés na areia e o azul do mar no fundo do olhar durante os habituais quinze dias de férias de praia em Armação de Pêra, os tais em que eu entro em transe de escrita e estou particularmente disponível para ler os que são muito melhores do que eu.

Procuro, cada vez mais, o osso da página, a frase depurada percorrida por um suave, quase imperceptível, perfume de poesia.
"As Velas (...)" são só dois amigos e a condição humana. Tem uma violência aveludada.
Mas é tão violento quanto delicioso. Um obra-prima não absoluta. Um exemplo maior de ficção.

Chil Rajchman escreveu um caderno sofrido, sobre o qual sangrou todo o sofrimento acumulado.
Dir-se-ia que não tinha escrito um livro.
Mas à medida que avançamos na leitura de "Sou o Último Judeu" (Edição Teorema de Outubro de 2009, Tradução de Telma Costa), que relata a experiência de sete meses no campo de extermínio de Treblinka (eu ia dizer breve experiência, mas não teve nada de breve, tendo em conta que o autor quase nada comeu ou bebeu nesses sete meses, dormiu no chão, terá tomado meia-dúzia de banhos, sendo que o seu trabalho, das cinco da manhã às seis da tarde, era o mais sujo, física e psicologicamente, que é possível imaginar, cortar cabelo a mulheres nuas desesperadas, à entrada das câmaras de gás, transportar milhares de cadáveres e arrancar-lhes dentes de metal, permanentemente seviciado por chicotes e pancada dos guardas ucranianos e SS, enquanto ia vendo os seus colegas de "trabalho" ser indiscriminadamente mortos por tiros de pistola - bastava um momento de fraqueza -, e sendo obrigado a encarar com naturalidade que todos os dias aparecessem enforcados, no barracão onde mal dormia, pelo menos três - muitas vezes cinco, sete, dez - companheiros de infortúnio), o lugar onde ocorreu o maior massacre da história da humanidade - perto de um milhão de inocentes massacrados em apenas treze meses, o que dá uma média de 60.000 por mês, 2.000 por dia! Fica-se, pois, com uma ideia do que era preciso fazer para assassinar, não uma ou vinte, mas duas mil pessoas num dia, entre homens, mulheres e crianças. Uma média. Porque dias havia que eram mortas quinze mil pessoas em escassas horas e metros quadrados, e numa espécie de linha de produção tenebrosa. Como Rajchman, judeu polaco nascido em Lodz, e mais tarde cidadão uruguaio, apenas mais 56 pessoas sobreviveram. Este relato é uma obra-prima porque não se limita a relatar. Tem uma adejctivação mínima, uma secura tremenda, mas nunca abandona um estranho equilíbrio estético que nos esmaga. E é possível reconhecer aqui, provavelmente, da mais depurada literatura que alguma vez lemos. Obra-prima não absoluta, mas narrativa maior.

Finalmente, Primo Levi, "Se isto é um homem", muitíssimo bem traduzido por Simonetta Cabrita Neto, na versão que possuo há já alguns anos.
Pura luz, algo nunca visto por este vosso humilde servo até ao dia presente.
Escrito de forma sublime em 1945, uma ano depois da libertação dos campos de Auschwitz, nos quais se situa a acção, faz-se acompanhar de uma lucidez perturbante, de uma análise subtil, mesmo filosófica, do fenómeno do extermínio, dos limites da condição humana (uma vez mais). Páginas que nos respondem a muitos porquês que pensávamos retóricos.
Uma obra-prima absoluta.

Três livros de leitura imprescindível para quem quer dar passos adiante.
E por esta ordem de importância:
Se isto é um homem.
Sou o último Judeu.
As Velas ardem até ao fim.

Um garantia: serão pessoas diferentes, para melhor, depois da leitura destes livros, tal a marca indelével que nos deixam sobre a pele.

Mas é preciso coragem.


Crédito fotográficos: Wook

Frei Fernando Ventura e a Sabedoria

Para quem esteve distraído, por favor fixe este nome: Fernando Ventura, frade capuchinho, homem sábio. Para agnósticos, ateus, crentes, católicos praticantes ou nem por isso, ignorantes, diletantes, honestos ou desonestos intelectuais, para todos, com Saramago ou contra Saramago, não vão por mim. Vejam este inolvidável (muitas vezes inefável e tocante) momento de televisão. A sério, não vão por mim. Querem um "tease"? "Saramago tem razão, Deus não existe" ou "Podiam ter acusado Jesus de ser pedófilo."

2009-10-23

Poetic C.S.I. (on the beach)

Cada madrugada que me fica pelas costas, cada aguaceiro que passa, me aparece claro na alma o privilégio (não que tenho, mas) que conquisto quando calço as sapatilhas e visto o impermeável às oito e meia da manhã, e, sob qualquer temperatura ou fenómeno atmosférico, entro na praia para correr.

Corro há muitos anos e há muitos quilos, são por isso milhares de quilómetros sobre as dunas, nos passadiços de madeira de Gaia (Aguda, Miramar, Valadares, Madalena, Salgueiros, Lavadores), mas confesso que sempre o fiz por seguro de saúde, porque sei que, enquanto o faço, raras são as más disposições. Mas nunca tive grande prazer em correr.

Até agora.

Correr dentro da praia, na areia, em cima do mar, é toda uma outra experiência. E uma lição de humildade, para quem acha, em todos os campos da vida e do próprio conhecimento, que basta passar uma tangente às coisas para as conhecer. Pois eu passava ao largo, ali em cima, nas dunas, a vinte metros, e não tinha a mínima noção do que isto era.

Agora o entorno natural esmaga-me, ao ponto de não se sentir solidão, mas, pelo contrário, respeito e comunhão, pelo que todos os dias tiro os auscultadores dos ouvidos para deixar que o mar me ruja de peito aberto. Chamem-me louco, mas não raro abro os braços e eu próprio grito de prazer, como se voasse, o que, com as rajadas de norte nos dias bonsl, e com as tempestades anunciadas ou confirmadas nos dias maus, não é difícil (já não é novidade que do Outono à Primavera corro a cantar, e bem alto, porque ando quase sempre sozinho, e no Verão só modero o tom:).

Com as piores marés, nestes dias bravos de Outono, o mar cobre a praia de noite, chega a galgar as dunas, e estas praias são largas, amplas. Dificulta-me a corrida, mas deixa-me uma folha em branco que me permite perceber tudo o que se passou nas últimas horas.

Sei agora que os tractores da câmara só passam duas vezes por semana para limpar o lixo (no Verão andam sempre cá e lá, das oito da manhã às oito da noite), e deixam muito dele, que forma a linha que me diz até onde veio a maré. Às vezes assusto-me. Corro pior, porque a força do mar deixa a praia inclinada, enquanto no Verão as pessoas, os tractores e as marés pequenas, tornam a secção mais alta, junto às dunas, mais plana, mais fácil de cruzar.

Quase todos os dias, sei que sou o primeiro a passar nas praias, ainda vejo as minhas pegadas na volta, noutros dias percebo que alguém rasgou as areias bem cedo, sei quando é homem ou mulher, e agora também sigo as pegadas dos cães que batem quilómetros de praia à procura de comida, são sempre dois ou três, e passam por mim quase sempre no mesmo lugar. Deixam-me desconfortável estes bichos. As gaivotas e as pombas são muito mais destemidas nesta altura, não se afastam facilmente à minha passagem, como se considerassem que em dia de tempestade a praia é delas. Não temos de nos afastar para lado nenhum. Começo a perceber que entre as gaivotas há líderes com uma compleição assutadora, grandes, grandes, sempre as últimas a levantar vôo quando passo. As gaivotas mudam de sítio. As pombas fazem um círculo e voltam a pousar atrás de mim. O pescador que em Setembro está todos os dias no mesmo lugar, só vem uma a duas vezes por semana no Outono invernal. Os velhos que conferenciam ao cimo das escadas de uma praia, os velhos que jogam cartas sobre os bancos de outra, os velhos que se sentam reguardados sob um canavial, os velhos nem sempre vêm.

Nos passadiços anda sempre gente - só no Inverno se chega a ver ninguém -, e é bom, mas na praia só o que vos digo.

Andar dentro da praia fora do Verão é tão perturbante quanto gratificante. E ver como a natureza se impõe, como a natureza avança e reconquista os espaços que as pessoas lhe roubaram durante três meses, impressiona e faz-nos humildes e agradecidos por, ainda assim, termos consentimento. Há algo de primordial, difícil de explicar.

O mar estende-se com mais vigor areia dentro. É imprevisível. Já ando a fazer cálculos para que no Inverno uma onda mais matreira não me apanhe. É bom molhar as saptilhas na espuma na parte final da corrida, mas só o faço em dias de maré meiga.

Um destes dias um pôr-do-sol fez-me tombar, deitou-me ao chão.

(interrompo agora...continua vida fora...)

Crédito fotográficos: Super Stock

2009-10-20

Chuva - the beauty of it

O sol dilata os corpos.

O sol dilata as almas.

Debaixo do sol, não temos a verdadeira noção do elemento natural que somos, a nossa consciência admite todas as possibilidades, somos subitamente omnipotentes, a vida é bela já aí à frente.

Por isso, a queda é maior.

A chuva resguarda-nos em nós.

E se, por causa de um improvável movimento de sentido contrário à multidão que se encolhe em gabardinas e se encosta às paredes, enfrentas a chuva como enfrentas o sol, e sais cá para fora tentando abarcar o horizonte como se fosse um dia limpo, azul, ganharás noção da grandiosidade do que te rodeia e de como és pequena, mas também de como podes crescer, porque não cresceste tudo ainda, não estás inchada nem tens excesso de luz.

A Chuva acompanha-te a felicidade com assombroso realismo, e não te engana na solidão.

A água, dona da (trans)lucidez, 

sempre esteve mais perto da claridade.


2009-10-18

Eu na Escritaria e a Escritaria em mim

Imaginem-se a percorrer uma rua de pedras lisas clareadas pelo sol de outono, brisa alguma e vinte e três graus a meio, e a cada passo, num lancil, numa montra, numa esplanada, na desembocadura de uma praça, num jardim, dentro do museu, dentro da praceta, palavras, muitas palavras escritas, e Saramago escreve-as bem, com beleza e subtileza, ainda que sem certeza de alguns de nós, o que importa é a arte e o percurso e os milhares de páginas cinzeladas, as mais bonitas em cubos aos nossos pés, no chão, nas paredes.

Estive lá hoje. Magnífico. Não há qualquer metáfora aqui. 

Entrei dentro do Museu Municipal de Penafiel, vi a força e o amor de uma mulher sugestivamente chamada Pillar del Rio, trouxe risos, cores castelhanas, trouxe palmas e deixou entrar a figura do centro, pouco cabelo, límpido, delicado, brutal, digno, eu quero lá saber se nem tudo é do meu acordo (algo na vida o é?), se nem todas as palavras me inquietam (podemos descansar os olhos nas planícies), eu já o tinha visto com o meu polegar a deixar cair páginas em livrarias, no meu sofá, mas hoje tive a certeza:

Zé Saramago é um escritor de enorme estatura, escreve bem, e ainda emociona mais escrito na rua, no chão, no labirinto, civitas, são parágrafos de molde e moldes da alma.

Ao falar pausadamente com o seu modo de cantar cada vez mais doce, encanta.

Ele foi espalhado por Penafiel, eu fui devorado pela Escritaria.

Fica-se profundamente agradecido a quem concebe e executa momentos destes.

Penafiel dentro, mundo fora.

2009-10-11

Lobo Antunes no meu Supermercado

Pensei escrever esta "crónica" aborrecido, ressentido, com o António.

A maldade de uma crítica, que li ontem, teve o efeito contrário em mim: tenho dito que a inteligência, quando não é temperada por um mínimo de bondade, prescreve.


Acredito nisso.


O António é muitas vezes um desarmante lúcido que me obriga a fazer uma coisa que detesto. Citar. Cito-o porque ele diz: "Temos de escrever contra os melhores.", e eu penso que é mesmo isso.

Cito-o porque ele diz que a modéstia é inútil, mas a humildade não, e eu nunca me senti modesto, creio até que a modéstia, para ser uma qualidade humana, tem de ser invisível, porque quando se vê é mentira, e, sim, inútil, defeito.


Mas também o cito por razões menos boas.

Antes de as referir, contudo, quero dizer-vos que o que eu reclamo é o António de volta à doçura, a doçura que ele levou às entrevistas com o Mário Crespo, com a Judite de Sousa, com a Ana Sousa Dias, a doçura que ele tem quando nos trata pelo nome próprio, quando fala da essência das coisas e não das coisas da essência.

As pessoas são parte da essência, não se podem destacar da arte.

António, não podes pensar que resolveste os enigmas da escrita.

Não te podes guindar tanto.
Não acabou para ti, claro que não acabou para ti.

E se há cavalos que fazem sombra no mar, casas caladas às três da tarde, dor a vaguear pelos quartos, enquanto existes escreves.

Quando estavas no hospital e vieste correr nu perante o mundo nas páginas da Visão, eu pedi-te para saíres da luz. António, sai da luz.


Passaram quase três anos, e é nas páginas da Visão que te encontro de novo, mas menos do que esperava.


Tens mais sorrisos, mais estantes e sítios e composições, mas estás menos tu, menos doce.


Vou contrariar-te, pois.


Sempre disseste que as tuas crónicas não eram literatura.


Mas são. São muita literatura.

Dizes amiúde que os livros têm de estar cheios de silêncios.

Talvez tenhas alguma razão. Mas os livros também são barulho.

Estão cheios de gritos, António.


Dizes que os teus livros não são de supermercado, mas são, António. Estão lá, junto dos outros. Como tu estás, junto dos outros. Olha a fotografia transparente que te junto, acima.


Sabes que disparate tenho dito?


Que não há génios na literatura. Que a honestidade intelectual nos deve levar a tocar em todos os livros. Que o corpo da escrita não se revela ou desnuda antes da capa.

Dizes que os teus leitores não lêem imprensa frívola. Mas lêem, António.

Dizes que não ligas aos críticos. Mas ligas, António.

Eles e os leitores dos outros estão aqui, os teus críticos são homens com sentimentos e com gostos, às vezes precisam de te combater por seres grande, é verdade, mas às vezes combatem-te porque eles é que são humildes, e tu não.


Não digas que não conheces pessoas, António.

Conheces toda a gente, António.

Eles estão no meio de ti.

Deves aceitar pacificamente que muitos dos leitores que compram os teus livros não são capazes de os ler. Que, ao não baixares a intensidade da luz que os alumia, podes perder alguma sombra, alguma frescura, algum silêncio.


Disseste que tinhas chegado ao mesmo tempo que o Saramago.

Aí percebo-te.


Porque a publicação é um acidente da escrita, e não foi no fim dos anos setenta que chegaste, foi muito antes, compulsivo, por Benfica, a destruir os teus próprios poemas.

A literatura sempre cá esteve, já cá estava quando nós lhe chegámos, os nossos livros sempre cá estiveram, já cá estavam quando o mundo lhes chegou.

Por falar nisso, quando é que vocês, tu e o Saramago, se abraçam, caramba?

Que birra de miúdos é essa, António?

Achas que é possível medir o tamanho de cada um? Não é.


Tu não és maior do que ele, António, ele não é maior do que tu.

Não sabes que, se continuas assim até ao fim, ou até ao princípio, ergues muralhas entre os que seguem ambos com o coração? Os que vos dão o pão a comer?

Quando é que deixamos de ter trincheiras , quando é que deixamos de marchar em colunas concorrentes, pequenos ódios multiplicados muitas vezes por cada lado?

A inteligência, quando não é temperada de bondade,


prescreve, António.

Escrevo-te isto porque sou pequenino e não quero ser grande, António.


E cá de baixo avisto o espectro térmico dos grandes, e deixo de perceber o frio.


Ninguém é a rocha de gelo, ninguém é ilha de ventos, ninguém é Deus nem deus.


2009-10-09

Leitores e eBooks sem gripe

Chiu. Caluda. Eu também sou um compulsivo leitor de livros de papel.
So what?

Tenho, como quase toda a gente que usa computador, de ler centenas de documentos em pdf, que é para não falar de livros enviados por amigos, colegas escritores ou editores, ou blogues (dá para arrastar blogues inteiros para dentro disto, coisas que não temos tempo de ler no trabalho ou em casa). Em pdf.
E, como advogado, códigos, textos doutrinários e jurisprudenciais.

Aliás, custa-me a conceber como é que editores e assistentes editoriais ainda se massacram a ler centenas de milhares de páginas de pdfs no ecrã de um computador. Tenho pena, até. Porque, à excepção de uma boa amiga e grande tradutora, que por ser excepção confirma a regra, ninguém gosta de ler textos longos assim.

KISS, não é? Keep it simple, stupid. Ok.

Não vos escrevo com preocupações ecológicas, não tenho perfil para tal. É verdade que o meu filhinho de dez anos, ontem mesmo, me perguntou, do nada, "porque é que as pessoas só falam da Gripe A e não se preocupam com a falta de água?", eu achei piada, disse-lhe que ainda ninguém me tinha posto tão bem a questão, mas o que eu quero é ler tudo e em todo o lado e da melhor forma.

Estou a experimentar este leitor de livros electrónicos, e o que mais me impressionou, logo de entrada, foi a chamada "tinta electrónica", ou seja, um ecrã sem luz, sem consumo, as letras aparecem ali, à superfície, como num livro. Não cansa nem agride.

Gosto de coisas simples para poder usá-las.
Este não tem nenhum artifício, como não o tem um simples livro, e está pronto a usar mal se liga.
Os livros abrem na página em que os deixámos.
Com uma bolsa adequada (já pensei em forrar uma capa de um volume da "Recherche", e andar com o leitor dentro dela:), para proteger o ecrã e permitir que o seguremos como se de um livro se tratasse, a experiência não é nada desagradável, bem pelo contrário.

Questões práticas:
É supérfluo? Não. É para ler livros, e um portátil não é para ler livros. Tem uma bateria que não é preocupação - este lê oito mil páginas com uma só carga, o que quer dizer semanas, para não dizer meses, e como também carrega via porta usb, de cada vez que se liga ao computador para adicionar mais livros, é virtualmente inesgotável:)).

Não é igual a um livro, nem eu acredito que o venha a substituir totalmente.
É complementar.
O Vinil está a regressar, e não é preciso para nada. A sua experiência táctil não se compara à experiência de manusear e cheirar o papel de um livro. De o segurar na mão, sentindo os relevos ou vendo as imagens das capas, que nos atraem. Não. O livro não morre, nem estas coisinhas servem para o matar.

Por isso rejeito as mensagens do tipo "aqui está o futuro".
Não está.
Está o presente.

Se o dinheiro não for um problema, aconselho-o vivamente aos profissionais da escrita, da leitura, e aos leigos que são grandes leitores. Para esses, creio ser indispensável, e nem sequer é uma necessidade nova que se cria. Eles sabem o cansaço que os olhos sentem.

Se o dinheiro for problema, temos aqui um dilema:
Se queremos que o preço de um leitor simples venha para os 100 Euros, como eu acredito virá rapidamente, temos de os comprar. É uma pescadinha de rabo na boca. Comprar significa apoiar um conceito que não colide com o livro tradicional, bem pelo contrário:

Eu, se já lia muito, vou agora ler muito mais.

Ontem já aconteceu, nas esperas.
Tirei-o do bolso (este dá para isso) e estava a ler em segundos.

Viva o livro.