2008-06-24

O Ignorância faz 5 anos


Comemoramos a ocasião de ter nascido numa feliz noite de São João com outra feliz noite de São João. A nossa essência nalgumas imagens de hoje. PG-M



Disseste-lhes que o São João e a chuva...?


...se enredam se vivem se empatizam se recordam?

...que os teus ossos e atua pele são feitos de morrinha?

...que à noite o Porto não é cinzento mas multicolor?

Explicaste-lhes que a festa não se faz para dentro, em nossa honra ou pela nossa felicidade, mas pelos outros, pelos sorrisos e gargalhadas dos outros?

Lembraste-lhes que não há outra no mundo em que te seja pedido que toques os outros ou os despenteies ou lhes busques a timidez ou te mostres finalmente tu?

Fizeste-os ver que ninguém nesta noite sai à rua para chorar ou partilhar tristezas, que nenhum Carnaval é tão feliz?

Deixaste todos os estrangeiros solver-se na alegria dos teus martelos de plástico?

Misturaste a tua essência tripeira com o resto do mundo?

Misturaste a tua essência tripeira?

A tua essência?

Foste tu enfim.

Pedro Guilherme-Moreira, hoje, noite minha, noite pura, noite Porto, noite tudo e mesmo a chuva

2008-06-19

Eça finalmente (e o audiolivro)


Pelas 12h será hora da corrida junto ao mar, que neste prenúncio de Verão se tem enchido de maresia viva e sol.

Há muito que aguardava a experiência de “ler” um livro correndo, mas surpreendeu-me o prazer que daí retirei.

O esforço físico quase se esquece, a compenetração é perto do absoluto, superior à música ou às entrevistas do Carlos Vaz Marques e do Viegas em mp3, e muito superior à rádio.

Mas o mais marcante é que, depois de muitas tentativas para gostar de Eça e da incapacidade de não gostar de o ouvir dentro da minha cabeça pela minha voz interior, finalmente Eça me chegou luxuriante pela voz de José Wallenstein.

Era isso, precisava que outros me lessem Eça, assim, ao ouvido.

Recomendo viva e entusiasticamente.
E no caso de Eça com a coincidência de ter passado muitas vezes correndo pela sua casa da Praia da Granja, cá em Gaia (imagem), onde morreu a sua mulher há não muitos anos (sepultada algures no cemitério de Arcozelo, mas nele perdida para sempre – ninguém sabe o local exacto da sua última morada). Casa que, como muitos saberão, foi desgraçadamente demolida o ano passado por um erro clamoroso da Câmara que agora fala em reconstruí-la (!!!).

O audiolivro que comecei ontem e terminarei hoje é “Civilização”.Ele e o seu “civilizado” amigo que tem uma biblioteca com mais de oito metros de Economia Política (que Eça detectou só à procura de Adam Smith) estão a chegar a uma aldeia de montanha. “Vê-se” o comboio a aportar no apeadeiro e a caminha forçada estrada acima que os está agora a surpreender em cascatas que jorram das fragas e se sobrepõem ao silêncio e aos suspiros de “Que maçada!”.

Agora não vou querer parar de ler correndo e ouvindo.

Pedro Guilherme-Moreira

2008-06-03

Somos uns merdas


Somos uns merdas.
Vi ontem na televisão uma mulher que adoptou uma menina cigana deficiente que mais ninguém queria (filha de pais “tóxicos”), e há-de dar o seu amor a crianças doentes terminais. Não chorava nem se queixava, e ali estava a menina cigana com o carinho dos restantes irmãos, e a mãe franca e determinada a agradecer a Deus a sua sorte.
E nós remoemos na soleira da porta pelas maiores banalidades.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe de pouco mais de trinta anos que sorri à vida que lhe deu um filho com uma doença rara que só o deixa mexer a cabeça e que ela traz no colo dos dias com a naturalidade do amor, recebendo cento e sessenta euros porque a assistência permanente ao filho não a deixa trabalhar. 80 para ela, 80 para o filho.
E nós insultamos os que nos amam, somos cínicos com os amigos e inclementes com este ou aquele conhecido que num momento de fraqueza se distraiu e não nos soube tratar como os soberanos que nos achamos.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe açoreana que canta e sorri com o seu filho deficiente que já tem trinta e três anos. Tem quatro filhos, e este é o mais novo. Até aos três anos teve de ser operado três vezes, sempre em Lisboa, e as lágrimas só lhe vêm às faces da mãe quando se lembra da dor de ter deixado os outros filhos sozinhos para acompanhar as operações deste filho no continente.
E nós com as merdas do dia a dia, esquecendo os verdadeiros valores.
Somos uns merdas.
Vamos pôr mais vezes a vista em cima destas pessoas e ser melhores do que uns merdas.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03

FILMES-LITERATURA


Vi dois filmes quase seguidos que me deram um prazer incomum de neles rever os meus livros, os livros que leio e os livros que escrevo.
“Cashback” (“Turno da Noite” em Portugal) e “Things We lost in the fire” (“Tudo o que perdemos em Portugal” - devia chamar-se “Tudo o que ganhamos”) são dois excelentes filmes (bem acima da média) que nos permitem um olhar autêntico para as coisas e para as pessoas.
O primeiro é inglês, os segundo americano, realizados respectivamente por Sean Ellis, que escreve o argumento, e Susanne Bier (argumentista:Allan Loeb).
Confesso o meu deslumbramento por Cashback. São 102 minutos absolutamente deliciosos e nada maçadores, bem pelo contrário. Somos levados de forma brilhante ao detalhe de tudo e a habilidade do protagonista em parar o tempo dá cenas de antologia (aquela em que ele despe as clientes do supermercado onde trabalha é, além de sensual, belíssima). Magnífico!
“Things We lost in the fire” traz-nos um vistoso Benicio del Toro, mas acima de tudo a sublime Halle Berry que nos dá neste filme a extravasante excelência dos superdotados, pela sua capacidade de contenção no seu melhor papel, no meu entender claramente superior ao que lhe deu o Óscar de Melhor Actriz (a primeira afro-americana) em Monster's Ball (2001).
Ao observá-la senti a mesma emoção que experimento a ouvir Maria Callas na Ave Maria de Bach/Gounod. Nos momentos-limite, Halle Berry e Callas não deixam que o rio galgue as margens e conseguem conter todo o seu virtuosismo no leito, alcançando o impossível toque dos deuses.
Ambos os filmes nos levam à pele dos progonistas e às suaves curvas do tempo, permitindo-nos pressentir, por momentos, o deleite de um livro lido no nosso lugar.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03