2008-02-25

Marion Cotillard - Antes que venha o mundo (Avant que le monde arrive)




Antes que o Óscar te queime a substância querubim de incêndios dourados,
(Avant l'Oscar brûle la substance des anges des dorés incendies)


Ante que venham os iluminados decidir que a tua excelência não se pode consentir (o que raio é o overacting?), afinal tens toda uma pátria aos pés, e agora o mundo, e eu, este anónimo que teima em ver as estrelas de frente, as do céu não as caídas do cinema, e que desde o minuto um, depois de ter ver possessa de Piaf, aquele minuto em que desembrulhamos o corpo da magia do cinema e nos levantamos do lugar, calcamos as pipocas sobre a alcatifa e declaramos, já com a luz branca do shopping a surgir pela porta


- Magnífico!

(Avant le faux sages décident que votre excellence ne peut être consenti (ce qui est overacting?), En fin de compte que vous avez tout un pays à pieds, et maintenant le monde, et moi-même, cette anonyme qu' insiste pour voir les étoiles par ses visages, mais pas le film chuté, et que, d'une minute, après j'ai vu vous possédé de Piaf, une minute où nous dévoilons le corps de la magie du cinéma et de sortir de notre place, mettez les popcorns sur la moquette et déclarer, avec la lumière blanche du shopping à venir par la porte
- Magnifique!)


Repara que eu nem sequer sabia que tu eras uma menina quando te vi levar "La Môme" até à morte, só podias ser uma actriz francesa consagrada que a selecção de Hollywood não tinha deixado chegar, depois procuro-te e sei que és bonita não complexa como Piaf, és elegante, mesmo olímpica, não mirrada como Piaf, és transparente e não negra como Piaf, vejo o filme de novo e ainda fico pior, mais inquieto, será que o Cinema vai deixar passar este monumento em claro?
Não deixou.

(Je ne pouvais pas vu une fille quand vous avez pris de "La Môme" jusqu'à la mort, elle pourrait peut être une actrice française qui ne réussissent pas le choix d'Hollywood, et maintenant je sais que vous êtes belle, et pas complexe comme Piaf, élégant, même olympique, transparent et non pas noir comme Piaf, je vois le film encore et encore, je le crains, plus agité, le cinéma va oublier ce monument à la même?
Il n'a pas oublié. )


Ganhaste em casa o César, o improvável Bafta na Britânia e agora o universal Óscar, e mais quinze ou dezasseis prémios todos merecidos.
O que fizeste no "La Môme" ("La vie en Rose" em Portugal) é inefável. Tremendo.Não sei para onde vais, Marion, gostava que não fosses a lado nenhum de especial, mas a verdade é que, do ponto de vista divino, já és deusa, e nunca se é deusa cedo demais.Ficas para sempre, gostava apenas que ficasses mais um pouco e não fosses Monroe, Dean, Phoenix ou Ledger.

Hoje fui buscar a minha bisavó Germaine Lechartier, lá acima às memórias de um impreciso noroeste francês, para dar sentido ao meu sangue que fervilha como se fosses cá de casa.

(Aujourd'hui, j'étais à la recherche de ma arrière-grand-mère Germaine Lechartier, dans le souvenir imprécis du nord-ouest-ouest français, de donner un sens à mon sang que la ruche comme si tu être ici à la maison. )


Pedro Guilherme-Moreira


PS: Goste-se ou não se goste de cinema, o que fez Marion Cotillard deve ser conferido por toda a humanindade:). Não é exagero, afinal é o quê o verdadeiro Cinema?

2008-02-22

Contra-Crónica (à de Lobo Antunes "Agora que já pouco te falta")


sem ofensa, e num mero exercício de estilo, porque só questiono o que amo, esta é a contra-crónica em lobantunês à página 14 da Visão de 2008-09-21:


hoje o sol já tinha deixado o pique e a refeição quando entrei na papelaria do Francisco para lhe pagar o café e lhe roubar a crónica do lobo antunes, que leio sempre de pé escondido entre as árvores de revistas, tento que os meus braços sejam ramos com as folhas da revista na ponta, depois de ler é Outono e a árvore fica nua e a revista volta para o escaparate, sempre o mais fundo, gosto que o francisco escolha aquele para a visão para eu sentir que o enganei e que não li nada, só fiquei contemplando as capas dos desportivos
(isso posso fazer, não posso?)
para decidir qual não compro, mas hoje, como tem acontecido nas últimas semanas, a visão já estava esgotada e eu teimo em ler o antónio no papel, e paguei o café ao Francisco mas não roubei a crónica, fiquei com um ligeiro coxear na minha plenitude, não me faltavam as velhas a conversar na esquina do esteves nem o vieira plantado no portão do campo nem os carros a colher os primeiros raios oblíquos do sol que já tinha deixado o pique e se dirigia para o mar, o mesmo mar que eu mais tarde viria a saber pelo António encostava a cabeça aos caixilhos para o ver dormir, ele não disse que era na praia das maçãs mas eu sei que era,
não me faltava nada disso mas faltava-me a crónica do antónio.
fui naquela tristeza em que as lágrimas andam derramadas no verso do corpo mas não são suficientes para assomarem aos olhos e passei pela bomba para gastar o talão de promoção do lidl que dá um euro e vinte de desconto nos postos da bp, com esse desconto talvez comprasse a visão, e depois de pagar vi-a ali inesperadamente a olhar para mim, eram muitas e eu achei estranho porque tinham esgotado em todo o lado, o empregado da bomba esclareceu
- esteve aí o lobo antunes a dizer que não fosse por isso
não fosse por isso eu peguei numa delas e abri na pagina catorze e fiquei perdido, fico sempre perdido de mim quando ele fala de como lhe chegam os livros, que só começa quando sabe que não vai conseguir, anda há cinco livros a dizer que escreve mais três, e agora diz que talvez seja o último se ele conseguir depurar o lhe chega, mas eu fechei a revista não fosse por isso e fui conduzir a pedir que o tempo não fosse esse, que António não alcançasse a perfeição aos seus olhos e parasse de escrever, pensei em muitas coisas ao mesmo tempo como o António pensa, pensei que isto era uma despedida, que ele pode estar definitivamente doente, que finalmente decidiu desatar a obsessão do suicídio que o persegue desde sempre, mas concluí, não sei se bem se mal
(não seja por isso, ficam aí dez revistas para o pedro),
que o antónio estava só a seguir o mesmo trilho que lhe escreve os livros, porque ele não pode acreditar que é possível escrever o livro prefeito.

Foi quando senti a mão do antónio sobre o meu ombro de lã, dizendo-me
- é possível, pedro, é possível. acontece que fica escrito e é perfeito hoje
Mas amanhã destalha como qualquer ideia em qualquer lugar e tempo do mundo
E depois de amanhã volta a ser perfeito
E daqui a muitos anos é proibido pô-lo em causa, e aí fica perigoso.
Talvez nessa hora o bisneto do meu sobrinho Zé maria diga ao mundo que o lobo Antunes era um mito, e é quando finalmente a ideia deste livro perfeito vinga.
- Não seja por isso.


Pedro Guilherme-Moreira

2008-02-19

A Estátua de Gesso


Mãe, quando morreste lembro-me bem de toda a gente a comentar não a saia casaco com que te deitaram já em sossego no último cetim, mas o facto de teres sido pioneira na aldeia. A pioneira dos lencinhos de papel mili, aquela marca estranha que ninguém conhecia mas que enriqueceu a Josefina do quiosque e te empobreceu a ti. Como teu filho, tenho de confessar que sinto um desmedido orgulho por ser filho da pioneira, mas a ti nesta oração te confesso que sempre apoiei os lenços de pano, primeiro obviamente por egoísmo, porque sou homem e não tinha de os lavar, depois de ti veio a Maria que ainda mos lava, e depois porque pude cinicamente alcandorar-me no pretexto do ambiente, ao mesmo tempo que montaram o cerco aos pais das fraldas descartáveis, obrigando-os não só a aturar e a limpar o rasto dos putos, como a reciclar fraldas de pano, afinal como tu mãezinha, que, sabe-se lá como, também lavavas os meus dejectos. Mas como já estou a fugir ao tema queria só dizer-te que, embarcando no discurso cínico do ambientalista que não sou, pude finalmente, pela primeira vez em muitos anos, ser admirado pela raparigas por sacar de um lenço de pano que, mesmo que à transparência mostrasse aquilo a que eu misericordiosamente chamava manchas de café, era tido por contributo fundamental para o planeta. E quando me ouviam a ir buscar uma daquelas que tinham contrato de arrendamento prolongado na garganta, as meninas lá diziam
- Já se ouve o discurso ecologista do Jorge!
Ora, mãezinha, mas eu vinha aqui falar-te mesmo era da pequena estátua que fiz de ti, e como te sinto junto a mim de cada vez que olho para o aparador e a vejo, e olha que a Maria nem suspeita da matéria prima. Foi assim, mãezinha:
Já tu estavas a sete palmos e eu comecei a vasculhar nos teus casacos e nas tuas malas cada pedacinho de ti, cada brinco perdido, cada gancho de cabelo, e a emoção tomou-me quando reparei que tinhas deixado um lencinho de papel em todos os lugares da tua existência, e não deixaste simples lenços impessoais, deixaste lenços usados no pingo abundante do teu nariz e retesados pelo tempo. Achei-os no fundo do gavetão, na cesta de produtos de higiene do armário da casa de banho, em cada recanto da tua mala castanha, pelo menos meia-dúzia no teu sobretudo bege, quatro no bolso direito e dois no esquerdo, três entalados no cinto das tuas calças azuis de fazenda, enfim mãezinha em todo os lados de ti, cada um com a sua forma única, pedacitos indignos contorcendo-se com os vírus moribundos que neles deixavas, e juro-te que quando cheguei ao fim chorava abundantemente pelos sinais que me deixaste.
Todos amassei num amálgama de ti, humedeci-os de novo, e dei-lhes a tua forma anafada numa estátua de gesso que deixei secar outra vez como o teu pingo retesado, e que todos os dias beijo no reino que agora é o teu no meu aparador. Obrigado mãezinha por seres a porca que eras, pioneira dos lencinhos de papel, esses que são o paradigma da higiene que tu tão bem combateste (e eu nunca mais disse a ninguém que lenços de pano é que é).

2008-02-01

Máscara Breve



É Carnaval de manhã,
na praia há uma estranha calmaria
de julho

(a ameaça de mau tempo ainda não se concretizou),

o sol está morno amarelo claro
contudo

as gaivotas estão pousadas na areia
sem máscaras,
as crianças na escola já as puseram
como nós.

haverá uma tempestade breve.

Pedro Guilherme-Moreira
2008-02-01