2008-06-03

Somos uns merdas


Somos uns merdas.
Vi ontem na televisão uma mulher que adoptou uma menina cigana deficiente que mais ninguém queria (filha de pais “tóxicos”), e há-de dar o seu amor a crianças doentes terminais. Não chorava nem se queixava, e ali estava a menina cigana com o carinho dos restantes irmãos, e a mãe franca e determinada a agradecer a Deus a sua sorte.
E nós remoemos na soleira da porta pelas maiores banalidades.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe de pouco mais de trinta anos que sorri à vida que lhe deu um filho com uma doença rara que só o deixa mexer a cabeça e que ela traz no colo dos dias com a naturalidade do amor, recebendo cento e sessenta euros porque a assistência permanente ao filho não a deixa trabalhar. 80 para ela, 80 para o filho.
E nós insultamos os que nos amam, somos cínicos com os amigos e inclementes com este ou aquele conhecido que num momento de fraqueza se distraiu e não nos soube tratar como os soberanos que nos achamos.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe açoreana que canta e sorri com o seu filho deficiente que já tem trinta e três anos. Tem quatro filhos, e este é o mais novo. Até aos três anos teve de ser operado três vezes, sempre em Lisboa, e as lágrimas só lhe vêm às faces da mãe quando se lembra da dor de ter deixado os outros filhos sozinhos para acompanhar as operações deste filho no continente.
E nós com as merdas do dia a dia, esquecendo os verdadeiros valores.
Somos uns merdas.
Vamos pôr mais vezes a vista em cima destas pessoas e ser melhores do que uns merdas.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03

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