2008-06-03

FILMES-LITERATURA


Vi dois filmes quase seguidos que me deram um prazer incomum de neles rever os meus livros, os livros que leio e os livros que escrevo.
“Cashback” (“Turno da Noite” em Portugal) e “Things We lost in the fire” (“Tudo o que perdemos em Portugal” - devia chamar-se “Tudo o que ganhamos”) são dois excelentes filmes (bem acima da média) que nos permitem um olhar autêntico para as coisas e para as pessoas.
O primeiro é inglês, os segundo americano, realizados respectivamente por Sean Ellis, que escreve o argumento, e Susanne Bier (argumentista:Allan Loeb).
Confesso o meu deslumbramento por Cashback. São 102 minutos absolutamente deliciosos e nada maçadores, bem pelo contrário. Somos levados de forma brilhante ao detalhe de tudo e a habilidade do protagonista em parar o tempo dá cenas de antologia (aquela em que ele despe as clientes do supermercado onde trabalha é, além de sensual, belíssima). Magnífico!
“Things We lost in the fire” traz-nos um vistoso Benicio del Toro, mas acima de tudo a sublime Halle Berry que nos dá neste filme a extravasante excelência dos superdotados, pela sua capacidade de contenção no seu melhor papel, no meu entender claramente superior ao que lhe deu o Óscar de Melhor Actriz (a primeira afro-americana) em Monster's Ball (2001).
Ao observá-la senti a mesma emoção que experimento a ouvir Maria Callas na Ave Maria de Bach/Gounod. Nos momentos-limite, Halle Berry e Callas não deixam que o rio galgue as margens e conseguem conter todo o seu virtuosismo no leito, alcançando o impossível toque dos deuses.
Ambos os filmes nos levam à pele dos progonistas e às suaves curvas do tempo, permitindo-nos pressentir, por momentos, o deleite de um livro lido no nosso lugar.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03

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