2008-04-29

Sensações Absolutas (Cirque du Soleil - Quidam)



Depois de assistir ao espectáculo Quidam, do Cirque do Soleil, a única coisa que me espanta é não ler mais testemunhos de deslumbramento. É difícil alcançar palavras justas para descrever a absoluta excelência em todos os aspectos do trabalho de quem nos põe a sonhar acordados, ou melhor, de quem nos coloca no centro dos nossos próprios sonhos. Apesar do abuso nos comes e bebes (levem água de casa, ou vão ter de pagar 133 avos do salários mínimo por uma garrafita - a preços de hoje, com o salário mínimo a 400 euros, são 3 euros), ninguém chora o que pagou pelo bilhete -  e os preços não são  baratos. Deixo-vos alguns parágrafos ficcionados que escrevi sobre aquele que foi para mim um dos mais belos momentos que presenciei em toda a minha vida.

"Mas houve outro momento sublime na contenção, certamente mais fácil de receber, mas idêntico nas lágrimas que oferecemos em agradecimento. Há muitos anos estava eu por Lisboa empobrecendo e calhou-me na sorte um trabalho que dava umas coroas num Circo que dava barro para sonhos. Sonhei durante anos a fio poder ver ao vivo os canadianos do Cirque du Soleil, pelo que cri mal quando esta oportunidade me veio cair no colo. Fiquei na distribuição de lugares da plateia e juro-lhe que durante uma semana fui a mais incompetente funcionária do Cirque, mas recolhi sonhos verdadeiramente palpáveis como só eles sabem fabricar. É difícil detalhar-lhe a harmonia de fatos, peles, luz e som, a fluidez dos gestos, a excelência de cada elemento na sua arte. Prefiro falar-lhe na contenção que nos arrasta para o âmago das coisas.

Havia dois corpos que pareciam nus, secos, perfeitos, quase esculturais mas com defeitos suficientes para se cheirarem da plateia, o número deve aparecer nos resumos do Cartaz dos periódicos como “o momento da junção de um contorcionista masculino com uma contorcionista feminina, ou de um ginasta masculino com uma ginasta feminina, mas obviamente vai muito para lá disso.

Os longos minutos que eles passam em carne diante de nós são o espelho da nossa própria harmonia. Do nosso corpo. Em nenhum momento há um impulso, um salto, uma queda, uma brusquidão, tudo se passa na lenta câmara da fusão de formas humanas com sugestões divinas. Vê-se tudo uma primeira vez com espanto absoluto. À segunda, percebemos o empenhamento. À terceira já sabemos os desenhos e consentimos a fraqueza dos nossos próprios músculos perante a tensão bela de cada passagem. Da quarta em diante as lágrimas surgem sem avisar. Aconteceu uma das vezes eu correr aos bastidores na senda de um abraço apertado ao casal de deuses que nos ofertava com a ironia de se ser divino em terra. Mas pressenti que iria conhecer pessoas aparentemente normais. Não queria isso. As duas figuras que (na síntese) deram uma só estátua de barro humano seriam depositadas na minha memória e em todos os poros do meu corpo pelos anos fora. Não precisamos de correr para cima deles, de deixá-los marcados com os nossos lábios, de constatá-los indiferentes. Basta-nos ficar em silêncio e nunca desviar o olhar. Contenção. Pura contenção."

Pedro Guilherme-Moreira, 2008-04-29

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