2008-03-17

Para a Bisavó, não Für Elise

Há três anos ele cabia-me no bolso da imaginação e nem que não quisesse era de colo, abraçava-o em cima dos muros, ele cerrava-se sobre o meu pescoço, muitas vezes deixava-se cair e eu ria-me, hoje não me rio porque se ele o fizer chega ao chão e dobra-me a coluna, olha-me nos olhos quase sempre sobre os óculos dele e já de um ângulo diminuto e começa a reivindicar sem cartaz os direitos da pré-adolescência.
Há três anos eram cinco, hoje são oito, os pés encaixavam sob o suporte das teclas, para não ficarem suspensos, hoje pousam sobre os pedais.
Ouvi-o por Elisa desde a última audição, professor a minha bisavó adora uma música que é assim mais ou menos
Na na na na na na na na na
Na na na na
Na na na na
Epá, mas isso é muito avançado para ti, Guilherme, mas eu faço assim, se prometeres deixar a música para a próxima audição num brinquinho, vou-te ensinando essa,

só que o Guilherme vinha para casa e quando ensaiava tocava cinco vezes para Elisa (Beethoven) e uma para a Musette (Thompson). Esta música ficou num brinquinho, os panfletos da audição foram impressos e não vinha lá nada para Elisa. Nem na versão simplificada, professor?
Ontem, na aula de preparação, o Guilherme mostrou ao professor que já tocava a que não era suposto tocar.
- Pronto, ganhaste, vais tocar para Elisa.
Chegou a casa sem euforias, a Musette já ia de olhos fechados há muito, por isso insistiu uma, dez, cinquenta vezes para Elisa.
No Orfeão de Valadares, os professores Miguel e Nuno são tão heróis como os outros mas são os legítimos super-heróis deles, e vice-versa, e quando o Guilherme entrou para tocar as duas foi como se entrasse num estádio. E cem pessoas já são um estádio.

- Guilherme Moreira com Musette (de Thompson) e Für Elise (de Beethoven).

Sentou-se. Falhou duas notas na que estava de cor, a do brinquinho, como aliás há três anos tinha acontecido, mas desta vez é o Guilherme que não se perdoa.
Mais tarde, o professor viria a comentar que nada o demovera de Elisa, era tudo por Elisa, e no momento-chave não havia dedos para Musette.

Através da parede de casa, ouvi-o orgulhoso ensaiar a música que sonhara oferecer à bisavó centenas de vezes no piano. Havia sempre uma pequena falha.
Hoje, sem hesitar, quando chegou o momento com que alimentara o seu pequeno grande sonho, o Guilherme aproveitou:

tocou para a bisavó uma Elisa perfeita.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Um pai chora sempre desalmadamente nem que seja pelo aperto do peito e mesmo que esse choro convulsivo se materialize apenas num mero e tímido sorriso para quem nos perscruta o desempenho do miúdo depois de um bom momento. O meu dever, contudo, é deixar aqui sinais de excelência, e se acontecer serem do meu filho, e que ele sirva de exemplo para mim e para outros, claro que alcanço uma certa plenitude :).

Deixo o link para "A audição" de há três anos: http://ignorancia.blogspot.com/2005/03/audio.html

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