2008-02-19

A Estátua de Gesso


Mãe, quando morreste lembro-me bem de toda a gente a comentar não a saia casaco com que te deitaram já em sossego no último cetim, mas o facto de teres sido pioneira na aldeia. A pioneira dos lencinhos de papel mili, aquela marca estranha que ninguém conhecia mas que enriqueceu a Josefina do quiosque e te empobreceu a ti. Como teu filho, tenho de confessar que sinto um desmedido orgulho por ser filho da pioneira, mas a ti nesta oração te confesso que sempre apoiei os lenços de pano, primeiro obviamente por egoísmo, porque sou homem e não tinha de os lavar, depois de ti veio a Maria que ainda mos lava, e depois porque pude cinicamente alcandorar-me no pretexto do ambiente, ao mesmo tempo que montaram o cerco aos pais das fraldas descartáveis, obrigando-os não só a aturar e a limpar o rasto dos putos, como a reciclar fraldas de pano, afinal como tu mãezinha, que, sabe-se lá como, também lavavas os meus dejectos. Mas como já estou a fugir ao tema queria só dizer-te que, embarcando no discurso cínico do ambientalista que não sou, pude finalmente, pela primeira vez em muitos anos, ser admirado pela raparigas por sacar de um lenço de pano que, mesmo que à transparência mostrasse aquilo a que eu misericordiosamente chamava manchas de café, era tido por contributo fundamental para o planeta. E quando me ouviam a ir buscar uma daquelas que tinham contrato de arrendamento prolongado na garganta, as meninas lá diziam
- Já se ouve o discurso ecologista do Jorge!
Ora, mãezinha, mas eu vinha aqui falar-te mesmo era da pequena estátua que fiz de ti, e como te sinto junto a mim de cada vez que olho para o aparador e a vejo, e olha que a Maria nem suspeita da matéria prima. Foi assim, mãezinha:
Já tu estavas a sete palmos e eu comecei a vasculhar nos teus casacos e nas tuas malas cada pedacinho de ti, cada brinco perdido, cada gancho de cabelo, e a emoção tomou-me quando reparei que tinhas deixado um lencinho de papel em todos os lugares da tua existência, e não deixaste simples lenços impessoais, deixaste lenços usados no pingo abundante do teu nariz e retesados pelo tempo. Achei-os no fundo do gavetão, na cesta de produtos de higiene do armário da casa de banho, em cada recanto da tua mala castanha, pelo menos meia-dúzia no teu sobretudo bege, quatro no bolso direito e dois no esquerdo, três entalados no cinto das tuas calças azuis de fazenda, enfim mãezinha em todo os lados de ti, cada um com a sua forma única, pedacitos indignos contorcendo-se com os vírus moribundos que neles deixavas, e juro-te que quando cheguei ao fim chorava abundantemente pelos sinais que me deixaste.
Todos amassei num amálgama de ti, humedeci-os de novo, e dei-lhes a tua forma anafada numa estátua de gesso que deixei secar outra vez como o teu pingo retesado, e que todos os dias beijo no reino que agora é o teu no meu aparador. Obrigado mãezinha por seres a porca que eras, pioneira dos lencinhos de papel, esses que são o paradigma da higiene que tu tão bem combateste (e eu nunca mais disse a ninguém que lenços de pano é que é).

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